O cheiro das flores lhe atingiu com força. Rosas, petunias,
margaridas e lírios. Sempre lírios, estes que desabrochavam ao norte de
seu jardim em Genebra, pétalas brancas e puras com delineados sensuais e
misteriosos. Ela amava rosas, especialmente as vermelhas. Adorava a
alegria das margaridas e a tranquilidade das petúnias, mas os lírios a
assustavam, provocam seus desejos e intrigavam todos os seus sentidos. Como se aquilo tivesse marcado sua história em algum momento.
– Charlotte?- perguntou o mordomo, tirando-a de seu torpor.
Alfred
era um homem de idade, extremamente elegante e que trabalhava para seu
pai desde que Charlotte se via como pessoa. Tinha várias lembranças do
velho homem e de sua gentileza para com ela.
– Sim? - Charlotte
sempre fora gentil, sua voz era suave e convidativa. Seus cabelos eram
acobreados e seus olhos de um azul profundo.
– Adônis acaba de
ligar. Eu disse que a senhorita estava exausta por conta da viagem e
gostaria de repousar - Alfred lhe lançou um olhar reprovador, este que
Charlote conhecia muito bem - O garoto é insistente.
– Ele é - a
menina confirmou, desejando poder mudar esse fato, virou-se para o céu,
diretamente para o sol que banhava seus longos cabelos. Tornando-os tão
brilhantes quanto cristais.
O sol a amava. Todos a amavam, amavam
seu dinheiro, seu status, sua beleza. Sempre havia sido assim, desde que
ela era uma criança, encantava a todos com seus talentos. Aos dez anos
seu pai lhe deixou, a sombra da morte que pairava desde que sua mãe
morrera quando ela era apenas uma garotinha a cobriu de novo. Ainda
pequena fora deixava aos cuidados de sua babá, Antonella e seu tutor,
Thomas. Além de Alfred.
Tornou-se uma jovem invejável, de
sentimentos conflituosos e difíceis de alcançar. Amava jogos, amava
brincar com os sentimentos alheios, mas sentia dentro de si um vazio,
algo que nada nem ninguém era capaz de preencher. Algo que nem o
dinheiro ou até mesmo um garoto havia sido capaz de acalmar, uma solidão
palpável que habitava o interior de sua alma.
Ela fitou mais uma
vez o sol e desejou que ele pudesse banhar sua pele, queria sentir o
vento em seu corpo e as ondas do mar contra sua pele. Queria liberdade e
tranquilidade.
– Da próxima vez que Adônis ligar diga que estou em São Francisco e que ele não deve me procurar.
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Ela
sentiu a vertigem assim que pisou no solo brasileiro. Não era adepta a
grandes temperaturas, por vezes preferia lugares gelados, só apreciava
os raios de sol quando eles aqueciam sua pele suavemente e não quando a
faziam corar bruscamente.
Charlotte voltou seu olhar para o hotel,
uma grande construção beira mar, com janelas de vidro que permitiam
apreciar a bela vista a qualquer momento, o jardim era ornado por uma
calçada de pedras coloridas, esculturas de sereias e outros seres do mar
repousavam sobre a grama rala. Haviam poucas flores, apenas alguns
ramos na entrada do hotel e nada mais, de alguma forma, aquilo
entristeceu Charlotte.
– Senhorita? - um homem jovem, com um
sotaque naturalmente brasileiro falou com ela, Charlote buscou do fundo
da sua memória algumas das aulas do idioma que havia feito quando era
menor.
– Sim? - Ela respondeu do modo mais gentil que pode. O
homem a olhou com certa surpresa, apesar de falar relativamente bem o
português, seu sotaque francês ainda lhe entregava.
– Suas malas já estão em seu quarto, se me acompanhar posso levá-la até lá.
– É claro.
Charlotte
desviou sua atenção do jardim e focou-se em seguir o garoto, depois de
um desconfortável tempo de espera no elevador, ela chegou em seu quarto.
A
aparência do quarto agradou-lhe. Vasos de flores estavam espelhados em
todas as mesas, a vista era ampla, podendo-se ver o mar de qualquer
ponto do quarto, os lençóis eram brancos e do banheiro vinha o som de
água correndo.
Como se tivessem lido sua mente, um banho de espuma
estava a sua espera. Charlotte se despiu e mergulhou na banheira, o
aroma de rosas impregnou-se em sua pele e ela logo se sentiu confortável
naquele lugar. Ela deslizou os dedos delicados sobre sua pele suave,
banhando-se no aroma das flores, soltou seu cabelo e mergulhou na
banheira, a água cobrindo seu corpo nu enquanto a espuma acariciava-a
suavemente.
Estava quase anoitecendo quando ela se vestiu
novamente, trajava um vestido negro com um decote generoso e uma forma
que valorizava se corpo, colocou um pequeno pingente de brilhantes no
pescoço e com os cabelos soltos ao vento desceu para o bar do hotel. Ela
esperava que a noite seguisse como qualquer outra de suas viagens. Ela
encontraria alguém que a divertisse por alguns instantes, antes de se
sentir entediada, e depois voltaria para seu quarto e dormiria por
longas horas até o dia seguinte.
Quando chegou ao saguão do hotel,
sua surpresa com o cenário era notável. O hotel não era mais o beira
mar que ela havia se hospedado horas antes, o cenário havia se
transformado completamente, mesas de apostas preenchiam todo o espaço, o
barman preparava drinques elaborados com perfeição e agilidade, as
mesas estavam lotadas e a presença de Charlotte havia atraído a atenção
de diversos apostadores. Ela sorriu gentilmente para alguns, mas seus
olhos se fixaram em outro homem.
Sentado no bar estava um sujeito
de cabelos negros, barba rala que vestia um terno de linho preto, entre
seus dedos ele segurava um copo com um líquido que parecia ser whisky,
como se ele tivesse sentido o olhar de Charlotte, virou-se para olhá-la.
Então seu coração parou por um milésimo de segundo.
Não
existia mais nada ao seu redor, nenhum ruído, ninguém no salão. Ela se
perdeu na imensidão daqueles olhos azuis que pareciam conhecê-la tão
bem. Aquele estranho causou nela uma sensação de conforto e proteção que
Charlotte não se via capaz de explicar com palavras.
Ele sorriu
para ela e apontou para a cadeira vazia ao seu lado. Ela caminhou
lentamente até lá, analisando os demais traços do homem. Parecia ter
mais de 20 anos e menos de 30. Era bonito, talvez essa não fosse a
palavra exata, ele era lindo, com um sorriso perigosamente sedutor.
Pelas roupas que vestia também deveria ser rico, o que a levou a pensar
que ele havia se interessado nela por sua aparência.
Mas aquilo não importava. Não agora.
Ele puxou a cadeira para que ela se sentasse, Charlotte o fez e repousou as mãos sobre as pernas.
– E você é? - Ela indagou com um sorriso interessado nos lábios.
–
Onde estão meus modos. - desculpou-se o rapaz. - Vincent, Vincent
Carter. A seu dispor - Ele disse segurando sua mão enquanto deu-lhe um
beijo. Mantinha sempre os olhos fixos nos dela.
– Charlotte.
Charlotte Wickery - Ela murmurou, aumentando seu tom de voz quando
repetiu seu nome por completo, o toque dele deixou-a desconcertada.
Ele
era um estranho, poderia ser perigoso, poderia tentar algo contra ela,
pelo menos era o que o olhar penetrante sugeria. Mas se ele poderia
machucá-la, por que se sentia tão segura na presença dele? Por que se
sentia infinitamente bem e completa com ele?
– O que trás uma
mulher tão bela a um lugar como esse? Creio que não seja adepta a jogos
de azar. - perguntou o rapaz tomando um gole de whisky em seguida.
Como se minha própria vida não fosse um jogo de azar.
Ela pensou consigo mesma e recolheu sua mão, pousando-a sobre as pernas
novamente, Charlotte precisava manter uma certa distância para poder
pensar direito.
–Diversão - respondeu por fim, voltando seu olhar para Vincent - E você?
–Estou
a procura de alguém. - confessou Vincent. - Vim de muito longe para
encontrá-la. Não sou de jogar. Prefiro seguir o que vejo a perseguir a
sorte.
Um sorriso provocante surgiu nos lábios do rapaz. Ele olhou
para seu copo. Sua mente gritava para que contasse a ela. Sua vontade
de revelar tudo era insuportável. Mas ele disfarçou com um meio sorriso.
– Uma garota? - Ela perguntou, tentando manter inevidente a tristeza em sua voz.
– Sim, é uma garota. Estou aqui para encontrá-la.
Charlotte
suspirou e afastou uma mexa dos cabelos acobreados do rosto, tentou
esconder seu olhar de decepção e levantou-se lentamente e focou seus
olhos em outros jogadores. Ela deveria ter interpretado errado aquele
olhar. Mas tinha certeza que havia visto desejo dentro dos olhos daquele
homem.
– Acredito que este seja um mau momento então. Vou deixá-lo esperar sua garota.
–
Não se incomode. - ele disse e levantou-se junto com ela. - Ela já
chegou. - afirmou Vincent segurando-a pela mão. Ele sentiu seu corpo
fervilhar ao tocá-la. Seu coração acelerou e esfriou-se
instantaneamente. Era impossível descrever com palavras.
– O que? -
Ela quis responder em alto tom, mas havia saído apenas como um
sussurro, o toque dele a deixava elétrica e incapaz de formular qualquer
resposta aceitável.
Tentando sair do transe em que Vincent a
colocava, Charlotte desviou os olhos para outros homens que a observavam
fervorosamente.
– Você não me conhece.
–Se engana minha
bela. Você não se lembra, mas nos conhecemos. Não conseguirei explicar
para que entenda. Mas acredite em mim. Há muito mais entre nós do que
imagina. - Vince desabafou sem pensar.
Ele não aguentava mais
esperar. Ver sua amada e não poder tê-la é demais. O vazio em seu peito
gritava como uma fera machucada. Clamava por algo que o aliviasse.
–
O que? Não, não! - O tom de sua voz se elevou e atraiu o olhar de
algumas pessoas no salão. Charlotte se acalmou, e se afastou um pouco de
Vincent.
Ele era louco, só poderia estar louco. Mas aquelas
palavras mexeram com ela, como se fossem realmente verdade. Não, não
eram verdade! Não poderiam ser.
Ela decidiu lidar com a situação do melhor jeito que pode e se sentou novamente, mantendo uma distância segura do homem.
– Essa é uma cantada nova. Vocês homens não podem ser um pouco mais criativos?
Vincent
sentou-se ao ver que Charlotte não irá se retirar. Seu interior se
acalmou novamente, mas a ansiedade em torná-la sua de novo o consumiu.
Ele nunca pensara que o Rei dos mortos sentiria isso. Nunca imaginou
Hades, deus do submundo lutando por seu amor. Tentando não perder sua
bela amada novamente.
– Perdoe minhas palavras, Charlotte. - disse ele arrumando sua gravata preta dentro do terno.
Ele se aproximou de seu rosto branco e belo. Seus olhos azuis pareciam penetrar sua mente.
–
Minha bela rainha. Eu vim por você. Vim a seu encontro. Por favor não
se assuste. - ele disse segurando suas delicadas mãos. - Eu não vou
feri-la, pelo contrario, protegeria sua vida por toda a eternidade.
Precisa acreditar em mim, minha Rainha.
Ela se acalmou ao ver que
ele havia se desculpado e se afastado um pouco. Ele mexeu na gravata,
parece nervoso e ansioso, o que de certa forma, a deixava do mesmo
jeito.
Só poderia ser um tipo de piada, ela já havia escutado
coisas piores e mais absurdas. Mas os absurdos de Vincent pareciam
verdades, e ela tentou convencer a si mesma de que não eram.
–Rainha?
- Ela respondeu com humor. Ele estava passando dos limites, aquele
olhar invasor a perturbava. - Me proteger? Eu não preciso de proteção!
Você é louco.
– Por favor Charlotte, precisa acreditar em mim. Eu
sei que no fundo, você sente há verdade no que digo. Sei o que realmente
sente. O vazio a coroe assim como a mim. Eu a conheço como ninguém.
Conheço suas tristezas, angústias e clamores. Sei que acredita no que
digo. - Vincent simplesmente passou dos limites. Ele decidiu que esperar
era perda de tempo. O mundo, assim como seu coração precisavam da
verdade.
O rapaz já nem se importava com os olhares a sua volta. Sua amada era mais importante que aqueles mortais no momento.
Ela odiava o que ele dizia. Odiava admitir que ele tinha razão. Charlotte se encolheu sobre a cadeira e reprimiu uma lágrima.
– Não, você não me conhece. - Murmurou, sentindo sua voz embargada pelo choro.
Vincent não se conteve, e secou a lágrima brilhante que escorreu com o a mão.
–
Não chore minha Rainha. Você não deve ficar triste. Nunca mais.
Finalmente a encontrei. Nunca mais ficará sozinha de novo. - ele afirmou
enquanto segurava seu rosto.
Seu sorriso era doce como nunca visto. O deus dos mortos sentiu sua alma eterna se fortalecer.
– Pare! - Ela bravejou, seus olhos faiscaram. - Pare de me tratar como se eu fosse sua.
Ela
se afastou dele bruscamente, mas os resquícios do toque de Vincent
permaneciam em seu rosto, ela inegável o quanto ela havia gostado
daquilo.
– Charlotte - Uma nova voz atingiu seus ouvidos, uma voz que ela esperava nunca mais ouvir.
– Adônis.
O
jovem de cabelos e olhos claros se aproximou dela, pronto para abracá-la, mas ela desviou de seu toque. Foi quando Adônis encarou
Vincent.
– Quem é o seu amigo? - zomba Adônis.
– Had.. - ele
se interrompe. Sua vontade era apresentá-lo ao deus dos mortos e vê-lo
tremer de medo e se afastar dali. Mas ele se corrigiu. - Vincent Carter.
- ele disse, apertando a mão do jovem com ar audacioso. Ele pôde vê-lo
lutar contra o aperto forte de Vince.
– Interrompo? - perguntou ele.
–
Ele não é meu amigo. - Ela resmungou. A ultima coisa que queria era uma
disputa entre o cara que repudiava e o outro louco que acabara de
conhecer.
– Você deveria ir embora. - Ela disse, diretamente para Adônis.
– Eu vim encontrar você. Eu vim por você.
Aquela mesma frase fez seus nervos estourarem.
–
Me deixem sozinha, os dois, vão embora, por favor. - Ela murmurou, mais
lágrimas despencavam sobre seu rosto enquanto corria para fora do
salão.
– Charlotte! - gritou Vincent em meio a doce melódia de
blues que tocava no bar. Ele tentou segui-la mas foi impedido por Adônis
que segurava seu braço.
– Você deveria deixá-la em paz cavalheiro. - ele disse observando em volta como se procurasse discrição.
–
Como ousa tocar em mim insolente. - bravejou Vincent o fitando com
ódio. Seus olhos mudaram de cinza- azulado para um leve tom de vermelho.
Mas o homem não se assustou, e continuou ali a segurá-lo enquanto acena
para pessoas no bar.
– Não pense que não vi como olha para ela.
Estou avisando, deixe a em paz. -Nesse momento Adônis olhou para Vince
que ainda o fitava com ódio. O rei dos mortos segurou o braço do
convencido rapaz e o removeu devagar. - E eu estou lhe dando um aviso
homem. Toque em mim, ou em Charlotte e sofrerá o pior dos castigos no
fundo do tártaro. - Adônis tentou segurar a dor, mas deixou escapar um
gemido sufocado. Vincent o soltou e caminhou em direção para onde
Charlote se dirigiu.
Ela ouviu as vozes exaltadas dos dois homens,
mas continua correndo para o jardim, onde curiosamente, sente-me mais
confortável. A única coisa que queria naquele momento era ficar sozinha.
Pela primeira vez, ela queria ficar sozinha.
Vincent a encontrou.
Sentada logo ali. Em um banco em meio ao jardim. Ele queria se
aproximar. Mas sentiu como se seu coração o impedisse. O que diabos era
aquela sensação? Ele procurou tanto por sua amada. E agora seu ser se
recusava a incomodá-la. Ele sentiu dentro de si a angustia dela. A mesma
angustia que sentiu por toda a vida.
Nota: Capítulo escrito por Júlia Hornick
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