Mais uma vez ela estava lá, naquele carro, naquela
noite escura. Seu pai estava ao volante e conversava com sua mãe, que
estava sentada no banco do carona. Sentada no banco de trás, ela falava
alguma coisa que não lembrava mais e todos riam. A noite fora divertida,
todos pareciam felizes, inclusive ela.
Tudo parecia perfeito,
foram a um bom restaurante, comeram uma boa comida, conversaram,
divertiram-se. Jamais esperou mais de seus pais ausentes, estava
acostumada a passar seu aniversário sozinha, entre as paredes frias e os
corredores escuros da mansão que vivia.
Sem dúvidas, aquela era a
melhor noite que vivera, pelo menos fora o que pensara enquanto estava
sentada naquele carro conversando e rindo com os pais. Era o melhor dos
sonhos, a melhor das emoções e a melhor das alegrias. Estar mais uma vez
com seus pais era maravilhoso e encantador, sentia uma alegria
transbordar de seu ser e um desejo incontrolável de continuar ali,
sentada, e nunca sair todas as vezes que revivia aquele momento.
Mais
uma vez aquela criatura apareceu com seus grandes olhos amarelo a
fitá-la na escuridão da noite sem lua. Sentiu o peso daquele olhar sobre
ela, mesmo com os vidros do carro fechados, fazendo um estranho arrepio
percorrer por todo seu corpo. O estranho animal de contornos
irregulares, noventa centímetros de altura, acompanhava-a pelo
acostamento da estrada de Londres, apesar do veículo andar em alta
velocidade.
Ele uivou. O calafrio desapareceu e deu lugar a uma
estranha sensação ruim, sentiu sua cabeça rodar a medida que uma imagem
se formava em sua cabeça. Por um breve momento, ela estava novamente em
casa, no jardim, cercada por vários corvos que sobrevoavam toda a área
ao seu redor. Apertou as mãos em seus ouvidos impulsivamente, pois o
grasnido das aves era ensurdecedor. A cabeça pesou de novo e ela
cambaleou para frente antes de cair sob os joelhos e encostar a cabeça
na grama, pressionando os ouvidos com mais força.
O tempo em que
ficou deitada na grama de olhos fechados e apertando os ouvidos com
força pareceu imensurável para sua noção de tempo distorcida. Quando o
silêncio reinou, ela se levantou devagar, ainda um pouco tonta.
Desesperou-se ao ver as mãos ensanguentadas, mas percebeu, mais tarde,
que aquele sangue viera de seus ouvidos. Ao olhar ao redor, viu todos os
corvos mortos e atirados ao chão, desenhando um círculo mágico com ela
exatamente no centro.
Uma voz familiar chamou sua atenção naquele
cenário medonho, ela procurou de onde vinha até perceber que vinha do
céu, então o fitou. A forte luz do sol de um dia ensolarado a cegou e
fez seus olhos arderem, porém ela não ligou, continuou a olhá-lo
tentando se lembrar de quem era aquela voz. Ela custou identificar e
entender o que dizia, mas notou, por fim, que era a voz de sua mãe lhe
chamando.
Antes que pudesse entender o que acontecera, ela estava
de volta no carro com seus pais, e toda aquela cena dos corvos em seu
jardim desaparecera. Sua mãe, Elizabeth, chamava-lhe constantemente pelo
nome, estava preocupada com a filha, que estava pálida e parecia
assustada. Susan, por outro lado, ouvia-a, mas era incapaz de
respondê-la. A voz da mãe parecia distante para ela, pois sua mente
estava distante.
Ela não conseguia entender o que fora aquilo,
tampouco como passara de uma ponta do banco traseiro para o meio deste.
Estava sentada no meio, de cara para o painel e para tudo o que estava à
frente do carro, na estrada. Piscou os olhos repetidas vezes para se
acostumar com a pouco luz da noite, então, mais uma vez, ela o viu, mas
dessa vez bem à frente do carro, no meio da pista.
A luz dos
faróis a ajudara desta vez, ela conseguiu ver com clareza que criatura
era aquela, era um lobo, o maior lobo que já vira em toda sua vida, ou
pelo menos era o que parecia. Os contornos de seu corpo eram
completamente disformes, ela não sabia o porquê, mas havia algo naquele
animal que lhe dava medo, como se pudesse antecipar que algo ruim estava
prestes a acontecer. Aquele olhar...
Susan acordou com o coração
disparado, toda molhada de suor e um pouco ofegante. Ela continuou
deitada por alguns minutos até estabilizar sua respiração, depois olhou o
relógio que estava em cima da mesinha de cabeceira, ao lado da cama. O
relógio marcava quatro e dezenove da manhã.
Após mais alguns
minutos deitada, ela empurrou as cobertas para o lado e se levantou. O
ar gélido da madrugada a pegou desprevenida, seu pijama de manga
comprida nada adiantou frente ao frio, sentia-se mais tonta e sonolenta.
Mas isso não a impediu de se arrastar por todo o quarto e uma pequena
sala de estar para chegar ao banheiro.
Parou em frente à pia, ao
lado da banheira, e se olhou no espelho, estava pálida e parecia
cansada. Por algum tempo, ela ficou ali, parada, divagando sobre seu
sonho.
Uma brisa fria entrou por uma janela aberta e percorreu
todo o recinto, acordando-a dos delírios de sua mente doentia e gelando
até seus ossos. Todo seu corpo tremia com o frio intenso, mas ainda
assim se forçou a esticar seu braço esquerdo e abrir a torneira.
Seus
olhos viam a água cair e descer pelo ralo, mas seu cérebro não
registrava o que via. Sentia o corpo todo doer e pedir desesperadamente
por descanso, sua mente doente pregava-lhe peças todo o tempo, precisava
dormir e revigorar a mente e o corpo, porém este privilégio foi-lhe
arrancado no dia do acidente. Dia após dia, os remédios que o médico lhe
dera para dormir foram se tornando cada vez mais ineficiente, seus
pesadelos se tornaram mais frequentes e lhe deixavam dormir menos.
Ela
sentia seu limite se aproximando e trazendo consigo a loucura. Queria
lutar, mas seu corpo já não tinha mais energia para resistir. Parte dela
estava tentada a se entregar e acabar de vez o que começou naquela
noite infeliz.
Ouviu, bem baixinho, uma voz familiar no fundo de
sua mente. Em meio a tantos delírios, demorou a perceber que aquela voz a
chamava constante e desesperadamente. Ela forçou a se concentrar em
tentar entender o que gritava, mesmo com todo aquele cansaço e a
tentação de se entregar a tudo aquilo; forçou-se a perseguir aquela doce
e suave voz que por tantas vezes a ouvira, mesmo sem saber a quem
pertencia. Sentia conforto naquele timbre delicado e único.
Perseguiu
aquele som que a conduziu de volta à realidade. Então percebeu que não
havia apenas uma voz, havia também várias batidas na porta. Eleonor, a
mulher que cuidara dela por toda sua vida e por muitas vezes assumira o
papel de mãe, batia freneticamente na porta de seu quarto e gritava por
seu nome.
Ela levantou a cabeça e tornou a fitar o espelho, piscou
os olhos algumas vezes para se certificar de que estava de fato de
volta à realidade.
− Já vou – respondeu Susan aos gritos.
Baixou
a cabeça e se voltou novamente para a água que descia pela bica,
rapidamente esticou os braços um pouco acima da cuba e fez menção de
juntar as mãos para pegar um pouco da água em suas mãos. Entretanto,
antes que pudesse realmente juntá-las, ela se deparou com sua mão
direita segurando um pequeno e afiado punhal de platina que ela não
sabia dizer de onde viera.
Ela exprimiu um grito de susto e,
então, recuou um passo e o soltou no chão. Não se lembrava de ter pegado
nenhum punhal, muito menos daquele punhal. Não o reconhecia de lugar algum, mesmo ele trazendo uma sensação familiar.
─ Susan, querida, eu ouvi gritos. O que está acontecendo?
Olhou rapidamente a lâmina, antes de respondê-la.
─ Nada. Só me espantei um pouco com a temperatura da água.
Correu
novamente para a pia e lavou o rosto com a água gelada para despertar.
Depois fechou a torneira, pegou o punhal do chão e voltou para seu
quarto. Estava muito escuro, mas ela sabia onde estava cada um dos
móveis, de modo que não foi difícil achar a mesinha de cabeceira ao lado
de sua cama e abrir a primeira gaveta para guardar aquela lâmina.
Em
seguida, ela abriu a porta do quarto para Eleonor, que entrou apressada
e acendeu a luz, cegando a jovem momentaneamente. Susan se jogou em sua
confortável cama de casal enquanto sua ex-babá revistava seu quarto.
− Ouvi você gritar algumas vezes. O que está acontecendo, minha menina?
Eleonor
era uma mulher jovem ainda, apesar de ter cuidado da filha de seus
patrões desde que esta nascera, tinha apenas trinta e seis anos e nunca
se casara. Quando mais nova, Susan costumava se perguntar o porquê de
sua babá nunca ter se relacionado com ninguém, mas parara de se fazer
tais perguntas conforme fora crescendo.
Susan abriu os olhos e fitou o teto, já acostumada com a luz.
─ Estou bem, só tive um pesadelo.
─ Você deveria voltar ao seu médico, querida. Esses seus remédios não estão mais fazendo efeito.
─ Eu sei...
─ Melhor tentar dormir mais um pouco, ainda está cedo para ficar acordada. Qualquer coisa eu estarei no quarto em frente.
Susan anuiu enquanto a observava apagar a luz e sair de seu quarto.
Ela
esperou alguns minutos até ter certeza de que Eleonor estaria em seu
quarto, então se levantou e pegou o punhal que guardara em sua mesinha
de cabeceira. Estava bastante intrigada com aquele objeto misterioso. Já
estava acostumada com algumas coisas estranhas que aconteciam ao seu
redor, mas o aparecimento do punhal despertara nela um sentimento
familiar.
Para observar cada detalhe, ela acendeu a luz de um dos
abajures que estavam ao lado de sua cama e se sentou bem perto. A
pequena lâmina era completamente feita de platina e incrivelmente leve.
Na coronha havia a forma de uma lua que, dependendo de que lado
segurasse o objeto, poderia ser minguante ou crescente enquanto que o
cabo era completamente cilíndrico e liso. Era um objeto
extraordinariamente lindo e muito bem confeccionado.
Contudo, o
que mais lhe chamava a atenção eram os símbolos desenhados na lâmina que
a atraía de forma irresistível. Sentiu a necessidade de tocá-los,
alisou a superfície do objeto com delicadeza e suavidade enquanto sentia
um misto de emoções e lembranças familiares. Aquelas inscrições em alto
relevo trouxeram vagas memórias de um passado longínquo e despertara
alguma coisa no fundo de seu âmago.
Ela largou o objeto quando
escutou o uivo de um lobo vindo do lado de fora, deixou-o em cima de sua
cama e foi até a sacada para averiguar.
Lobos, pensou.
Desde o fatídico dia, ela passou escutar uivos de lobos com frequência
em sua casa, como se estivessem a perseguindo. Sentia-se enraivecida por
eles não a deixarem em paz nem mesmo em seus sonhos e, de alguma forma,
sabia que a morte de seus pais era culpa deles, mesmo não lembrando o
que levou o carro a capotar dezenas de vezes.
De fato havia um
lobo no limiar do pequeno bosque que circundava a casa e o jardim até os
limites da propriedade. Não sabia se era devido à pouca luz ou se a
privação do sono já a estava afetando severamente, mas o lobo que via
era muito parecido com o de seus sonhos, fazendo-a se perguntar
mentalmente se poderia confiar em sua visão.
Ele a fitou por algum
tempo antes de voltar a uivar. Ela entendeu aquilo como sendo sua
confirmação de que era real, então voltou ao quarto e depois foi até sua
sala de estar particular, entre o cômodo onde se encontrava sua cama e o
banheiro.
Sua sala de estar privada não era muito grande, tinha
apenas uma televisão de tela plana presa em um pedaço próprio do
armário, um sofá pequeno e um armário feito sob medida que ocupava todas
as paredes livres e se dividia em prateleiras para a coleção de livros
pessoais de Susan, algumas gavetas e algumas portas para guardar
objetos.
Susan retirou seu precioso arco recurvo feito de madeira e
fibras de vidro nas faces externas das hastes e uma aljava de flechas,
que pendurou em um dos ombros, de uma das portas de seu armário, perto
da janela. Depois voltou para o quarto para ir até a sacada, onde
poderia ter uma melhor visibilidade do lobo.
Ela retirou uma
flecha da aljava e se posicionou para atirar quando percebeu que o
animal não estava mais lá. O uivo também havia parado. Baixou o arco,
ainda com a flecha posicionada e a corda puxada para qualquer eventual
disparo, e esperou alguns minutos na expectativa de o lobo voltar a
aparecer.
Quando um novo uivo surgiu na calmaria da madrugada, ela
aguçou seus olhos e o procurou. Ele estava em outro ponto do limiar do
bosque com a cabeça para cima, uivando. Rapidamente ela apontou o arco
em direção ao animal, ajustou a mira e soltou a corda, liberando a
flecha em um disparo.
Em toda sua vida, jamais errara um alvo,
tinha uma mira perfeita e apreciava isso. Sua habilidade única com o
arco e flecha lhe rendeu vários troféus e uma ascensão rápida no mundo
das competições. Tornara-se a campeã mundial mais jovem da história e a
favorita à primeira classificação em todos os torneios que participava,
além de uma horda de inimigos que se sentia prejudicado e inveja sua
habilidade. Soube, inclusive, que muitos atletas fizeram festa quando
ela se afastou das competições por motivos pessoais, após a morte de
seus pais. Porém, apesar de toda a habilidade e o conhecimento que
tinha, Susan não sabia dizer o que aconteceu naquele momento. Quando
efetuou o disparo, a flecha percorreu e cortou todo o ar até o alvo como
ela calculara, mas o lobo havia desaparecido. Ela poderia jurar,
naquele momento, que ele estivera no mesmo lugar até um segundo antes de
acertar o alvo.
Susan esfregou os olhos com os dedos de sua mão
livre e aguçou sua visão na tentativa de ver algo com mais claridade,
sem sucesso. Estava muito escuro e a visibilidade era pouca, mas ela não
vira o animal se mexer, ele simplesmente desaparecera.
Mas o que...? pensou
frustrada enquanto voltava para seu quarto. Ela colocou seu arco em
cima do banco da penteadeira e encaminhou-se para sua cama, porém, para
um espanto ainda maior, não encontrou qualquer vestígio do punhal que
ali deixara. Será que estou ficando louca? Melhor ir dormir,disse a si mesma ao deitar-se. Apagou a luz do abajur e rapidamente caiu em um sono sem sonhos.
O barulho de cortinas se abrindo e o sol entrando pelo quarto, iluminando-o por completo, acordaram a jovem de seu sono.
─ Não me lembro de ter fechado as cortinas ontem – resmungou se virando para o lado oposto à janela.
─ Eu fechei quando você pegou no sono.
Ela olhou a hora no relógio, então cobriu a cabeça com o cobertor.
─ Ainda está cedo, Eleonor. São nove horas, deixe-me dormir mais.
─ Você tem consulta com seu psicólogo hoje às onze ─ ignorou-a.
─ Quando finalmente consigo dormir sem ter pesadelos, eu tenho que levantar cedo – resmungou.
Ela
saiu de sua cama e foi até o banheiro resmungando alguma coisa
incompreensível, abriu a torneira da banheira e, enquanto esta enchia,
ela escovou seus dentes, então se despiu e entrou no banho.
O
banheiro era relativamente grande. O piso e a metade inferior das
paredes eram todos de mármore com adornos dourados, a metade superior
das paredes era pintada de branco. De um lado da banheira havia uma
bancada branca com duas pias e um grande espelho com adornos dourados,
do outro uma porta para um pequeno cômodo com dois sanitários. Em frente
às pias encontrava-se um grande boxe com um chuveiro.
Susan não
fizera questão em ser rápida em seu banho, pelo contrário, demorara
quarenta minutos. Ela estava sonolenta e um pouco pensativa sobre o que
acontecera na noite anterior, de modo que não percebera a hora passar.
Quando terminou seu longo banho, ela se enxugou rápido e vestiu seu
roupão branco. Depois voltou para sua sala de estar privada e parou em
frente a uma porta entre grandes estantes na qual iam desde o teto até o
chão. Abriu a porta e entrou.
Em comparação com todos os cômodos da casa, seu closet
era até que pequeno, mas ainda sim tinha uma quantidade considerável de
roupas, sapatos, bolsas e joias. Tudo foram presentes dados por seus
pais que sempre lhe dava alguma coisa toda vez que voltavam para casa
para vê-la mesmo que ela não ligasse para moda, porém este era um
detalhe que eles não sabiam, estavam sempre ocupados demais com seus
caprichos para conhecer a filha que tinham.
Ela se arrumou rápido,
vestiu roupas simples como gostava e prendeu seus longos cabelos
castanhos em meio rabo. Por um lado ela sentia alívio de sua mãe não
estar mais por perto, pois a teria obrigado a usar alguns acessórios e
se entupir de maquiagem, o que ela detestava. Por outro, sentia-se
triste por nunca mais poder vê-la.
Enquanto descia as escadas para o hall de entrada, encontrou uma visita inesperada. Sua avó que raramente vinha visitá-la entrou pela entrada principal com pressa.
─ Vovó. O que lhe devo a honra da visita?
─ Uma avó não pode visitar sua única neta?! – seu tom de voz era áspero, parecia ofendida com a pergunta de Susan.
─ Claro que pode, vó, você sempre será bem-vinda em minha casa. Tomaria café comigo?
As
duas caminharam até a sala de jantar e se sentaram à mesa, Susan na
cabeceira e sua avó ao lado dela. A mesa era grande e cabiam doze
pessoas, no entanto, apenas metade dela estava posta com uma bela toalha
e várias comidas frescas. Uma empregada colocou mais um prato e um copo
para Mary, a avó de Susan.
Enquanto comiam, Mary contou-lhe
várias histórias de quando seu pai, Richard, era mais novo. Algumas eram
engraçadas, outras nem tanto, mas Susan não se importou muito, estava
um pouco desligada.
O tempo passou rápido. Após o café da manhã, a
jovem foi para seu psicólogo em Londres e sua avó voltou para casa. Ela
mesma decidira se consultar com um psicólogo após a morte de seus pais,
queria superar aquela tragédia e, principalmente, acabar com os
estranhos pesadelos que não a deixavam dormir.
Já era tardinha
quando Susan voltou para casa, em Surrey. Ela subiu as escadas correndo e
foi para seu quarto, onde trocou de roupa e vestiu seu equipamento de
segurança. Decidiu que iria praticar um pouco sua habilidade com o arco
pelo bosque da propriedade. Aquele era seu jeito de relaxar e pensar nas
diversas coisas que rondavam sua cabeça.
Dentro do armário pegou o
seu primeiro arco, aquele que ela mais gostava, o recurvo. Era o mais
simples de todos e com menos frescuras, como costumava dizer. Ela
simplesmente detestava os arcos modernos, feitos de metal e com diversos
mecanismos para acrescentar coisas ao arco. Preferia aqueles feitos com
a boa e velha madeira cuja precisão não era tão boa, mas que se podia
ver quem realmente tinha talento. Pendurou a aljava no ombro e saiu.
─ Vai treinar? – indagou Eleonor ao ver Susan com o arco na mão e as flechas penduradas no ombro.
Susan
estremeceu ao ouvir a voz de sua governanta atrás de si. O olhar de
Eleonor era uma mistura de desaprovação e preocupação. Ela nunca fora a
mãe de Susan, mas tinha por ela o mesmo sentimento que uma mãe tem por
um filho, por isso desaprovava a ideia da jovem de ir ao bosque à noite.
─ Preciso pensar um pouco, treinar me relaxa e abre minha mente.
Eleonor bufou, sabia que convencer Susan de não ir daria em nada, só lhe restava deixá-la ir.
─ Não quer pelo menos comer alguma coisa antes de ir? Posso preparar-lhe um lanche.
─ Obrigada, mas comi em Londres. Volto em algumas horas.
A
jovem foi até a garagem, onde pegou um jipe para andar pela
propriedade. Com alguns hectares de área, era impossível andar por todo o
terreno a pé, de modo que necessitava de uma condução mesmo para andar
pela área da casa.
Ela se esgueirou no pequeno bosque que havia
dentro de sua propriedade até uma grande clareira onde havia vários
alvos pendurados nas árvores. Aquele lugar era como um santuário para
ela, costumava treinar ali desde menina.
No centro da clareira
havia um alçapão escondido embaixo da terra e folhas, Susan o abriu e
retirou mais flechas, enchendo completamente sua aljava. Ela pegou uma
flecha e atirou em um dos alvos enquanto resmungava alguma coisa para
si, depois retirou outra e fez a mesma coisa. Por um tempo impreciso,
ela repetiu o mesmo processo até ouvir um estranho ruído na mata.
A
essa altura já era noite e a lua não aparecera no céu naquela noite, a
visibilidade era pouquíssima. Ela parou de gastar suas flechas com os
alvos e passou a observar a floresta atenta a qualquer ruído. Estava
pronta para atirar a qualquer sinal de algum animal.
O que quer
que estivesse na floresta parecia rondá-la, ora o barulho vinha atrás
dela, ora a sua frente. Ela foi obrigada a girar diversas vezes até
conseguir ver um vulto no meio das árvores. Atirou próximo ao que seria
um pé para assustar e aguardou a presa sair correndo. Porém, para sua
surpresa, o vulto continuou no mesmo lugar.
─ Apareça ou na próxima vez irei acertar – bradou com uma nova flecha pronta para disparar.
O
vulto não a obedeceu e continuou parado onde estava, escondido entre
alguns arbustos. Mais uma vez ela disparou a flecha, mas desta vez esta
raspou na bochecha da pessoa que se escondia. Ouviu alguém soltar um
resmungo de dor.
─ Saia! A próxima vez que atirar, eu te acertarei na cabeça. Eu sei que você é uma pessoa.
Susan
assistiu ao sujeito sair do meio das árvores com outra flecha pronta
para disparar. Assistiu ao vulto ganhar contornos cada vez mais
definidos e mais próximos de um ser humano, devia medir cerca de um
metro e oitenta centímetros. Pela silhueta, a pessoa deveria ser, muito
provavelmente, um homem.
─ Roger! – surpreendeu-se ao ver,
finalmente, quem era quando o rapaz saiu por completo de dentro da mata.
Ela baixou o arco, apontando-o para o chão, e afrouxou a corda.
─ Susan, a que sempre se achou a melhor de todos – escarneceu o rapaz com uma mão na bochecha onde a flecha pegara de raspão.
Ela
ergueu novamente o arco na direção do rapaz e puxou a corda,
preparando-se para atirar a qualquer momento caso seja necessário.
─ O que está fazendo em minha casa? – perguntou. Seu tom de voz era sombrio e seu olhar, frio.
─ Eu pensei em passar para ver como estava. Mas puxa, sua casa é tão grande que quase me perdi nesta floresta.
Ela
pareceu cogitar o que seus ouvidos captaram, mesmo achando um pouco
estranho da parte do rapaz. Com a guarda baixa, aquele era o momento
perfeito. Ele avançou sobre a jovem rapidamente e tirou o arco da mão
dela, em seguida a jogou no chão quando esta tentara pegá-lo de volta.
Roger
era um rapaz ambicioso, arrogante e, principalmente, invejoso. Ele
invejava o talento de Susan e a culpava por sempre sair em segundo lugar
nas competições quando ela participava.
─ Veja, querida Susan,
você mora num verdadeiro castelo, possui centenas de criados a sua
disposição e ainda herdou uma companhia de alguns bilhões de libras.
Você possui uma vida de princesa, para que continuar com este capricho
bobo? – ele olhou para o frágil arco em sua mão, com fúria.
─ Do que está falando?
─
Ora, não se faça de desentendida, sei muito bem que está a par das
notícias. É por isso que você está aqui fora treinando, porque sabe que o
treinador a quer de qualquer forma nas olimpíadas no Brasil. Ele veio
pessoalmente a sua casa te informar na semana passada.
─ O quê?!
Ela
não estava sabendo de nada, sabia que foi Eleonor quem ocultou esta
informação dela, nenhum outro empregado ousaria fazer uma coisa dessas.
Mas ainda se perguntava o porquê. Por que ela faria isso? Susan realmente não sabia, mas sentia a necessidade de confrontá-la.
─
Você já tem tudo, por que quer mais? Volte a ser o que sempre foi, a
princesinha cercada de mimos ─ Roger parecia falar sozinho. Ele andava
de um lado para o outro, suava mesmo estando frio e parecia
transtornado.
Susan não perdeu o tempo respondendo-o, ao invés
disso, ela avançou para cima do rapaz e tentou reaver o seu arco. Eles
lutaram um pouco, cada um puxando-o de um lado, até o rapaz perder a
paciência e dar um soco com força no rosto Susan. Ela cambaleou para
trás, tropeçou numa pedra e caiu no chão outra vez.
─ Você não me dá outra escolha! Vou te ensinar uma lição – vociferou Roger.
Ele
parou de andar de um lado para outro e ficou parado em frente a jovem.
Segurou o arco com as duas mãos, cada uma em uma das hastes, e forçou-o.
Susan gritou, mas ele não se importou e continuou até quebrá-lo ao
meio. Uma lágrima escorreu pela bochecha dela. Aquele era seu arco
preferido e foi seu pai quem deu.
Roger caminhou lentamente em
direção à Susan. Ela apenas o observou, observou toda a cena seguinte
sem qualquer remorso. Um lobo surgiu entre as árvores e atacou o rapaz.
Ele urrou de dor quando o lobo mordeu sua panturrilha e o derrubou no
chão. O jovem tentou golpeá-lo com as partes de madeira do arco
quebrado, mas a madeira atravessou o lobo sem desferir qualquer golpe.
Um lobo fantasma,
pensou ela, assistindo toda à cena. Vendo-o tão de perto ela pôde
finalmente identificar o que eram aqueles contornos irregulares que
tanto a intrigara no dia do acidente de seus pais e, posteriormente, em
seus pesadelos. O lobo não possuía um contorno certo simplesmente porque
era um fantasma e todo o seu corpo tremeluzia.
Ela não se
desesperou com o que viu, apenas continuou a ver o animal destroçar o
rapaz que tentava inutilmente golpeá-lo com o arco quebrado. Não sentiu
nada ao presenciar o ataque e a morte de Roger, sentia-se, pelo
contrário, livre de todo o peso que há meses carregava. Sentiu seu
coração se inundar de frieza e até crueldade, no fundo estava até
gostando do que estava vendo. Permitiu-se sorrir.
Quando o ataque
terminou, a criatura a fitou. O rapaz jazia no chão, completamente
dilacerado e irreconhecível, enquanto a frieza tomava conta dos olhos de
Susan. Ela estava banhada em sangue que esguichou durante as várias
mordidas que o lobo dera. No fundo de sua mente, um nome ecoou. Sua
cabeça começou a rodar, como em seus sonhos, e aos poucos ela perdeu a
consciência, desmaiando ali mesmo.
Nota: Capítulo escrito por Camille M. P. Machado
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