– De novo não... – repetiu Alice a si mesma, baixinho.
A
serpente do mar aproximou suas narinas para perto das meninas e as
farejou por um tempo que parecia interminável, elas continuaram imóveis
enquanto eram farejadas, então a serpente recuou até seu pescoço fazer
uma reta na vertical e rugiu. O chão sob os pés delas tremeu e as
árvores que estavam a alguns quilômetros balançaram violentamente, elas
voaram alguns metros com o rugido. Era difícil abrir os olhos com tanta
areia voando e ainda mais difícil levantar e andar sem voar metros para
trás, então optaram por ficarem ali, deitada no chão da praia, até o
rugido cessar.
Depois de alguns minutos que pareceram uma
eternidade, o monstro parou de rugir e se preparava fazer sua refeição
com os corpos das duas meninas, porém Barlow fora mais rápido. De alguma
forma, ele aumentou seu tamanho em muitas vezes, assemelhando-se a um
ligre, colocou Jade em suas costas enquanto segurava Alice pela boca e
as tirou do lugar onde estavam no momento em que a serpente ia comê-las,
deixando-a morder apenas areia.
Barlow correu para bem longe da
praia o mais rápido que pôde, enquanto a serpente rugia de raiva atrás
deles. Ele só parou de correr quando estavam dentro de uma pequena
floresta tropical da ilha, um lugar seguro, ao menos era o que parecia
naquele momento. Ele colocou Alice no chão, que não parava de reclamar
por estar na boca do animal, com delicadeza e se abaixou para que Jade
pudesse descer. Ele voltou a sua forma de esquilo após Jade ter
desmontado dele.
– Ain, que nojo! – exclamou Alice – Você deveria
ensinar boas maneiras para esse animal de estimação, seja lá qual for a
espécie desse animal estranho! – resmungou Alice novamente.
– Eu
e Barlow nos conhecemos hoje, mas já fizemos uma linda amizade. – com
um dedo, Jade coçou a cabeça do esquilinho em seu ombro.
Alice
queria continuar a brigar, mas estava enojada demais com a baba do
animal em suas roupas para continuar brigando. Ela se restringiu a ir
embora sem dizer mais nada, seguiu a primeira trilha que viu pela
frente. Jade foi atrás da menina, e não abriu a boca para falar o que
quer que seja durante todo o caminho. As duas se embrenharam ainda mais
na floresta em silêncio.
Por ser uma floresta tropical, ela era
densa e muitas vezes elas tiveram que abrir caminho com as mãos.
Mosquitos de todos os tipos e tamanhos as picavam em todas as partes do
corpo, moscas e cigarras zumbiam em seus ouvidos enquanto cobras e
aranhas apareciam de toda parte para assustá-las.
Certa vez,
enquanto elas estavam caminhando, uma cobra-cipó caiu do alto de uma
árvore na cabeça de Jade. Ela teve vontade de gritar, mas reprimiu o
grito lembrando-se do que aprendera em suas aulas de escoteiro, ela não
deveria gritar e sim ficar parada e esperar a cobra ir embora. Era o que
ela pretendia fazer, mas Alice ouviu os guinchos da cobra quando esta
vira o esquilo e tentara comê-lo. Ela instintivamente pressionou a
cabeça da cobra, para que esta não abrisse e a mordesse, e segurou o
corpo delgado da cobra de cor verde com outra mão, então a tacou em
algum lugar no meio das plantas, bem longe delas. Elas voltaram a
caminhar logo depois.
Outra vez, uma aranha relativamente pequena
e toda vermelha embolou-se no cabelo desgrenhado de Alice. Jade a viu
enquanto tentava andar por um cabelo cheio de nó e avisou Alice para
ficar parada, foi a vez dela de tirar a aranha do cabelo da outra.
Cuidadosamente, ela permitiu que a aranha subisse em sua mão, ela levou a
mão até uma planta que estava por perto devagar e deixou que a aranha
fosse para a planta, assim elas puderam continuar a caminhada novamente
em silêncio.
Ao final do dia, elas encontraram uma clareira com
uma lagoa no final da trilha que seguiram. Elas estavam imundas,
cansadas, mordidas por mosquitos e arranhadas. As mãos das duas estavam
em carne viva de tantas plantas que tiveram de tirar do meio do caminho,
as pernas e braços também estavam arranhados e o corpo inteiro coçava
com as mordidas de mosquitos. Naquele momento, aquela lagoa parecia o
paraíso para elas.
Elas entraram e se banharam com a roupa que
vestiam, nenhuma das duas tinha coragem para tirá-las, poderiam ser
surpreendidas a qualquer momento por algum inimigo e estar nua não seria
agradável se acontecesse. Ou poderia haver algum animal venenoso dentro
da água para mordê-las, as roupas lhes concediam uma maior proteção,
apesar de pequena, em uma situação dessas.
A água não estava nem
quente nem fria, estava morna e deliciosa. Elas nadaram e mergulharam ao
lado dos peixes, que não pareciam se importar com a presença das duas,
refrescando-se e limpando a sujeito em que estavam suas roupas. A
pequena tempestade de areia provocada pela serpente e a densa floresta
tropical deixaram as roupas das duas em estado precário de imundo. O
cabelo delas também estava imundo, com areia para todos os lados, e
embaraçado.
Após o banho, elas se organizaram para arrumar
comida. Jade foi pescar alguns peixes enquanto Alice ficou encarregada
de pegar algumas frutas. Alice não precisava ir muito longe, no limiar
da floresta havia inúmeras árvores frutíferas, frutas eram o que não
faltava ali. As mãos de Alice doíam enquanto ela tentava pegar as
frutas, mas ela não se importou, estava faminta demais para se preocupar
com ferimentos.
Dez minutos foram suficientes para juntarem
bastante comida, elas fizeram uma pequena fogueira, assaram os peixes e
dividiram em partes iguais toda a comida. Alice comeu toda a sua parte e
Jade dividiu a dela com Barlow, que, apesar de pequeno, o bichinho
comia como um animal maior.
O cansaço das duas falava mais alto
do que tudo, elas se ajeitaram, cada uma em seu canto, para dormir
quando terminaram de comer. Alice virou as costas para Jade e esta pegou
os pergaminhos de sua mochila, ela queria decifrar o que estava escrito
neles e este parecia um bom momento.
– Acabei de me lembrar de que eu não sei seu nome. – disse Alice observando o céu estrelado.
– Jade.
– Alice.
Alice
pegou no sono tão rápido quanto jantou e em poucos minutos já parecia
estar em seu sono profundo com uma respiração pesada, talvez fosse o
cansaço e os vários acontecimentos do dia ou este era o tipo de sono que
ela tinha. Seja lá qual fosse o caso, Jade não saberia dizer.
Ela
fitou o céu, pensativa. Estavam se encaminhando para o oitavo dia
naquele lugar e ela já encontrou várias coisas interessantes pelo
caminho, até um pequeno amiguinho ela fez! Até agora, parecia tudo estar
perfeito, como em um sonho que ela não gostaria de acordar. Aquele
parecia um lugar melhor do que seu planeta natal, pelo menos até o
momento.
Do céu, ela fitou Barlow. Ele dormia perto da fogueira e
estava todo enrolado no próprio corpo, parecia feliz e relaxado, além
de quentinho com o calor da fogueira. Alice também parecia relaxada e um
pouco espaçosa, ela havia se esparramado por todo o outro lado da
fogueira. Nenhum dos dois pareciam se preocupar com ruídos vindos de
pequenos animais na floresta ou com os insetos que se locomoviam em cima
deles, apenas dormiam tranquilamente.
Acho melhor dormir também,
pensou ela. Já estava tarde e ela estava cansada, um bom sono a faria
bem. Ela guardou os pergaminhos dentro de sua mochila e deitou-se para
dormir dentro do seu saco de dormir, trazer seus equipamentos de
escoteiro havia sido uma boa ideia, apesar de ela não ter escolhido
isso. Ela adormeceu rapidamente como os outros dois.
Alice
se remexia muito enquanto dormia, estava irrequieta. Suas roupas
estavam molhadas de suor, mesmo sem o calor da fogueira, ela não parava
de suar... E de se mexer. Alguma coisa não estava certa, sonhos
conturbados chegavam a sua mente e a deixavam inquieta, mesmo ainda
dormindo.
Ela sonhava com Lyria, a pequena elfa que ela conheceu
na semana anterior. Ela sabia que o que viveu na aldeia de Lyria era
real, podia sentir isso, embora não conseguisse explicar o
desaparecimento de toda a aldeia e seus habitantes. Ela procurou em
todos os lugares ao redor da aldeia naquela manhã, mas não havia um
único sinal de que houvera uma aldeia naquele lugar, apesar de ela ainda
carregar a pedra que Mewen dera a ela. Esse acontecimento a perturbava
de todas as formas possíveis.
Em seu sonho, Alice estava de volta
àquela aldeia, as construções estavam no mesmo lugar e do mesmo jeito
que se lembrava. Ela estava no centro da aldeia, um lugar privilegiado
para olhar todas as construções da aldeia. Normalmente aquele lugar
estaria cheio de crianças, idosos, homens e mulheres trabalhando, mas
naquele momento estava completamente vazio.
Ela tentou procurar
alguém na aldeia, mas não havia ninguém em parte alguma, era apenas ela
em um lugar que desapareceu do dia para a noite. A aldeia parecia estar
no mesmo lugar que ela se lembrava, no qual ela acordara na manhã
anterior. Este era mais um fato que a perturbava.
Alice caminhou
pela aldeia e passou em cada construção que havia naquele lugar atrás de
alguém, começando por aqueles que estavam no térreo, onde ela estava.
Ela entrou em todas as casas para verificar o interior, mas ninguém
parecia estar ali, então passou para o primeiro piso.
Uma música
bem fraca começou de algum lugar, a princípio ela não percebeu, mas a
música se tornava cada vez mais alta. Ela correu mais rápido na sua
verificação, a música parecia estar vindo de algum lugar daquela aldeia,
ela só não sabia dizer de onde exatamente. No primeiro piso também não
havia ninguém, nem no segundo, terceiro ou quarto.
Na metade dos níveis da aldeia ela começou a correr de um lugar a outro, a música precisava
vir de algum lugar, foi o que ela pensou. Mas estava enganada, ela
chegou ao último nível, o sétimo, e não havia ninguém na aldeia. Talvez
aquela música viesse de algum lugar próximo da aldeia, ela teria pensado
nessa possibilidade se não tivesse ouvido a voz de Lyria enquanto
tentava pensar numa explicação.
– Você deve avisá-la, Alice, quando a encontrar. – relembrou Lyria.
–
Avisar sobre o que? A quem? – Alice não entendia o que Lyria realmente
queria com ela. Ela se lembrava de Lyria pedindo um favor a ela, mas por
alguma razão, não conseguia se lembrar de qual era.
– Apenas avise-a quando a hora chegar. – respondeu Lyria.
Alice
insistia em suas perguntas, mas Lyria já havia partido. A música de
fundo foi desaparecendo aos poucos junto com a aldeia, e quando tudo
desapareceu, ela estava li, de pé no mesmo lugar que acordara naquela
manha. Não havia sinal de alguma aldeia da mesma maneira como acontecera
antes, mais uma vez desaparecera sem ela entender o que estava
acontecendo.
Alice acordou num pulo exasperado, Jade e
Barlow acordaram assustados com o pulo de Alice. Ela estava encharcada
de suor e respirava com certa dificuldade, mas parecia estar bem à
medida do possível. Ela apoiou a cabeça em uma das mãos e tentou
respirar devagar.
– Você está bem? – perguntou Jade, preocupada.
Barlow
também parecia preocupado, ele correu até a mão de Alice que estava
apoiada no chão e a cutucou com o focinho, retrucando algo que ela não
conseguia entender.
– Sim, só tive um sonho estranho, nada demais. – respondeu, recuperando o fôlego – Volte a dormir, ainda está cedo.
Jade anuiu, sonolenta, e voltou a dormir junto com seu animalzinho Barlow.
O
sol já apontara no horizonte, mas ainda estava um pouco escuro. Não era
possível ver mais as estrelas no céu, a pouca luz do sol que o planeta
recebia era suficiente para escondê-las e, apesar do nascer do sol não
estar ainda completo, era possível vislumbrar um céu límpido, sem a
presença de nuvens.
Outros jogadores deveriam estar dormindo ou
acordando, pelo menos foi o que Alice pensou. Não seria problemático se
ela tomasse um banho descontraído, ela precisava relaxar um pouco ou
entraria em curto, era muita informação para a cabeça dela tudo o que
viveu nos últimos sete dias. Um bom banho ajudaria a pôr a cabeça no
lugar, fora que ela se sentia nojenta, fedida a suor.
Ela despiu
parte de suas roupas e entrou na lagoa com suas roupas íntimas. Tinha
tantas perguntas a respeito do que Lyria queria, porém, mesmo que todas
as células de seu corpo se esforçassem para lembrar o que aconteceu
naquela noite e o que Lyria havia lhe pedido, nada vinha à mente, era
como um branco em sua memória.
Quando Jade acordou, algumas horas
depois, a fogueira estava novamente acesa. Um largo tronco de alguma
árvore estava cortado ao meio e, cada uma das partes, estava perto da
fogueira, um do lado do outro, como se fossem uma pequena mesa. Um dos
troncos tinha uma grande folha em cima, que estava molhada como se a
tivessem lado, e uma grande variedade de frutas daquele lugar sobre a
folha, as frutas também estavam lavadas. No outro tronco havia cinco
peixes, todos mortos e prontos para serem assados na fogueira.
– Nossa, você preparou um banquete. – comentou Jade.
– Ficar no tédio estava em incomodando... – ela deu de ombros.
Elas
assaram os peixes, cada uma comeu dois peixes e Barlow comeu um, depois
comeram algumas frutas. Jade comeu até se sentir satisfeita, já Alice
comeu até ser fartar, ela achava aquela comida maravilhosa, muito melhor
do que ela comia em seu mundo. Talvez seja esse o motivo de comidas
naturais em seu mundo serem tão caras, eram deliciosas e demoradas para
produzidas, pois era preciso esperar um bom tempo para que as plantas
cresçam e deem frutos e os animais cresçam e engorde o suficiente para o
abate.
O que sobrou da comida, Jade guardou em sua mochila para
comerem mais tarde, afinal nunca poderiam prever onde estariam quando
sentissem fome novamente, pois aquele era um mundo inóspito e cheio de
acontecimentos imprevisíveis. Elas sequer poderiam afirmar se
continuariam no jogo daqui algumas horas, ou mesmo minutos.
Elas
levantavam acampamento quando uma forte ventania começou e as pegou de
surpresa. A princípio conseguiam andar no sentido contrário da ventania
com alguma dificuldade, mas tudo mudou quando Jade colocara a mochila
nas costas, o peso da mochila e a altura da jovem foram fatores
importantes. Seus pés deslizavam devagar sobre a grama e ela era
arrastada para trás, sua altura lhe conferia um péssimo equilíbrio e,
vez ou outra, seu corpo ameaçava a tombar. Alice tentou ajudá-la a se
equilibrar segurando a mão dela e puxando-a para frente enquanto
forçava-se a dar passos para frente. Na outra mão de Jade, Barlow tremia
de medo enquanto a menina o segurava para não virar um esquilo-voador e
sair voando por aí.
A ajuda de Alice funcionou até o vento ficar
mais forte e a arrastarem para trás, na direção da lagoa. Folhas,
frutas e galhos voavam da floresta na direção delas, deixando hematomas e
mais arranhões. Jade tentou se teletransportar para frente, mas era,
então, jogada ainda mais para trás e arrastava Alice consigo. Um grande
tronco voou e bateu na canela de Alice, ela soltou um gemido antes de
perder o equilíbrio e ir de cara para o chão, mas Jade a impedira de dar
de cara no chão. Alice era a única coisa que mantinha o corpo de Jade
ereto e impedia que ela fosse arremessada para trás, quando Alice caiu, o
corpo dela perdeu seu ponto de equilíbrio e fora arremessada para
dentro da lagoa levando Alice consigo.
Quando elas emergiram, a
ventania havia desaparecido tão misteriosamente quanto havia aparecido e
tudo parecia estar em seu estado natural, exceto pela bagunça que a
ventania deixara. Havia folhas, frutas, galhos e pedaços de troncos de
árvores para tudo o que era canto, alguns animais menores que voaram com
a ventania parecia atordoados. Plantas haviam entrado na boca delas
quando mergulharam na lagoa contra a vontade delas.
Elas tentaram
sair da lagoa, mas não foi tão fácil quanto imaginavam, na verdade foi
impossível. Quando chegaram à parte onde os pés delas alcançavam o chão,
um redemoinho se formou e elas foram puxadas para o centro da lagoa.
Nadar contra aquela correnteza era inútil, tudo o que elas puderam fazer
foi nadar para a superfície quando eram puxas para dentro da água e
tirar as plantas que entravam em suas bocas.
No centro do
redemoinho, elas foram puxadas para dentro da água. Elas bebiam água
enquanto tentava desesperadamente nadar até a superfície para respirar,
plantas que voaram para a lagoa e algas entravam em suas bocas junto com
a água. Por um momento elas pensaram que aquele seria o fim delas, um game over,
estavam cansadas de nadar sem ter qualquer efeito. Faltava ar em seus
pulmões, era questão de poucos minutos até a água entrar até pelo nariz
delas e inundar os pulmões, matando-as por afogamento. Era o que
pensavam, mas estavam erradas.
Aquele era um fenômeno comum
próximo àquela lagoa, uma misteriosa ventania aparecia arrastando tudo
para dentro da lagoa e, quando esta desaparecia, um redemoinho começava e
levava tudo e todos para dentro de um pequeno túnel na área mais
profunda da lagoa e então o túnel se fechava escoando parte da água e de
tudo o que estava dentro da água. Este era um fenômeno natural e
acontecia no último dia da lua nova, povos antigos nomearam aquele lugar
como A Lagoa do Redemoinho.
Após entrarem no túnel,
elas foram jogadas dentro do mar, abaixo da ilha. A ilha parecia flutuar
sobre a água, pois não havia qualquer tipo de formação rochosa que a
sustentasse, ao invés disso, havia uma extensa membrana que prendia a
ilha no fundo do rio. A membrana era fina, translúcida e resistente,
havia pequenos buracos pela membrana que permitia os peixes circularem
dentro e fora livremente. No fundo havia algo que parecia uma cidade no
fundo de um largo rio.
Desde que elas passaram pelo túnel e
chegaram àquele lugar, elas não mais a necessidade de respirar pelo
nariz e sentiam-se estranha, como se algo tivesse mudado. E realmente
mudou! Elas não perceberam de início, mas depois que olharam uma para
outra, entenderam o motivo de não precisarem mais usar suas narinas para
respirar. O corpo delas havia mudado, guelras apareceram um pouco
abaixo do maxilar delas, o pulmão também mudara, era capaz de retirar
oxigênio da água e transportá-lo pela corrente sanguínea para todas as
células delas. Elas não precisavam mais ir até a superfície para
respirar.
As mudanças não paravam por ai, uma fina membrana
aparecera entre todos os dedos delas, tanto das mãos quanto dos pés,
havia também uma membrana maior que unia toda área do braço, desde o
ombro até o cotovelo, à lateral do tronco de seus corpos. Esta membrana
era bem grande e elástica, permitia que elas abrissem o braço e
formassem um ângulo de 90º com o corpo em modo relaxado, elas ainda
podiam abrir o braço em um ângulo de 180º em relação ao corpo usando a
elasticidade da membrana sem arrebentá-la. Finas e maleáveis barbatanas
cresceram de seus tornozelos, pareciam como caudas de peixes que as
ajudavam a nadar.
Barlow foi o único a permanecer sem alterações,
continuava na forma de um esquilo. Ele não precisava daquelas
transformações todas, como uma quimera, era só se transformar em um
peixe ou qualquer coisa do tipo, e foi o que ele fez. Ele se transformou
em um pequeno peixe vermelhinho e se escondeu entre as madeixas de
Jade.
Jade e Alice nadaram até o fundo, onde se encontrava a
cidade. Lá do fundo, a cidade era completamente diferente de vista lá de
cima, elas perceberam que a cidade era feita toda de pedra e algumas
casas pareciam cavernas esculpidas de pedras de formação vulcânica.
Havia placas de sinalização por todos os lados e, apesar de não ter
ninguém morando naquela cidade, aquele era um lugar bem iluminado, elas
não sabiam explicar como, pois não havia nenhuma fonte de luz concreta,
tampouco o sol chegava a tão fundo. Parecia tudo mágico.
Elas
pararam em uma grande praça no centro da cidade. Exatamente no centro da
praça e da cidade estava a estátua de uma mulher, era um monumento
também feito de pedra talhada. Ela estava de pé e olhava para o
horizonte, em uma das mãos ela segurava um livro de nome Mithra e na
outra segurava um travesseiro. Em suas costas havia três pares de asas.
A
primeira era a menor de todas as outras duas e saia de suas costas
quase na altura da cervical, finos ossos sustentavam a membrana que
formava as asas, eram tão finas que pareciam se rasgar facilmente.
Assemelhava-se muito às asas de um morcego. O segundo par de asas eram
enormes, tinha duas vezes o tamanho do primeiro par e saía das escápulas
de cada ombro. Esse par era todo plumado com grandes e delicadas penas,
tinha o formato e aparência de asas angelicais.
O terceiro par
era o maior de todos, este parecia ser projeções da parte dorsal de seus
braços e eram tão grandes que poderia abraçar todas as outras duas
asas. Esta era a mais estranha e diferente de tudo o que as duas já
viram, eram asas escamosas. Grandes escamas revestiam todo o par de asas
desde o inicio delas na parte dorsal de seus braços, com os o osso dos
cotovelos projetados para fora em alguns metros e servindo como a base
inferior das asas, até a ponta delas. Essas asas mediam mais de dez
metros de comprimento, enquanto a primeira parecia medir um metro e a
segunda dois metros.
A mulher da estátua também havia caudas que
se pareciam com caudas de animais dos mais variados possíveis. Jade não
conseguiu distinguir todos os animais ou quantas caudas tinham, eram
várias, talvez uma para cada animal que existia no mundo, até de animais
mitológicos que só ouvira falar ou vira em livros, como dragões.
No
pedestal onde se encontrava a estátua, havia talhado um pequeno nome.
Jade o leu enquanto Alice se distraía com a forma majestosa daquela
mulher. Apesar de ser apenas uma estátua, era de tirar o fôlego.
– Mill. – leu Jade em voz alta.
– Mill... – repetiu Alice, pensativa.
Alice ficou em silêncio por alguns minutos, pensando naquele nome.
– Eu conheço esse nome! Só não consigo me lembrar de onde...
– Talvez ali explique quem é Mill. – Jade apontou para duas placas de pedra maiores do que ela.
As
duas andaram até as placas que estavam alguns metros atrás do
monumento. Eram placas também de pedra, porém nelas estava talhada uma
série de letras contando a lenda.
– Diz aqui que Mill era uma
espécie de Deusa para o povo que vivera aqui. A lenda diz que ela criou
Mithra a partir de seus sonhos.
– Mithra?
– Mithra seria este planeta que estamos agora...
Elas pararam de conversar e olharam ao seu redor, depois se olharam, espantadas.
– Espere, como podemos conversar embaixo da água? – indagou Alice.
– Eu não sei... Talvez seja esse lugar, Mithra, há muita magia por toda parte. Talvez esteja escrito nessas placas...
Jade
voltou a ler as placas, estava interessada naquela história, na
história daquele lugar incrível. Porém Alice não pensava do mesmo jeito,
ela não tinha interesse na história, a única coisa que ela se
interessava era em se lembrar de onde ouviu o nome Mill e o que Lyria
queria com ela. Tantas perguntas sem respostas, quanto mais ela estava
naquele lugar, mais perguntas tinha. Sentia que iria enlouquecer logo,
não lembrar o que aconteceu com ela naquela noite e não saber o porquê
de tudo aquilo a estava enlouquecendo.
– Aqui diz que as quimeras
eram animais sagrados, pois lembravam a Deusa. Assim como eles, ela
podia assumir a forma que quisesse. Eles acreditavam que Mill era uma
espécie de quimera. – Jade se virou para fitar Alice, ela parecia um
pouco distraída e não muita prestava atenção no que Jade dizia.
– O que disse?
– Nada, deixa para lá.
Por
longos minutos o silêncio reinou naquele lugar, as duas estavam
concentradas em suas atividades, Jade lia as placas e Alice estava
absorta. Era tão calmo naquela cidade que por um momento elas deixaram a
guarda baixa, não pensaram na possibilidade de sofrer um ataque em um
lugar sem vida como aquele. Um pequeno errou que custou caro.
Um
competidor aproveitou a guarda baixa das meninas e as atacou. Uma onda
de choque atingiu as duas e as arremessaram para longe. Antes do impacto
com uma parede de pedra, Jade conseguiu se teletransportar para um
lugar seguro, mas Alice não tivera tanta sorte. Ela foi direto ao
encontro com a parede, que se quebrou em cima dela com o impacto. O chão
de pedra que recobria a areia do fundo e as placas com os escritos
também se quebraram, areia se levantou e se misturou a água, deixando
tudo turvo por alguns minutos.
– Alice! – gritou Jade.
Jade
gritou inúmeras vezes por Alice, mas ela não respondia. Jade correu até
onde Alice estava, tentou retirar parte dos escombros enquanto gritava o
nome da amiga sem obter resposta. A tranquilidade abaixo dos escombros
era anormal, e isso preocupava Jade.
– Menos uma. – disse o rapaz rindo.
A
água ainda estava muito turva quando Jade se virou para ver quem as
atacara. Do outro lado estava a silhueta de um rapaz, não era muito alto
nem muito forte, ele devia medir cerca de um metro e cinquenta e era
bem magro. Jade não conseguiu enxergar mais do que esses detalhes com a
poeira levantada.
– Desgraç... – tentou dizer Jade antes de ser jogada em outra parede.
A
parede ruiu atrás de si e ela caiu do lado de dentro de uma pequena
casa. Lá dentro era muito escuro, diferente do lado de fora, o que a fez
reavivar uma de suas dúvidas: de onde vinha toda aquela luz do lado de
fora? Contudo, ela não teve tempo suficiente para pensar na resposta, a
queda de uma parede fez toda a estrutura da casa ruir, tudo cairia em
cima dela se ela não tivesse se teletransportado de volta à praça no
último segundo.
Socos vieram de todos os lados, um veio por trás e
acertou suas costas, outro acertou seu rosto e outro acertou seu
abdômen. Golpes de todas as direções vinham e ela não sabia com o que
estava lutando, pouco conseguia ver o que a atacava, parecia que a
própria água a estava atacando.
Barlow tentou ajudar, ele se
transformou em uma fera aquática enorme, de cinco metros de comprimento.
A pele era dura e resistente, como a de um crocodilo, as seis patas
eram grandes e tinham garras afiadas, a mordida era forte e poderia
rasgar alguém com facilidade. Barlow investiu contra o inimigo, mas algo
o atacou pelo lado com violência e o lançara em cima de várias casas
por cinquenta metros.
– Barlow! – gritou Jade.
Nada, nenhuma resposta, nenhum ruído ou sinal de vida de Barlow. Estava quieto, quieto demais.
– Chore, chore mais. – disse o rapaz com um sorriso no rosto.
A
poeira havia finalmente abaixado e permitiu Jade ver quem era. O rapaz
era magro e baixo, tinha a aparência semelhante à de um peixe com dentes
afiados, guelras em todo o pescoço e braços e pernas em forma de
barbatanas. A pele era úmida, como de um sapo, e de cor azul-piscina. Se
o rapaz não tivesse uma aparência um pouco humanoide, ela poderia jurar
que aquele era o maior peixe que ela já vira.
– Você deveria se apresentar antes de atacar os outros. – disse Jade, enfurecida.
– Que diferença isso faz? Você morrerá aqui e logo.
Um
sorriso perverso se estampou no rosto do rapaz e novamente vários socos
vieram de todos os lados atacando Jade. Ela foi mais esperta dessa vez,
teletransportou-se antes que os ataques viessem, ela sabia que viriam.
Sabia que não podia ficar parada em um mesmo lugar por muito tempo ou
seria espancada, então ela se teletransportou inúmeras vezes até
alcançar o rapaz, que continuava parado no mesmo lugar.
Tentou
chutar a cabeça do rapaz, mas algo agarrou sua perna quando o pé
encostou em alguma coisa, foi quando ela viu, apenas por alguns
segundos. Ao redor do rapaz havia uma espécie de barreira e dessa
barreira vários tentáculos saíam, pareciam bolhas de ar, mas não eram.
Aqueles tentáculos eram feitos de água pura, por isso ela não conseguia
vê-los antes.
O tentáculo em preso sua perna a jogou para longe. A
força do arremesso fora tanta que ela bateu em várias paredes de pedra
no caminho. Sentia seu corpo ainda mais dolorido que na noite anterior
por causa da batalha, mas não queria desistir. O desejo que poderia
fazer quando chegasse à biblioteca era a única coisa que a mantinha em
pé, lutando, não poderia desistir da única oportunidade que recebera
para mudar sua vida.
– Força. – disse uma voz. Ela não sabia de quem era a voz ou de onde viera, mas aparentemente apenas ela escutara.
Jade
tentou investir novamente, sempre se teletransportando até chegar ao
rapaz. Ela precisava melhorar a velocidade de seus movimentos, talvez
assim tivesse uma chance. Tentou um soco dessa vez, vindo de cima.
Novamente o tentáculo a jogou para longe.
– Use tudo o que tem, Jade. – disse novamente a misteriosa voz.
Como a voz sabia o seu nome? Pensou a menina.
Ela
tentou usar uma investida com o teletransporte e outra habilidade, a
telepatia, como a voz sugerira. Primeiro teletransportou várias vezes
até chegar ao rapaz, quando estava bem próximo, ela tentou usar a
telepatia para desfazer a barreira. Contudo, seu plano não funcionou,
algo bloqueou seu acesso à mente dele e ela foi jogada na rua ao lado da
casa onde Alice estava. Ela estava ficando de saco cheio daquilo,
precisava pensar em algo e com urgência.
– Você não tem apenas duas habilidades, Jade. – disse a voz.
Como eu poderia usar minha terceira habilidade? Não há animais por perto, Barlow também não se move, Jade pensou enquanto estava deitada no chão e fitando a parte debaixo da ilha que elas vieram.
– Isso é tudo o que tem, mulher? – escarneou o rapaz. Ele ria maldosamente para Jade.
Ela
levantou com esforço e se preparava para atacar novamente o rapaz
quando Alice a surpreendera e se levantou dos escombros. Os membros
superiores de Alice balançavam no ar enquanto a parte dorsal de suas
costas e a cabeça estavam curvadas para baixo, o joelho esquerdo estava
virado para um lado estranho e o pé direito estava completamente
quebrado. Alice emanava uma aura pesada e sombria.
– Ora, ora, olha quem ressurgiu das cinzas. – disse o rapaz ao ver Alice.
Alice
não respondeu verbalmente, ao invés disso, estalos de suas juntas eram
ouvidos. Ela endireitou o pé quebrado, o joelho esquerdo, a postura de
seus ombros e seu pescoço, era possível ouvir ossos e juntas estalando
todas as vezes em que ela endireitou alguma parte seu corpo. Tudo
parecia magicamente regenerado, até os cortes de seu rosto se
regeneravam em uma velocidade incrível.
Ela andou em direção a
Jade, os passos pareciam robotizados. Jade estranhara a reação de Alice,
mas nada fizera em relação a ela, elas eram amigas, não esperava que um
golpe viesse de Alice.
– Eu... Não... Co-con-si-si-go-go... Me me... Co-con-t-tro-la-lar. – forçou-se Alice a dizer.
Já
era tarde demais, Alice estava muito próximo de Jade para que ela
fugisse. Um de seus braços levantou contra a vontade dela e socou Jade
que voou a muitos metros.
O rapaz colocou uma das mãos na altura das sobrancelhas e assoviou.
–
Uau, essa foi longe! – os olhos do rapaz brilhavam de felicidade
enquanto ele soltava uma gargalhada intensa – Parece que ainda tenho
você para brincar... Digo, matar, Alice.
– Matar-me? – dessa vez
quem soltou uma risada de escárnio foi Alice – Quem morrerá será você!
Só de olhar para essa tua cara de peixe louco, eu já tenho vontade de te
espancar até você implorar por sua vida. – ela sorriu, a aura parecia
ainda mais sombria com aquele sorriso em sua face.
Ele tentou
controlar Alice com a telecinese, mas ela resistia ao controle. Passo a
passo e devagar ela se dirigia ao rapaz, resistir ao controle
necessitava de muita força, mas ela não pretendia desistir e perder. Ela
podia sentir seus músculos de todo o corpo pulsarem enquanto ficavam
mais e mais fortes. Cada passo que dava era um passo maior do que o
anterior.
Na metade do caminho, ela quebrou a barreira da
telecinese que a deixava mais lerda e pôde correr livremente. Ela correu
o máximo que conseguia, ele tentou impedi-la com novas tentativas de
controle, mas não adiantaram. De sorriso de escárnio em seu rosto ia se
transformando em desespero, ele tentou desesperadamente contê-la.
Ao
se aproximar de onde o rapaz estava, Alice se preparou para desferir um
soco, ela usou o peso de seu corpo e a velocidade para aumentar a força
do soco. O soco parou poucos centímetros do rosto do rapaz, a barreira o
segurou. Ele estava apavorado, temia aqueles olhos frios e aura
sombria.
– Monstro. – foi a última coisa que ele conseguiu proferir.
Alice
colocou mais força e exigiu mais de seus músculos para quebrar a
barreira. Em um primeiro momento, a barreira tremeluziu e depois se
partiu e desapareceu. O rapaz recebeu o soco com toda a força que Alice
empunhou, arremessando-o violentamente para trás.
Enquanto era
arremessado para longe, Jade apareceu atrás do rapaz montada na garupa
da Serpente do mar. Esta abriu a boca quando o rapaz passou em frente e o
comeu, era um delicioso peixe como refeição, um dos seus alimentos
favoritos.
– Obrigada, garotão. – disse Jade à serpente enquanto descia de sua garupa.
A serpente do mar rugiu suavemente em agradecimento pela comida e foi embora.
– Como conseguiu controlar aquele monstro? – indagou Alice perplexa com o que vira.
– Não controlei, eu pedi pelo favor. – respondeu.
Então olhou para cima, para a ilha
–
Agora eu entendo, obrigada por me ajudar. – ela sorriu antes de pedir
mais um favor – Poderia nos levar de volta a superfície agora?
– Sim, Jade. – respondeu a voz em retorno.
Em
poucos instantes as duas foram devolvidas à superfície, não estavam
mais naquela ilha, estavam agora em outro lugar. Elas não sabiam dizer
exatamente onde estavam, a floresta era menos densa e mais espaçada.
– Onde estamos? E o que aconteceu lá embaixo?
– Não sei onde estamos, mas enquanto você dormia, eu apanhei daquele peixe até perceber tudo.
Barlow
estava enrolado nos cabelos de Jade, já havia voltado à forma de um
esquilo. Alice e Jade também voltaram as suas formas originais, na
superfície não precisavam de guelras ou barbatanas. Ela retirou Barlow
de seus cabelos e o deixou na palma de sua mão enquanto acariciava a
cabeça do esquilo.
– Agora eu entendo, Barlow. Quando te conheci,
pensei que era apenas um esquilo, mas depois do que aconteceu na praia,
eu fiquei confusa quanto ao que você era. Agora eu sei o que é, você é
uma quimera, uma parte da deusa Mill, e aquela estranha ilha que
estávamos já fora uma quimera também. A ilha é o que restou do corpo de
uma quimera morta, seus corpos possuem muita magia, mesmo depois de
mortos.
Barlow anuiu, confirmando tudo o que Jade dissera.
–
Então andamos sobre a carcaça e abaixo de uma quimera? Legal... – disse
Alice dando de ombros – Acho que agora temos problemas maiores para
pensar, Jade.
Diante delas estava o maior urso pardo que elas já
vira... Não. O maior que Jade já vira, Alice conhecia o animal apenas
por livros, não existiam mais ursos pardos na Terra onde vivia. Em pé o
urso media cerca de três metros e meio, ele salivava demais, estava
morrendo de fome.
– Vai começar tudo de novo... – resmungou Alice.







Adorei! Muito bom!
ResponderExcluirPoderia ter demorado um pouco mais nas lutas rs
Tá excelente!
Quando terminar de escrever toda a história, posso voltar e melhorar essa parte :). Ai você me ajuda com a luta, porque minhas ideias para esta se esgotou e ficou desse jeito :D
ExcluirPode contar comigo sempre. Estarei contigo quando quiser reescrever essa parte. =D
ExcluirObrigada :3. Só peço que coloque todos os pontos que encontrar nos comentários dos referentes capítulos, até os que você não entender de início, assim posso voltar depois e ajeitar :).
ExcluirPode deixar! =)
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