O homem que chegava naquele momento ao grandioso hotel a beira mar
era famoso ao redor do mundo. Ele foi uma das revelações da última copa e
com certeza seria negociado com algum time grande do mundo. Real
Madrid, Bayern de Munique e até mesmo os milionários Paris Saint-Germain
e Mônaco o queriam em seu elenco. Só que ele mais queria era curtir
férias, andar com seus amigos, beber até o sol raiar e não ter que se
preocupar com a alimentação. Um bom vinho e claro uma excelente
companhia.
Seu trabalho como goleiro do Internacional foi abalado
psicologicamente por ele mesmo. Quando curtia carnaval na Bahia, ele
notou certa estranheza no que via e no que ouvia. Parecia estar em outro
mundo, vendo monstros ao invés de pessoas. Acreditou, obviamente, no
efeito da bebida. Só que a bebida o deixava mais alucinógeno e ele
acabara por perder completamente a noção do tempo e do espaço. Parecia
saber os gostos de cada bebida e as mulheres, sempre elas, eram atraídas
por seu sorriso simples, sincero e mortal. Não era tão bonito, mas
tinha algo que atraia as pessoas. Só que ele não conseguia discernir o
que era real do imaginário e, naturalmente, pensou que ficaria
esquizofrênico.
Foi quando veio à revelação. Sempre ela. Suas
memórias passadas misturavam-se com as do presente e ele foi procurar um
médium para entender melhor as visões que tinha. Logo descobriu o
porquê de tudo aquilo. Ele era nada mais que Dionísio, deus do vinho, da
loucura e do êxtase. Talvez se refletisse no seu jeito de ser, de se
vestir, em tudo. Porém, o médium que o tratou disse que o espírito pode
ser o mesmo, que tudo pode ser influência de seu passado, mas ele era
Cristiano Romário de Wjier. Um humano. Nascido em Bruxelas, criado na
região metropolitana de Porto Alegre e jogador da seleção belga e do
Internacional. As atitudes de uma vida poderiam nunca influenciar da
outra, porque normalmente não há a lembrança. Se ele recordou de sua
vida passada, algo estava muito errado com o fluxo do mundo.
E um deus como ele tinha tudo para descobrir e quiçá parar o que viria a acontecer.
De
férias – graças a deus, ou a ele mesmo... O conceito ficou deturpado a
ele depois da descoberta – ele passou a frequentar lugares visando
despertar mais memórias. Normalmente festas de alto escalão.
Chegou
com seu Corvette ZR devagar e estacionou em frente à entrada do hotel.
Agradecia por não existir jornalistas naquele momento e, por isso,
ajeitou seu colete de brilhantes e colocou o paletó branco por cima do
ombro. Adentraria no caminho, se não visse uma bela mulher ruiva em um
lindo vestido negro caminhando rápido. Atrás dela um homem, naturalmente
gringo. Ela poderia ser estrangeira depois, logo pensara que seria mais
uma briga de marido e mulher. E como ele adorava uma boa treta, quis
observar antes de entrar.
Os dois conversavam exaltadamente.
Quando o homem a pegou pelos ombros a fim de mostrar seu ponto, ele
sofreu um golpe naquele lugar. CR12 como era conhecido pelos fãs sentiu o
golpe mentalmente e, à medida que o gringo se contorcia, a mulher
seguiu caminho. Ele a seguiu até os jardins detrás do hotel. Uma parte
escondida da construção. Assim que ela sentou em um banco e observava as
flores, ele sentiu que poderia se aproximar...
Fingiu estar perdido – essa sempre colava com estrangeiras.
–
Ei moça! – disse com um sorriso branquíssimo e um jeito malandro, a
mesmo que aprendera no Brasil – Eu acabei saindo para uma velha e boa
respirada e me distrai com a beleza do local, agora estou perdido...
Poderia me ajudar?
As lágrimas cortavam o rosto de Charlotte. Uma
face angelical banhada pela dor. Recusava-se a crer nas estranhas
palavras de Vincent. Ela não era uma rainha, tão pouco a amada de tão
sujeito.
Ouviu o som de passos percorrendo o jardim, imediatamente
virou-se. Seu primeiro palpite era de que ele havia retornado, mas seu
coração logo se aquietou quando viu que o homem que se aproximava não
era nem de longe parecido com Vincent.
– Oui? - ela indagou um "sim" em seu perfeito sotaque francês, corrigindo-se logo em seguida. - Sim?
O
homem que se aproximava era, de certo modo, familiar, mas ela ignorou
isso e focou apenas em seu sorriso simpático enquanto secava as lágrimas
em seu rosto.
– Acho que você não me ouviu antes correto? - ele
continuou sorrindo - Eu acabei me perdendo no emaranhado que é a beleza
deste local.
Charlotte arqueou os olhos e devolveu o sorriso.
– Tem razão, o jardim é encantador. – Respondeu ao levantar-se e tocar uma rosa. - Aonde quer ir senhor?
–
A qualquer lugar ou a nenhum lugar - ele coçou a cabeça - Parece que eu
estando perdido encontrei uma bonita companhia pelo resto da noite.
Importa-se de eu sentar e conversar com você?
Ela piscou
demoradamente ao ouvir o elogio. Era claro que ele havia se encantado
por ela. E também era claro que ele havia notado isso. Dera muita
bandeira como se dizia na gíria local.
– Sente-se. - Ela respondeu
gentilmente enquanto fazia o mesmo, achou proveitoso manter tal homem
por perto, ele parecia forte o suficiente para pular em Vincent se ele
voltasse. - Mas a bela companhia ainda não sabe seu nome. - Disse com um
tom gentil e divertido.
– Sério que não me reconhece? Isso é
realmente uma boa surpresa - ele não parava de manter seu sorriso entre
uma sentença e outra à medida que se sentou - Cristiano de Wjier.
Prazer. E, s'il vous plaît, o seu nome é?
Ela se surpreendeu ao
ouvir as palavras em francês, além de belo também era inteligente. -
Desculpe. - ela respondeu exibindo um de seus encantadores sorrisos. -
Charlotte Wickery.
– Então, Charlotte, o que fazes no país do
futebol? Trabalho, prazer - disse ele fitando o vazio e retirando do
jardim uma rosa e a oferecendo - Ah! E isto é pra você.
– Diversão e
prazer. E você Cristiano? - Ela acariciou a rosa com a ponta dos dedos e
a colocou sobre seu colo. - Obrigada. É muito gentil da sua parte
agradar uma estranha francesa.
– Estou aqui apenas de férias sabe.
A temporada foi longa e ainda tem as eliminatórias para a Eurocopa -
bufou o homem - Ah! E é por isso que sei francês, sou belga de nascença.
–
Uma peça rara. Ficaria muito horrorizado se eu lhe contasse que não sei
absolutamente nada sobre futebol? - Ela indagou. - Apesar de amar a
França, tenho que admitir que tenha uma queda pelos jardins de Genebra.
–
Genebra. Joguei pela minha seleção lá e nem tive tempo de conhecer a
cidade direito - ele esticou e cruzou as pernas - E não tem problema
saber nada de futebol, minha família também é dessa maneira. Ninguém
entende só deixa sentir a emoção.
– Acho que eles têm motivos para
se emocionar. Deveria voltar lá, ficaria surpreso com as maravilhas que
iria encontrar. – Respondeu. Suas mãos ainda cariciavam a rosa, como se
tal ato pudesse acalmá-la e reconfortá-la.
– Sinto que está um pouco tensa. Não para de encarar a rosa que eu te dei.
Cristiano
a olhou pela primeira vez para ela desde que sentou. Observou que ela
era mais linda de perto. Mas preferiu manter o status quo. Queria ganhar
a confiança dela. Mesmo que ela fosse uma estranha, parecia que poderia
contar até seus segredos mais internos. Se isso fosse necessário, para
fazê-la confiar nele, o faria de bom grado.
– Não tive um bom
momento esta noite. – Ela sorriu tristemente ao comentar. Seus olhos
fixaram-se nos dele pela primeira vez, Cristiano parecia jovial e
enérgico o tipo de pessoa que a encantaria se não estivesse tão
assustada – As flores me acalmam.
– Compreendo. E aqui te
encontro... - ele murmurou - Mas então, o que gostaria que eu fizesse
para a gente esquecer esse momento não agradável?
Levantou-se e
mostrou suas duas mãos a ela. O luar, a luz da lua que irradiava o céu o
fez ficar com uma espécie de aura na visão daquela jovem.
– Que tal nos aventurarmos um pouco nessa noite?
Ela
sorriu travessa para ele e se levantou de imediato, colocou a rosa
entre os cabelos, decidida a apagar tudo que havia acontecido.
–Acho que é uma ótima ideia.
Correndo
através dos jardins com alguns sorrisos no rosto, ele cumprira com seu
papel de tornar o momento dela mais agradável. Queria dar uma excelente
impressão do país que o acolhera e novamente. Lembranças vieram à tona.
Recordações do tempo que o deus Dionísio organizava festas, banquetes e
outras felicitações a fim de deixar as pessoas tão excitadas e
anestesiadas pela felicidade que esqueciam completamente de seus deveres
e direitos como cidadãos. Uma verdadeira orgia consumava-se depois
dessas festas e ele, como um bom brasileiro, poderia até gostar.
Mas
não o faria com aquela garota. Sentia que ela era um tanto especial e
tratou rapidamente de eliminar suas memórias passadas com o único
objetivo de focar-se no presente.
Logo pegaram seu carro e
partiram em direção a avenida principal da cidade. Após alguns minutos
de estada, eles viraram em uma rua que desembocava na praia e em um
restaurante de frutos do mar. Se ela não gostasse daquilo, iria para
outro lugar com ela. Mas o que importava era a companhia e uma noite
agradável em todos os sentidos.
Sentaram-se em uma mesinha próxima
a barraca. A brisa do mar vinha e reconfortava os dois enquanto um
homem de aparência asiática aproximou para atendê-los.
– Sou Park Ji Young e o que desejam meus caros fregueses? – disse ele sorrindo, com a caneta já em cima de seu bloquinho.
– Vou querer algo leve para a noite e você, Char? Posso te chamar assim não é?
–
O mesmo - A ruiva respondeu lançando um breve olhar ao garçom. - É
claro que pode. – Continuou, desta vez, olhando apenas para Cristiano.
O
garçom se virou por um breve instante para anotar o pedido: Iria
oferecer a comida mais leve do cardápio. Já Cristiano olhou em volta.
Estava desconfiado de alguma coisa, mas não sabia o que era. Preferiu
olhar e apreciar a beleza de Charlotte e deixar passar aquela sensação.
– Agora me conte mais sobre você Char.
– Diga-me o que quer saber, Cris. - Ela respondeu, a presença dele aos poucos afastava as imagens de Vince.
– Vamos pensar assim... Família, seus pais e sua mãe?
–
Meus pais morreram, há anos. - Ela deu um sorriso leve, não era
radiante, mas também não tinha pesar. - Quando meu pai morreu eu deixei a
França, mudei-me para Genebra permanentemente. E sua família?
–
Minha família é uma conservadora. Meu pai e minha mãe trabalham como
comerciantes. Se conheceram numa viagem da minha mãe a Europa, a
Bruxelas e veio comigo pequeno para cá. Minha irmã faz faculdade. Não
curtem futebol como eu... Muito simples para um astro não acha?
Charlotte riu brevemente e assentiu.
– Eu diria que sim, mas fiquei curiosa em saber como você se apaixonou pelo futebol já que sua família não foi uma influência.
–
Eu diria que foi vendo jogos pela TV na casa de alguns amigos. Dei
sorte de ver alguns memoráveis e que mexeram com minha emoção. -
Cristiano sorriu, dessa vez, meio envergonhado - Se bem que para você,
deve ser estranho sentir emoção por causa de algum esporte.
– Me pareço tanto assim com a Barbie? - Ela mordeu o lábio inferior.
–
Não, Não. - ele gargalhou abertamente - Digo por que eu via as caras da
minha família e sua face lembrou quando as coisas que eu dizia para meu
pai sobre o futebol.
Ele tratou-se logo de se corrigir.
– E você Char, faz o que da vida?
–
Fico feliz que meu desentendimento não tenha lhe assustado. - O riso
dele a fez sorrir também. - Viagens, festas, caridade... Meu tutor ainda
acha que eu não estou pronta para assumir os negócios da família.
– Será uma empresária então? De que ramo, se é que me permite perguntar.
–
Meu pai foi fundador do grupo Lagardère, focado na comunicação e na
área aeroespacial. - Ela respondeu. - E você, planos para o futuro?
–
Eu tenho contrato vitalício com uma marca de material esportivo. Tenho
que me manter em alto nível até o fim da carreira - disse ele piscando
os olhos - Prefiro focar no presente sabe, pois o futuro a deus
pertence.
De novo. A palavra proibida perseguia Dionísio, ou melhor, Cristiano.
– Um homem do momento - Charlotte comentou e sorriu.
– Mas vejo que faz caridade... Além de linda é uma pessoa virtuosa também?
Ela se moveu na cadeira e fitou o mar por alguns instantes.
–
Eu tento. Depois da morte da minha mãe, meu pai se compadeceu com
algumas causas. Cresci vendo-o ajudar crianças, homens e mulheres.
Pode-se dizer que isso também cresceu em mim.
– Sério? Você não
aparenta ser uma dessas pessoas, Char - disse ele, arrastando sua
cadeira, e ficou a centímetros de distância a ela.
– Me dê um voto de confiança. - Ela respondeu sorrindo, o olhar dele a deixava inebriada.
– Quantos votos você quiser.
E
ali, sobre o luar da cidade de São Francisco, os dois se beijaram
ardentemente. No quiosque, o garçom retirou uma maquina fotográfica e
tirou uma sequência de fotos daquele beijo que poderia mudar a história
do panteão emblemático que era o Olimpo.
Charlotte se perdeu entre
os lábios dele, com curiosidade, ela notou que eles tinham o gosto de
um vinho adocicado, viciante que lhe despertava doces lembranças.
Ela permitiu que os braços dele a acolhessem e a acalmasse, a sensação era a mesma que caminhar descalça em um jardim.
Cristiano
também se perdeu nos lábios daquela mulher. Tão cheirosa quanto uma
rosa da mais bela estação. Tão doce quanto a mais bela uva das vinícolas
gauchas que costumava visitar. Aquela era uma verdadeira mulher.
Entregou-se completamente a ela e isso dissipou quaisquer pensamentos
negativos.
O garçom oriental tirou mais uma nova sequencia de
fotos, de todos os ângulos possíveis e procurou mandar via e-mail para
alguém em outro canto da cidade. O titular tinha apenas um nome.
Desconhecido.
Mas, tanto Cristiano como Charlotte, não se
importavam com nada a não ser o calor daquele momento. Não eram uma
herdeira e um famoso jogador. Eram apenas um homem e uma mulher
entregando-se aos prazeres.
E além de Park, somente a noite era testemunha daquilo.
Ou assim pensava-se.
Nota: Capítulo escrito por Vini Ribeiro
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