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sexta-feira, 14 de março de 2014

Capítulo 06: Quimera

– De novo não... – repetiu Alice a si mesma, baixinho.

A serpente do mar aproximou suas narinas para perto das meninas e as farejou por um tempo que parecia interminável, elas continuaram imóveis enquanto eram farejadas, então a serpente recuou até seu pescoço fazer uma reta na vertical e rugiu. O chão sob os pés delas tremeu e as árvores que estavam a alguns quilômetros balançaram violentamente, elas voaram alguns metros com o rugido. Era difícil abrir os olhos com tanta areia voando e ainda mais difícil levantar e andar sem voar metros para trás, então optaram por ficarem ali, deitada no chão da praia, até o rugido cessar.

Depois de alguns minutos que pareceram uma eternidade, o monstro parou de rugir e se preparava fazer sua refeição com os corpos das duas meninas, porém Barlow fora mais rápido. De alguma forma, ele aumentou seu tamanho em muitas vezes, assemelhando-se a um ligre, colocou Jade em suas costas enquanto segurava Alice pela boca e as tirou do lugar onde estavam no momento em que a serpente ia comê-las, deixando-a morder apenas areia.

Barlow correu para bem longe da praia o mais rápido que pôde, enquanto a serpente rugia de raiva atrás deles. Ele só parou de correr quando estavam dentro de uma pequena floresta tropical da ilha, um lugar seguro, ao menos era o que parecia naquele momento. Ele colocou Alice no chão, que não parava de reclamar por estar na boca do animal, com delicadeza e se abaixou para que Jade pudesse descer. Ele voltou a sua forma de esquilo após Jade ter desmontado dele.

– Ain, que nojo! – exclamou Alice – Você deveria ensinar boas maneiras para esse animal de estimação, seja lá qual for a espécie desse animal estranho! – resmungou Alice novamente.

– Eu e Barlow nos conhecemos hoje, mas já fizemos uma linda amizade. – com um dedo, Jade coçou a cabeça do esquilinho em seu ombro.

Alice queria continuar a brigar, mas estava enojada demais com a baba do animal em suas roupas para continuar brigando. Ela se restringiu a ir embora sem dizer mais nada, seguiu a primeira trilha que viu pela frente. Jade foi atrás da menina, e não abriu a boca para falar o que quer que seja durante todo o caminho. As duas se embrenharam ainda mais na floresta em silêncio.

Por ser uma floresta tropical, ela era densa e muitas vezes elas tiveram que abrir caminho com as mãos. Mosquitos de todos os tipos e tamanhos as picavam em todas as partes do corpo, moscas e cigarras zumbiam em seus ouvidos enquanto cobras e aranhas apareciam de toda parte para assustá-las.

Certa vez, enquanto elas estavam caminhando, uma cobra-cipó caiu do alto de uma árvore na cabeça de Jade. Ela teve vontade de gritar, mas reprimiu o grito lembrando-se do que aprendera em suas aulas de escoteiro, ela não deveria gritar e sim ficar parada e esperar a cobra ir embora. Era o que ela pretendia fazer, mas Alice ouviu os guinchos da cobra quando esta vira o esquilo e tentara comê-lo. Ela instintivamente pressionou a cabeça da cobra, para que esta não abrisse e a mordesse, e segurou o corpo delgado da cobra de cor verde com outra mão, então a tacou em algum lugar no meio das plantas, bem longe delas. Elas voltaram a caminhar logo depois.

Outra vez, uma aranha relativamente pequena e toda vermelha embolou-se no cabelo desgrenhado de Alice. Jade a viu enquanto tentava andar por um cabelo cheio de nó e avisou Alice para ficar parada, foi a vez dela de tirar a aranha do cabelo da outra. Cuidadosamente, ela permitiu que a aranha subisse em sua mão, ela levou a mão até uma planta que estava por perto devagar e deixou que a aranha fosse para a planta, assim elas puderam continuar a caminhada novamente em silêncio.

Ao final do dia, elas encontraram uma clareira com uma lagoa no final da trilha que seguiram. Elas estavam imundas, cansadas, mordidas por mosquitos e arranhadas. As mãos das duas estavam em carne viva de tantas plantas que tiveram de tirar do meio do caminho, as pernas e braços também estavam arranhados e o corpo inteiro coçava com as mordidas de mosquitos. Naquele momento, aquela lagoa parecia o paraíso para elas.

Elas entraram e se banharam com a roupa que vestiam, nenhuma das duas tinha coragem para tirá-las, poderiam ser surpreendidas a qualquer momento por algum inimigo e estar nua não seria agradável se acontecesse. Ou poderia haver algum animal venenoso dentro da água para mordê-las, as roupas lhes concediam uma maior proteção, apesar de pequena, em uma situação dessas.

A água não estava nem quente nem fria, estava morna e deliciosa. Elas nadaram e mergulharam ao lado dos peixes, que não pareciam se importar com a presença das duas, refrescando-se e limpando a sujeito em que estavam suas roupas. A pequena tempestade de areia provocada pela serpente e a densa floresta tropical deixaram as roupas das duas em estado precário de imundo. O cabelo delas também estava imundo, com areia para todos os lados, e embaraçado.

Após o banho, elas se organizaram para arrumar comida. Jade foi pescar alguns peixes enquanto Alice ficou encarregada de pegar algumas frutas. Alice não precisava ir muito longe, no limiar da floresta havia inúmeras árvores frutíferas, frutas eram o que não faltava ali. As mãos de Alice doíam enquanto ela tentava pegar as frutas, mas ela não se importou, estava faminta demais para se preocupar com ferimentos.

Dez minutos foram suficientes para juntarem bastante comida, elas fizeram uma pequena fogueira, assaram os peixes e dividiram em partes iguais toda a comida. Alice comeu toda a sua parte e Jade dividiu a dela com Barlow, que, apesar de pequeno, o bichinho comia como um animal maior.

O cansaço das duas falava mais alto do que tudo, elas se ajeitaram, cada uma em seu canto, para dormir quando terminaram de comer. Alice virou as costas para Jade e esta pegou os pergaminhos de sua mochila, ela queria decifrar o que estava escrito neles e este parecia um bom momento.

– Acabei de me lembrar de que eu não sei seu nome. – disse Alice observando o céu estrelado.

– Jade.

– Alice.

Alice pegou no sono tão rápido quanto jantou e em poucos minutos já parecia estar em seu sono profundo com uma respiração pesada, talvez fosse o cansaço e os vários acontecimentos do dia ou este era o tipo de sono que ela tinha. Seja lá qual fosse o caso, Jade não saberia dizer.

Ela fitou o céu, pensativa. Estavam se encaminhando para o oitavo dia naquele lugar e ela já encontrou várias coisas interessantes pelo caminho, até um pequeno amiguinho ela fez! Até agora, parecia tudo estar perfeito, como em um sonho que ela não gostaria de acordar. Aquele parecia um lugar melhor do que seu planeta natal, pelo menos até o momento.

Do céu, ela fitou Barlow. Ele dormia perto da fogueira e estava todo enrolado no próprio corpo, parecia feliz e relaxado, além de quentinho com o calor da fogueira. Alice também parecia relaxada e um pouco espaçosa, ela havia se esparramado por todo o outro lado da fogueira. Nenhum dos dois pareciam se preocupar com ruídos vindos de pequenos animais na floresta ou com os insetos que se locomoviam em cima deles, apenas dormiam tranquilamente.

Acho melhor dormir também, pensou ela. Já estava tarde e ela estava cansada, um bom sono a faria bem. Ela guardou os pergaminhos dentro de sua mochila e deitou-se para dormir dentro do seu saco de dormir, trazer seus equipamentos de escoteiro havia sido uma boa ideia, apesar de ela não ter escolhido isso. Ela adormeceu rapidamente como os outros dois.

Alice se remexia muito enquanto dormia, estava irrequieta. Suas roupas estavam molhadas de suor, mesmo sem o calor da fogueira, ela não parava de suar... E de se mexer. Alguma coisa não estava certa, sonhos conturbados chegavam a sua mente e a deixavam inquieta, mesmo ainda dormindo.

Ela sonhava com Lyria, a pequena elfa que ela conheceu na semana anterior. Ela sabia que o que viveu na aldeia de Lyria era real, podia sentir isso, embora não conseguisse explicar o desaparecimento de toda a aldeia e seus habitantes. Ela procurou em todos os lugares ao redor da aldeia naquela manhã, mas não havia um único sinal de que houvera uma aldeia naquele lugar, apesar de ela ainda carregar a pedra que Mewen dera a ela. Esse acontecimento a perturbava de todas as formas possíveis.

Em seu sonho, Alice estava de volta àquela aldeia, as construções estavam no mesmo lugar e do mesmo jeito que se lembrava. Ela estava no centro da aldeia, um lugar privilegiado para olhar todas as construções da aldeia. Normalmente aquele lugar estaria cheio de crianças, idosos, homens e mulheres trabalhando, mas naquele momento estava completamente vazio.

Ela tentou procurar alguém na aldeia, mas não havia ninguém em parte alguma, era apenas ela em um lugar que desapareceu do dia para a noite. A aldeia parecia estar no mesmo lugar que ela se lembrava, no qual ela acordara na manhã anterior. Este era mais um fato que a perturbava.

Alice caminhou pela aldeia e passou em cada construção que havia naquele lugar atrás de alguém, começando por aqueles que estavam no térreo, onde ela estava. Ela entrou em todas as casas para verificar o interior, mas ninguém parecia estar ali, então passou para o primeiro piso.

Uma música bem fraca começou de algum lugar, a princípio ela não percebeu, mas a música se tornava cada vez mais alta. Ela correu mais rápido na sua verificação, a música parecia estar vindo de algum lugar daquela aldeia, ela só não sabia dizer de onde exatamente. No primeiro piso também não havia ninguém, nem no segundo, terceiro ou quarto.

Na metade dos níveis da aldeia ela começou a correr de um lugar a outro, a música precisava vir de algum lugar, foi o que ela pensou. Mas estava enganada, ela chegou ao último nível, o sétimo, e não havia ninguém na aldeia. Talvez aquela música viesse de algum lugar próximo da aldeia, ela teria pensado nessa possibilidade se não tivesse ouvido a voz de Lyria enquanto tentava pensar numa explicação.

– Você deve avisá-la, Alice, quando a encontrar. – relembrou Lyria.

– Avisar sobre o que? A quem? – Alice não entendia o que Lyria realmente queria com ela. Ela se lembrava de Lyria pedindo um favor a ela, mas por alguma razão, não conseguia se lembrar de qual era.

– Apenas avise-a quando a hora chegar. – respondeu Lyria.

Alice insistia em suas perguntas, mas Lyria já havia partido. A música de fundo foi desaparecendo aos poucos junto com a aldeia, e quando tudo desapareceu, ela estava li, de pé no mesmo lugar que acordara naquela manha. Não havia sinal de alguma aldeia da mesma maneira como acontecera antes, mais uma vez desaparecera sem ela entender o que estava acontecendo.

Alice acordou num pulo exasperado, Jade e Barlow acordaram assustados com o pulo de Alice. Ela estava encharcada de suor e respirava com certa dificuldade, mas parecia estar bem à medida do possível. Ela apoiou a cabeça em uma das mãos e tentou respirar devagar.

– Você está bem? – perguntou Jade, preocupada.

Barlow também parecia preocupado, ele correu até a mão de Alice que estava apoiada no chão e a cutucou com o focinho, retrucando algo que ela não conseguia entender.

– Sim, só tive um sonho estranho, nada demais. – respondeu, recuperando o fôlego – Volte a dormir, ainda está cedo.

Jade anuiu, sonolenta, e voltou a dormir junto com seu animalzinho Barlow.

O sol já apontara no horizonte, mas ainda estava um pouco escuro. Não era possível ver mais as estrelas no céu, a pouca luz do sol que o planeta recebia era suficiente para escondê-las e, apesar do nascer do sol não estar ainda completo, era possível vislumbrar um céu límpido, sem a presença de nuvens.

Outros jogadores deveriam estar dormindo ou acordando, pelo menos foi o que Alice pensou. Não seria problemático se ela tomasse um banho descontraído, ela precisava relaxar um pouco ou entraria em curto, era muita informação para a cabeça dela tudo o que viveu nos últimos sete dias. Um bom banho ajudaria a pôr a cabeça no lugar, fora que ela se sentia nojenta, fedida a suor.

Ela despiu parte de suas roupas e entrou na lagoa com suas roupas íntimas. Tinha tantas perguntas a respeito do que Lyria queria, porém, mesmo que todas as células de seu corpo se esforçassem para lembrar o que aconteceu naquela noite e o que Lyria havia lhe pedido, nada vinha à mente, era como um branco em sua memória.

Quando Jade acordou, algumas horas depois, a fogueira estava novamente acesa. Um largo tronco de alguma árvore estava cortado ao meio e, cada uma das partes, estava perto da fogueira, um do lado do outro, como se fossem uma pequena mesa. Um dos troncos tinha uma grande folha em cima, que estava molhada como se a tivessem lado, e uma grande variedade de frutas daquele lugar sobre a folha, as frutas também estavam lavadas. No outro tronco havia cinco peixes, todos mortos e prontos para serem assados na fogueira.

– Nossa, você preparou um banquete. – comentou Jade.

– Ficar no tédio estava em incomodando... – ela deu de ombros.

Elas assaram os peixes, cada uma comeu dois peixes e Barlow comeu um, depois comeram algumas frutas. Jade comeu até se sentir satisfeita, já Alice comeu até ser fartar, ela achava aquela comida maravilhosa, muito melhor do que ela comia em seu mundo. Talvez seja esse o motivo de comidas naturais em seu mundo serem tão caras, eram deliciosas e demoradas para produzidas, pois era preciso esperar um bom tempo para que as plantas cresçam e deem frutos e os animais cresçam e engorde o suficiente para o abate.

O que sobrou da comida, Jade guardou em sua mochila para comerem mais tarde, afinal nunca poderiam prever onde estariam quando sentissem fome novamente, pois aquele era um mundo inóspito e cheio de acontecimentos imprevisíveis. Elas sequer poderiam afirmar se continuariam no jogo daqui algumas horas, ou mesmo minutos.

Elas levantavam acampamento quando uma forte ventania começou e as pegou de surpresa. A princípio conseguiam andar no sentido contrário da ventania com alguma dificuldade, mas tudo mudou quando Jade colocara a mochila nas costas, o peso da mochila e a altura da jovem foram fatores importantes. Seus pés deslizavam devagar sobre a grama e ela era arrastada para trás, sua altura lhe conferia um péssimo equilíbrio e, vez ou outra, seu corpo ameaçava a tombar. Alice tentou ajudá-la a se equilibrar segurando a mão dela e puxando-a para frente enquanto forçava-se a dar passos para frente. Na outra mão de Jade, Barlow tremia de medo enquanto a menina o segurava para não virar um esquilo-voador e sair voando por aí.

A ajuda de Alice funcionou até o vento ficar mais forte e a arrastarem para trás, na direção da lagoa. Folhas, frutas e galhos voavam da floresta na direção delas, deixando hematomas e mais arranhões. Jade tentou se teletransportar para frente, mas era, então, jogada ainda mais para trás e arrastava Alice consigo. Um grande tronco voou e bateu na canela de Alice, ela soltou um gemido antes de perder o equilíbrio e ir de cara para o chão, mas Jade a impedira de dar de cara no chão. Alice era a única coisa que mantinha o corpo de Jade ereto e impedia que ela fosse arremessada para trás, quando Alice caiu, o corpo dela perdeu seu ponto de equilíbrio e fora arremessada para dentro da lagoa levando Alice consigo.

Quando elas emergiram, a ventania havia desaparecido tão misteriosamente quanto havia aparecido e tudo parecia estar em seu estado natural, exceto pela bagunça que a ventania deixara. Havia folhas, frutas, galhos e pedaços de troncos de árvores para tudo o que era canto, alguns animais menores que voaram com a ventania parecia atordoados. Plantas haviam entrado na boca delas quando mergulharam na lagoa contra a vontade delas.

Elas tentaram sair da lagoa, mas não foi tão fácil quanto imaginavam, na verdade foi impossível. Quando chegaram à parte onde os pés delas alcançavam o chão, um redemoinho se formou e elas foram puxadas para o centro da lagoa. Nadar contra aquela correnteza era inútil, tudo o que elas puderam fazer foi nadar para a superfície quando eram puxas para dentro da água e tirar as plantas que entravam em suas bocas.

No centro do redemoinho, elas foram puxadas para dentro da água. Elas bebiam água enquanto tentava desesperadamente nadar até a superfície para respirar, plantas que voaram para a lagoa e algas entravam em suas bocas junto com a água. Por um momento elas pensaram que aquele seria o fim delas, um game over, estavam cansadas de nadar sem ter qualquer efeito. Faltava ar em seus pulmões, era questão de poucos minutos até a água entrar até pelo nariz delas e inundar os pulmões, matando-as por afogamento. Era o que pensavam, mas estavam erradas.

Aquele era um fenômeno comum próximo àquela lagoa, uma misteriosa ventania aparecia arrastando tudo para dentro da lagoa e, quando esta desaparecia, um redemoinho começava e levava tudo e todos para dentro de um pequeno túnel na área mais profunda da lagoa e então o túnel se fechava escoando parte da água e de tudo o que estava dentro da água. Este era um fenômeno natural e acontecia no último dia da lua nova, povos antigos nomearam aquele lugar como A Lagoa do Redemoinho.

Após entrarem no túnel, elas foram jogadas dentro do mar, abaixo da ilha. A ilha parecia flutuar sobre a água, pois não havia qualquer tipo de formação rochosa que a sustentasse, ao invés disso, havia uma extensa membrana que prendia a ilha no fundo do rio. A membrana era fina, translúcida e resistente, havia pequenos buracos pela membrana que permitia os peixes circularem dentro e fora livremente. No fundo havia algo que parecia uma cidade no fundo de um largo rio.

Desde que elas passaram pelo túnel e chegaram àquele lugar, elas não mais a necessidade de respirar pelo nariz e sentiam-se estranha, como se algo tivesse mudado. E realmente mudou! Elas não perceberam de início, mas depois que olharam uma para outra, entenderam o motivo de não precisarem mais usar suas narinas para respirar. O corpo delas havia mudado, guelras apareceram um pouco abaixo do maxilar delas, o pulmão também mudara, era capaz de retirar oxigênio da água e transportá-lo pela corrente sanguínea para todas as células delas. Elas não precisavam mais ir até a superfície para respirar.

As mudanças não paravam por ai, uma fina membrana aparecera entre todos os dedos delas, tanto das mãos quanto dos pés, havia também uma membrana maior que unia toda área do braço, desde o ombro até o cotovelo, à lateral do tronco de seus corpos. Esta membrana era bem grande e elástica, permitia que elas abrissem o braço e formassem um ângulo de 90º com o corpo em modo relaxado, elas ainda podiam abrir o braço em um ângulo de 180º em relação ao corpo usando a elasticidade da membrana sem arrebentá-la. Finas e maleáveis barbatanas cresceram de seus tornozelos, pareciam como caudas de peixes que as ajudavam a nadar.

Barlow foi o único a permanecer sem alterações, continuava na forma de um esquilo. Ele não precisava daquelas transformações todas, como uma quimera, era só se transformar em um peixe ou qualquer coisa do tipo, e foi o que ele fez. Ele se transformou em um pequeno peixe vermelhinho e se escondeu entre as madeixas de Jade.

Jade e Alice nadaram até o fundo, onde se encontrava a cidade. Lá do fundo, a cidade era completamente diferente de vista lá de cima, elas perceberam que a cidade era feita toda de pedra e algumas casas pareciam cavernas esculpidas de pedras de formação vulcânica. Havia placas de sinalização por todos os lados e, apesar de não ter ninguém morando naquela cidade, aquele era um lugar bem iluminado, elas não sabiam explicar como, pois não havia nenhuma fonte de luz concreta, tampouco o sol chegava a tão fundo. Parecia tudo mágico.

Elas pararam em uma grande praça no centro da cidade. Exatamente no centro da praça e da cidade estava a estátua de uma mulher, era um monumento também feito de pedra talhada. Ela estava de pé e olhava para o horizonte, em uma das mãos ela segurava um livro de nome Mithra e na outra segurava um travesseiro. Em suas costas havia três pares de asas.

A primeira era a menor de todas as outras duas e saia de suas costas quase na altura da cervical, finos ossos sustentavam a membrana que formava as asas, eram tão finas que pareciam se rasgar facilmente. Assemelhava-se muito às asas de um morcego. O segundo par de asas eram enormes, tinha duas vezes o tamanho do primeiro par e saía das escápulas de cada ombro. Esse par era todo plumado com grandes e delicadas penas, tinha o formato e aparência de asas angelicais.

O terceiro par era o maior de todos, este parecia ser projeções da parte dorsal de seus braços e eram tão grandes que poderia abraçar todas as outras duas asas. Esta era a mais estranha e diferente de tudo o que as duas já viram, eram asas escamosas. Grandes escamas revestiam todo o par de asas desde o inicio delas na parte dorsal de seus braços, com os o osso dos cotovelos projetados para fora em alguns metros e servindo como a base inferior das asas, até a ponta delas. Essas asas mediam mais de dez metros de comprimento, enquanto a primeira parecia medir um metro e a segunda dois metros.

A mulher da estátua também havia caudas que se pareciam com caudas de animais dos mais variados possíveis. Jade não conseguiu distinguir todos os animais ou quantas caudas tinham, eram várias, talvez uma para cada animal que existia no mundo, até de animais mitológicos que só ouvira falar ou vira em livros, como dragões.

No pedestal onde se encontrava a estátua, havia talhado um pequeno nome. Jade o leu enquanto Alice se distraía com a forma majestosa daquela mulher. Apesar de ser apenas uma estátua, era de tirar o fôlego.

– Mill. – leu Jade em voz alta.

– Mill... – repetiu Alice, pensativa.

Alice ficou em silêncio por alguns minutos, pensando naquele nome.

– Eu conheço esse nome! Só não consigo me lembrar de onde...

– Talvez ali explique quem é Mill. – Jade apontou para duas placas de pedra maiores do que ela.
As duas andaram até as placas que estavam alguns metros atrás do monumento. Eram placas também de pedra, porém nelas estava talhada uma série de letras contando a lenda.

– Diz aqui que Mill era uma espécie de Deusa para o povo que vivera aqui. A lenda diz que ela criou Mithra a partir de seus sonhos.

– Mithra?

– Mithra seria este planeta que estamos agora...

Elas pararam de conversar e olharam ao seu redor, depois se olharam, espantadas.

– Espere, como podemos conversar embaixo da água? – indagou Alice.

– Eu não sei... Talvez seja esse lugar, Mithra, há muita magia por toda parte. Talvez esteja escrito nessas placas...

Jade voltou a ler as placas, estava interessada naquela história, na história daquele lugar incrível. Porém Alice não pensava do mesmo jeito, ela não tinha interesse na história, a única coisa que ela se interessava era em se lembrar de onde ouviu o nome Mill e o que Lyria queria com ela. Tantas perguntas sem respostas, quanto mais ela estava naquele lugar, mais perguntas tinha. Sentia que iria enlouquecer logo, não lembrar o que aconteceu com ela naquela noite e não saber o porquê de tudo aquilo a estava enlouquecendo.

– Aqui diz que as quimeras eram animais sagrados, pois lembravam a Deusa. Assim como eles, ela podia assumir a forma que quisesse. Eles acreditavam que Mill era uma espécie de quimera. – Jade se virou para fitar Alice, ela parecia um pouco distraída e não muita prestava atenção no que Jade dizia.

– O que disse?

– Nada, deixa para lá.

Por longos minutos o silêncio reinou naquele lugar, as duas estavam concentradas em suas atividades, Jade lia as placas e Alice estava absorta. Era tão calmo naquela cidade que por um momento elas deixaram a guarda baixa, não pensaram na possibilidade de sofrer um ataque em um lugar sem vida como aquele. Um pequeno errou que custou caro.

Um competidor aproveitou a guarda baixa das meninas e as atacou. Uma onda de choque atingiu as duas e as arremessaram para longe. Antes do impacto com uma parede de pedra, Jade conseguiu se teletransportar para um lugar seguro, mas Alice não tivera tanta sorte. Ela foi direto ao encontro com a parede, que se quebrou em cima dela com o impacto. O chão de pedra que recobria a areia do fundo e as placas com os escritos também se quebraram, areia se levantou e se misturou a água, deixando tudo turvo por alguns minutos.

– Alice! – gritou Jade.

Jade gritou inúmeras vezes por Alice, mas ela não respondia. Jade correu até onde Alice estava, tentou retirar parte dos escombros enquanto gritava o nome da amiga sem obter resposta. A tranquilidade abaixo dos escombros era anormal, e isso preocupava Jade.

– Menos uma. – disse o rapaz rindo.

A água ainda estava muito turva quando Jade se virou para ver quem as atacara. Do outro lado estava a silhueta de um rapaz, não era muito alto nem muito forte, ele devia medir cerca de um metro e cinquenta e era bem magro. Jade não conseguiu enxergar mais do que esses detalhes com a poeira levantada.

– Desgraç... – tentou dizer Jade antes de ser jogada em outra parede.

A parede ruiu atrás de si e ela caiu do lado de dentro de uma pequena casa. Lá dentro era muito escuro, diferente do lado de fora, o que a fez reavivar uma de suas dúvidas: de onde vinha toda aquela luz do lado de fora? Contudo, ela não teve tempo suficiente para pensar na resposta, a queda de uma parede fez toda a estrutura da casa ruir, tudo cairia em cima dela se ela não tivesse se teletransportado de volta à praça no último segundo.

Socos vieram de todos os lados, um veio por trás e acertou suas costas, outro acertou seu rosto e outro acertou seu abdômen. Golpes de todas as direções vinham e ela não sabia com o que estava lutando, pouco conseguia ver o que a atacava, parecia que a própria água a estava atacando.

Barlow tentou ajudar, ele se transformou em uma fera aquática enorme, de cinco metros de comprimento. A pele era dura e resistente, como a de um crocodilo, as seis patas eram grandes e tinham garras afiadas, a mordida era forte e poderia rasgar alguém com facilidade. Barlow investiu contra o inimigo, mas algo o atacou pelo lado com violência e o lançara em cima de várias casas por cinquenta metros.

– Barlow! – gritou Jade.

Nada, nenhuma resposta, nenhum ruído ou sinal de vida de Barlow. Estava quieto, quieto demais.

– Chore, chore mais. – disse o rapaz com um sorriso no rosto.

A poeira havia finalmente abaixado e permitiu Jade ver quem era. O rapaz era magro e baixo, tinha a aparência semelhante à de um peixe com dentes afiados, guelras em todo o pescoço e braços e pernas em forma de barbatanas. A pele era úmida, como de um sapo, e de cor azul-piscina. Se o rapaz não tivesse uma aparência um pouco humanoide, ela poderia jurar que aquele era o maior peixe que ela já vira.

– Você deveria se apresentar antes de atacar os outros. – disse Jade, enfurecida.

– Que diferença isso faz? Você morrerá aqui e logo.

Um sorriso perverso se estampou no rosto do rapaz e novamente vários socos vieram de todos os lados atacando Jade. Ela foi mais esperta dessa vez, teletransportou-se antes que os ataques viessem, ela sabia que viriam. Sabia que não podia ficar parada em um mesmo lugar por muito tempo ou seria espancada, então ela se teletransportou inúmeras vezes até alcançar o rapaz, que continuava parado no mesmo lugar.

Tentou chutar a cabeça do rapaz, mas algo agarrou sua perna quando o pé encostou em alguma coisa, foi quando ela viu, apenas por alguns segundos. Ao redor do rapaz havia uma espécie de barreira e dessa barreira vários tentáculos saíam, pareciam bolhas de ar, mas não eram. Aqueles tentáculos eram feitos de água pura, por isso ela não conseguia vê-los antes.

O tentáculo em preso sua perna a jogou para longe. A força do arremesso fora tanta que ela bateu em várias paredes de pedra no caminho. Sentia seu corpo ainda mais dolorido que na noite anterior por causa da batalha, mas não queria desistir. O desejo que poderia fazer quando chegasse à biblioteca era a única coisa que a mantinha em pé, lutando, não poderia desistir da única oportunidade que recebera para mudar sua vida.

– Força. – disse uma voz. Ela não sabia de quem era a voz ou de onde viera, mas aparentemente apenas ela escutara.

Jade tentou investir novamente, sempre se teletransportando até chegar ao rapaz. Ela precisava melhorar a velocidade de seus movimentos, talvez assim tivesse uma chance. Tentou um soco dessa vez, vindo de cima. Novamente o tentáculo a jogou para longe.

– Use tudo o que tem, Jade. – disse novamente a misteriosa voz.

Como a voz sabia o seu nome? Pensou a menina.

Ela tentou usar uma investida com o teletransporte e outra habilidade, a telepatia, como a voz sugerira. Primeiro teletransportou várias vezes até chegar ao rapaz, quando estava bem próximo, ela tentou usar a telepatia para desfazer a barreira. Contudo, seu plano não funcionou, algo bloqueou seu acesso à mente dele e ela foi jogada na rua ao lado da casa onde Alice estava. Ela estava ficando de saco cheio daquilo, precisava pensar em algo e com urgência.

– Você não tem apenas duas habilidades, Jade. – disse a voz.

Como eu poderia usar minha terceira habilidade? Não há animais por perto, Barlow também não se move, Jade pensou enquanto estava deitada no chão e fitando a parte debaixo da ilha que elas vieram.

– Isso é tudo o que tem, mulher? – escarneou o rapaz. Ele ria maldosamente para Jade.

Ela levantou com esforço e se preparava para atacar novamente o rapaz quando Alice a surpreendera e se levantou dos escombros. Os membros superiores de Alice balançavam no ar enquanto a parte dorsal de suas costas e a cabeça estavam curvadas para baixo, o joelho esquerdo estava virado para um lado estranho e o pé direito estava completamente quebrado. Alice emanava uma aura pesada e sombria.

– Ora, ora, olha quem ressurgiu das cinzas. – disse o rapaz ao ver Alice.

Alice não respondeu verbalmente, ao invés disso, estalos de suas juntas eram ouvidos. Ela endireitou o pé quebrado, o joelho esquerdo, a postura de seus ombros e seu pescoço, era possível ouvir ossos e juntas estalando todas as vezes em que ela endireitou alguma parte seu corpo. Tudo parecia magicamente regenerado, até os cortes de seu rosto se regeneravam em uma velocidade incrível.

Ela andou em direção a Jade, os passos pareciam robotizados. Jade estranhara a reação de Alice, mas nada fizera em relação a ela, elas eram amigas, não esperava que um golpe viesse de Alice.

– Eu... Não... Co-con-si-si-go-go... Me me... Co-con-t-tro-la-lar. – forçou-se Alice a dizer.

Já era tarde demais, Alice estava muito próximo de Jade para que ela fugisse. Um de seus braços levantou contra a vontade dela e socou Jade que voou a muitos metros.
O rapaz colocou uma das mãos na altura das sobrancelhas e assoviou.

– Uau, essa foi longe! – os olhos do rapaz brilhavam de felicidade enquanto ele soltava uma gargalhada intensa – Parece que ainda tenho você para brincar... Digo, matar, Alice.

– Matar-me? – dessa vez quem soltou uma risada de escárnio foi Alice – Quem morrerá será você! Só de olhar para essa tua cara de peixe louco, eu já tenho vontade de te espancar até você implorar por sua vida. – ela sorriu, a aura parecia ainda mais sombria com aquele sorriso em sua face.

Ele tentou controlar Alice com a telecinese, mas ela resistia ao controle. Passo a passo e devagar ela se dirigia ao rapaz, resistir ao controle necessitava de muita força, mas ela não pretendia desistir e perder. Ela podia sentir seus músculos de todo o corpo pulsarem enquanto ficavam mais e mais fortes. Cada passo que dava era um passo maior do que o anterior.

Na metade do caminho, ela quebrou a barreira da telecinese que a deixava mais lerda e pôde correr livremente. Ela correu o máximo que conseguia, ele tentou impedi-la com novas tentativas de controle, mas não adiantaram. De sorriso de escárnio em seu rosto ia se transformando em desespero, ele tentou desesperadamente contê-la.

Ao se aproximar de onde o rapaz estava, Alice se preparou para desferir um soco, ela usou o peso de seu corpo e a velocidade para aumentar a força do soco. O soco parou poucos centímetros do rosto do rapaz, a barreira o segurou. Ele estava apavorado, temia aqueles olhos frios e aura sombria.

– Monstro. – foi a última coisa que ele conseguiu proferir.

Alice colocou mais força e exigiu mais de seus músculos para quebrar a barreira. Em um primeiro momento, a barreira tremeluziu e depois se partiu e desapareceu. O rapaz recebeu o soco com toda a força que Alice empunhou, arremessando-o violentamente para trás.

Enquanto era arremessado para longe, Jade apareceu atrás do rapaz montada na garupa da Serpente do mar. Esta abriu a boca quando o rapaz passou em frente e o comeu, era um delicioso peixe como refeição, um dos seus alimentos favoritos.

– Obrigada, garotão. – disse Jade à serpente enquanto descia de sua garupa.

A serpente do mar rugiu suavemente em agradecimento pela comida e foi embora.

– Como conseguiu controlar aquele monstro? – indagou Alice perplexa com o que vira.

– Não controlei, eu pedi pelo favor. – respondeu.

Então olhou para cima, para a ilha

– Agora eu entendo, obrigada por me ajudar. – ela sorriu antes de pedir mais um favor – Poderia nos levar de volta a superfície agora?

– Sim, Jade. – respondeu a voz em retorno.

Em poucos instantes as duas foram devolvidas à superfície, não estavam mais naquela ilha, estavam agora em outro lugar. Elas não sabiam dizer exatamente onde estavam, a floresta era menos densa e mais espaçada.

– Onde estamos? E o que aconteceu lá embaixo?

– Não sei onde estamos, mas enquanto você dormia, eu apanhei daquele peixe até perceber tudo.

Barlow estava enrolado nos cabelos de Jade, já havia voltado à forma de um esquilo. Alice e Jade também voltaram as suas formas originais, na superfície não precisavam de guelras ou barbatanas. Ela retirou Barlow de seus cabelos e o deixou na palma de sua mão enquanto acariciava a cabeça do esquilo.

– Agora eu entendo, Barlow. Quando te conheci, pensei que era apenas um esquilo, mas depois do que aconteceu na praia, eu fiquei confusa quanto ao que você era. Agora eu sei o que é, você é uma quimera, uma parte da deusa Mill, e aquela estranha ilha que estávamos já fora uma quimera também. A ilha é o que restou do corpo de uma quimera morta, seus corpos possuem muita magia, mesmo depois de mortos.

Barlow anuiu, confirmando tudo o que Jade dissera.

– Então andamos sobre a carcaça e abaixo de uma quimera? Legal... – disse Alice dando de ombros – Acho que agora temos problemas maiores para pensar, Jade.

Diante delas estava o maior urso pardo que elas já vira... Não. O maior que Jade já vira, Alice conhecia o animal apenas por livros, não existiam mais ursos pardos na Terra onde vivia. Em pé o urso media cerca de três metros e meio, ele salivava demais, estava morrendo de fome.

– Vai começar tudo de novo... – resmungou Alice.

5 comentários:

  1. Adorei! Muito bom!
    Poderia ter demorado um pouco mais nas lutas rs
    Tá excelente!

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    1. Quando terminar de escrever toda a história, posso voltar e melhorar essa parte :). Ai você me ajuda com a luta, porque minhas ideias para esta se esgotou e ficou desse jeito :D

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    2. Pode contar comigo sempre. Estarei contigo quando quiser reescrever essa parte. =D

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    3. Obrigada :3. Só peço que coloque todos os pontos que encontrar nos comentários dos referentes capítulos, até os que você não entender de início, assim posso voltar depois e ajeitar :).

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