PARTE UM
Existe um deus dentro de você.
Ela adorava o mar.
Adorava
o barulho das ondas batendo furiosas contra as rochas. O som do vento
zunindo em seus ouvidos e adorava o jeito como o mar parecia lutar para
tocar-lhe os dedos dos pés enquanto ela caminhava pela areia branca da
praia. Ela amava o cheiro da brisa oceânica e como sua pele ficava
salgada depois de mergulhar. Mas acima de tudo, adorava o fato de que
ouvir e sentir o mar aquietava sua alma como o mais efetivo dos
calmantes.
Quando era pequenininha gostava de deitar em cima da
prancha de surf de seu pai e ficar sentindo o balanço da água. Olhava
para o céu até os olhos arderem, apenas para admirar os formatos
curiosos e divertidos que as nuvens faziam no céu azul enquanto a
prancha deslizava devagar pelas marolas. Podia passar dias assim, o
cheiro da maresia e a brisa fresca açoitando seu rosto enquanto ela
afundava os pesinhos na areia branquinha e muito fina. Ahn como gostava
daquelas lembranças!
Tortuosas imagens de um tempo em que ela
tinha o mundo reluzente se abrindo diante dela. A maior parte das
lembranças da sua infância, até os seis anos, foi preenchida pelos sons,
cores e cheiros vindos do mar. Durante muito tempo foram seu porto
seguro, a luz de razão que ela agarrou em desespero para não afundar em
solidão e medo.
Seus pais haviam morrido quando ela tinha pouco
mais de seis anos. Eles eram biólogos marinhos e estavam em seu barco no
meio do atlântico quando foram atingidos por uma tempestade que engoliu
o barco e arrancou dela toda a sua esperança.
Recebeu a notícia
no dia em que os corpos de seus pais foram encontrados, junto aos
destroços do barco que tinha o mesmo nome que ela, Katerina. Não chorou
quando recebeu a notícia, nem quando viu a terra cobrir o rosto das
únicas pessoas que ela amava ou quando foi levada para um orfanato. Não
chorou quando se deitou na cama fria e dura, sozinha, vazia e frágil em
um lugar completamente desconhecido. Em 13 anos, não ousou chorar pela
morte dos seus pais. Não que não sentisse a perda, que não sentisse a
falta.
Lembrava-se muito bem da dor, do medo e do silêncio das
longas noites no orfanato. Lembrava-se de querer chorar, mas não
conseguir soltar uma maldita lágrima. Dia após dia ela sofreu uma
tortura amarga dentro de si, até que não sentiu mais nada, nem por eles,
nem por ela, nem por ninguém.
Ficou 10 anos sem conseguir sequer
olhar o mar. Morria de ódio por saber o que ele havia tirado dela, o que
ele a obrigou a sacrificar e mudar. Foram anos fugindo de olhá-lo outra
vez, de relembrar a dor, de suportar a perda.
Mas ela foi criada
para adorar o oceano e a água, sabia disso. Sabia que não odiaria para
sempre e foi exatamente o que aconteceu. Depois de tanto tempo, bastou
olhá-lo e seu coração derreteu como gelo. Aquele lugar era a fonte de
suas alegrias mais ternas, como poderia resistir? Olhar para as águas
turvas da praia fez que com que ela se sentisse em casa, afundando a
garota em suas lembranças do passado. A risada forte do seu pai, o olhar
carinhoso de sua mãe. Os abraços afetuosos, as histórias antes de
dormir, os almoços de domingo unidos, brincando, mergulhando, sendo
felizes. Ela sentia falta daquilo, sentia falta de se sentir
verdadeiramente feliz e amada.
Mas 13 anos depois, Katerina
entendia o que precisava fazer. Quando saiu do orfanato, com sua pequena
mala de mão e o sentimento de liberdade no peito, ela fez questão de
tomar o ruma da sua vida. Havia herdado uma generosa quantia em dinheiro
dos seus pais, usou-o para iniciar seu caminho.
No primeiro ano
ela tomou suas primeiras aulas de mergulho, aprendeu a sobreviver
sozinha e a lidar com o mundo lá fora. Em um ano ela já havia conseguido
um bom emprego e também comprara um barco para morar. Queria estar
perto do mar o tempo todo, ouvir, sentir, cheirar o mar. Era sua casa, a
única casa que possuía.
Trabalhava em uma pequena loja de
produtos de pesca e camping, bem perto do cais onde seu barco ficava
atracado. O lugar que havia pertencido a seus pais, agora era dela.
Também fazia alguns mergulhos turísticos e havia conseguido uma boa
grana no último verão, além de que pôde finalmente pôr em prática o
inglês que aprendera no orfanato. Foi nessa época que decidiu que
seguiria os passos dos seus pais, matriculou-se em uma faculdade e
começou o curso de biologia marinha.
− Katerina? – a voz feminina
fez a garota dar um pulo de susto. Não havia notado o quanto estava
mergulhada em seus pensamentos até que Lia, uma colega da faculdade,
tocou-lhe o ombro.
− Uhn?
− Você prestou atenção no que o professor disse?
Ele tinha dito alguma coisa? Ohn, droga.
Pensou ela, arrumando-se na carteira. Odiava quando se perdia dessa
forma em sua mente. Recompôs-se da melhor forma que pôde e olhou para a
garota ao seu lado.
− Era algo importante, Lia? – era, claro que
era. Se não fosse importante, a amiga não teria chamado sua atenção.
Frustrada, a garota esfregou os olhos para provar a si mesma que ainda
estava acordada.
− Para onde você viaja quando pensa, Kate?
Para longe, muito longe.
Pensou ela. Porém não disse nada, nunca dizia quando faziam essa
pergunta. Depois de alguns minutos em silêncio, a jovem de cabelos
castanhos virou-se para ela e murmurou:
− Eu gostaria de saber como você consegue ser a melhor aluna do curso com essa mente tão avoada.
−
Eu simplesmente sei das coisas, Lia. – Katerina olhou no relógio e
percebeu que a aula tinha terminado. Guardou suas coisas e saiu da sala.
Havia passado a tarde toda na faculdade e precisava de um café quente e
forte para aliviar o corpo antes que entrasse em colapso.
Era
estranho, mas sua mente às vezes pregava-lhe peças, brincava com ela
transformando vontades em lembranças. Memórias estranhas que ela sabia
muito bem não serem reais. Eram alucinações, bem sabia ela. Havia
procurado um médico pouco depois de elas começarem, aos oito anos de
idade. Os remédios ajudaram um pouco, mas nos últimos anos começaram a
voltar e pioraram drasticamente, fazendo-a acreditar que estava louca.
Começou
quando ela completou 18 anos, há quase dois anos. Estava no orfanato,
cuidando das meninas mais moças enquanto tomavam banho. Elas riam tanto,
tão livres, tão alegres que a faziam sentir falta de alguma coisa,
alguma coisa que ela não conseguia recordar. Por um segundo Kate sentiu
uma dor terrível em sua têmpora, a lembrança estava apenas a alguns
centímetros dela, real demais para ela fugir.
Estava sentada
em uma rocha enorme que se sobressaia do mar, muito próxima a praia. O
pôr-do-sol pintando o céu de laranja, vermelho e amarelo, enquanto ela
ria junto de um enorme grupo de mulheres. Todas brincando dentro d’água,
completamente nuas, sem se importar com nada e ninguém além delas.
Elegantes corpos femininos banhados pelo mar e pelo sol.
−
Vamos irmãzinha, não vai mergulhar com a gente? – a voz conhecida fez o
rosto dela se virar e encontrar um par de olhos curiosos.
−
Não Thétis – disse-lhe docemente – Quero observar o sol desaparecer no
mar. – A outra mulher sorria para ela, tinha olhos verdes e longos
cabelos castanhos, a pele dourada dos longos dias banhados pelo sol. Ela
soltou um suspiro e desviou os olhos para longe.
− Ás vezes você é tão estranha, irmãzinha.
Thétis abriu um sorriso e se afastou, mergulhando até sumir de vista.
Ela ficou observando enquanto o sol desaparecia no mar, quando
finalmente a lua brilhou solitária na imensidão negra da noite, ela se
levantou e pulou nas águas profundas. Desaparecendo na imensidão azul do
oceano.
Katerina acordou alguns minutos depois, ela tinha
desmaiado no banheiro, fazendo todas as outras garotas entrarem em
pânico ao verem-na caída no chão.
Passou tanto tempo acreditando que estava enlouquecendo.
Os
apagões vinham sem aviso, nunca seguiam um padrão. Às vezes ela olhava
pela janela e simplesmente mergulhava em um mundo que não era real,
quando voltava a si sempre precisava encontrar as pessoas que a olhavam
com medo, retraídas, achando que ela era louca.
Tinha medo de
estar atravessando a rua e sofrer um apagão. Tinha medo de estar
morrendo. Mesmo que ela não conseguisse se lembrar da última vez em que
estivera doente, nem mesmo se lembrar quando pegou uma gripe, Katerina
tinha medo de descobrir que sua saúde perfeita era só um bônus por uma
morte prematura.
O medo às vezes a deixava com insônia. As imagens
que a mente dela formavam eram perfeitas demais para se fugir. Sempre
sonhava ou via uma mulher que se parecia muito com ela, inclusive a voz.
E isso a incomodava, perturbava-a.
− Katerina? – chamou uma voz masculina. – Katerina, você vai beber esse café ou vai deixá-lo esfriando?
Ela ergueu os olhos. Encontrou o rosto de um dos professores fitando-a com um enorme sorriso nos lábios.
−
Olá Sr. Clark – cumprimentou-o com um aceno, sorrindo enquanto ele se
sentava na cadeira ao lado dela – Eu estava pensando um pouco. Você sabe
que ultimamente as pessoas se esqueceram de que essa é uma atividade
promissora.
− É Manuel. Não me chame de Sr. Clark, me sinto muito
mais velho do que sou. – Era verdade. Manuel Clark tinha pouco mais de
30 anos e era um homem muito bonito. Era difícil não se admirar pelos
profundos olhos cor de âmbar e a barba sempre por fazer, além de que ele
tinha aqueles sorrisos nada comerciais que faziam as garotas da sala
dela fofocarem e suspirarem pelos cantos.
− Claro Sr. Clar... Manuel – corrigiu-se. – Desculpe.
Ele abriu um sorriso largo, mostrando as fileiras de dentes perfeitamente brancos.
− Está perdoada, Katerina. Mas só se me deixar chamá-la de Kate. O que acha?
− Eu... Uhn... Acho que tudo bem.
Eles ficaram ali até o café dela chegar ao fim, então Manuel se levantou e estendeu a mão na direção dela.
− Quer dar uma volta? - perguntou ele.
− Claro.
Kate
terminou de beber o café e se levantou. Os dois começaram a caminhar
pelo campus da universidade, que naquela hora do dia sempre ficava um
pouco mais vazio que o normal.
− Então, o que você pretende fazer quando terminar o curso?
− Velejar – respondeu ela. – Talvez trabalhar com golfinhos fora do país, ainda não sei. Mas antes eu quero velejar.
− É um sonho grande.
− Eu sei, mas eu nasci para viver no mar e é isso que vou fazer.
− Não quer casar? Ter filhos, família?
Kate negou com a cabeça.
− Acho que essa vida não me faria feliz. Talvez um dia, nunca amei ninguém ao ponto de pensar em me casar.
− Nenhum namorado?
− Ahn, não.
− Que pena – disse-lhe. – É muito bonita para ficar solteira, Katerina.
Kate
parou de caminhar e fitou Manuel um pouco confusa. Ele realmente a
estava elogiando? Ele deveria ter percebido a confusão dela, pois abriu
um sorriso enquanto se aproximava um pouco mais.
− Nunca lhe disseram isso? Você tem os olhos mais perturbadores que conheci.
− Não sabes o que diz – sussurrou ela, mais para si mesma do que para ele.
−
Sei sim, Katerina. Conheci muitas mulheres pelo mundo, ser Geólogo me
permitiu conhecer e ver muitas coisas, acredite. Mas nunca vi olhos como
os seus.
Kate enrubesceu, os olhos tímidos se desviaram dele. Não
entendia porque Manuel, um dos professores mais bonitos da faculdade,
estava flertando justamente com ela.
Quando ele segurou as mãos
dela, Kate sentiu um aperto no peito. Deu um passo para trás e tentou se
afastar. Mas ele foi mais rápido e segurou as mãos dela com força.
− Acho melhor eu ir embora – disse ela.
−
Não fuja – pediu – eu tenho observado você há meses e não consigo
tirá-la da minha mente. Não sei explicar. Mas contigo tão perto, não
posso permitir que vá. Estou apaixonado por você.
Ela ficou de boca aberta olhando para ele. Não conseguia se mover, nem sequer piscar.
− Você o quê?
− Me dê uma chance, sei que posso fazê-la feliz.
− Não.
− Não?
− Não. – ela tentou soltar as mãos novamente do aperto dos dedos dele, mas não conseguiu.
− Você está machucando meus dedos, professor. Me solte.
Mas ele não soltava.
− Você está se negando para mim?
Kate bufou de raiva.
− Qual parte do não você não entendeu? Agora me solte, Manuel!
− Porque não?
− Porque eu não quero.
− Não me quer?
Que diabos de homem burro, pensou ela.
− Não, Sr. Clark. Você é surdo? Está prendendo minhas mãos com muita força, largue-me logo ou eu vou gritar.
Manuel olhou para ela, parecia confuso e muito frustrado.
– Não vou soltá-la, Kate. Não antes de conseguir alguma coisa de você. Estou sufocando por você. Quero um beijo.
Ela quase riu de nervosismo.
− Eu não vou beijar você. Já disse que não o quero. Deixe-me ir – implorou.
−
Eu abro meu coração e você se nega como uma pedra. Acha que vou aceitar
isso? – Aqueles olhos bonitos agora pareciam ameaçadores e Kate começou
a sentir um calafrio percorrer todo o corpo. Por alguns segundos ela
não viu o rosto de Manuel, em seu lugar havia um rosto vagamente
conhecido. Os olhos cor de âmbar tornaram-se azuis como o céu, e os
formatos mudaram completamente. O sentimento de déjà vu foi tão forte
que ela quase gritou.
Manuel prendeu as mãos pequenas e empurrou o
corpo de Kate contra o chão. Ela caiu, incapaz de fugir, enquanto
sentia a boca dele contra dela. Ele a beijou a força enquanto ela se
contorcia. Ela tentou virar o rosto. Tentou gritar. Mas não havia
ninguém para salvá-la e um sentimento terrível a fez entender que estava
terrivelmente só no mundo. Ninguém para lutar por ela. Nunca houve.
Ela sentiu medo, sentiu nojo.
Enquanto
as mãos daquele homem tocavam nela, Kate sentia vontade de arrancar a
pele. Tentou chutá-lo, tentou socá-lo, mas de nada adiantava. O corpo
dele era mais forte, mais pesado e maior.
Ela estava perdida.
Uma
onda de calor começou a preencher o corpo de Katerina. A vontade de
lutar era tão forte que parecia queimar seu corpo, irradiando,
expandindo como se pudesse romper a pele. Então Manuel afastou o rosto.
Ele soltava sons estranhos pela boca enquanto se levantava. As mãos em
torno da garganta e havia uma expressão de agonia e pânico no rosto
dele.
Ela admirou a cena enquanto o calor do ódio dela
transbordava. Ele estava sufocando, morrendo enquanto o corpo secava.
Kate não entendia como sabia disso, mas o conhecimento a deixou alegre.
– O que vo-você fez comigo? – ele apontou um dedo acusatório para ela, a voz saindo muito rouca e baixa.
Kate
começou a recuar enquanto Manuel caia de joelhos no chão. Ela virou as
costas e começou a correr tão rápido que tudo em torno dela virava um
borrão.
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Kate
correu para dentro do barco, deixando a bolsa e as sapatilhas pelo
caminho. Foi até a popa do barco, as mãos frias envolvendo o corpo magro
como se tentasse mantê-la firme, como se tentasse impedir sua alma de
cair em pedaços pelo chão. Não chorou, nunca chorava. Mas o nó se formou
em sua garganta, deixando-a sufocada pela dor que não conseguia se
libertar do corpo. Ela tremia, mas não estava frio, ainda era primavera e
a brisa que soprava era somente fresca.
Kate olhou para o céu,
jamais se sentira tão sozinha em sua vida. Nem tão perdida. Fechou os
olhos e deixou que todas as barreiras e muros, na qual tinha construído
em torno de si mesma desde a morte dos pais, caíssem. Esse era um
daqueles momentos em que ela era invadida por uma dor amarga que a
deixava a beira da loucura. Sentia que tudo que poderia fazer era sentar
no chão e gritar e gritar até que não houvesse mais voz. Ela estava
quebrada. Completamente perdida dentro do vazio que sua vida se tornara,
a solidão era tão assustadora que a deixava cega, rompendo em pedaços
por sua angustia.
Aquela era uma dor que a sufocava, que a deixava
zonza e fraca demais para suplicar por ajuda. Os joelhos vacilaram e
ela caiu no chão de madeira, o peso em seus ombros era grande demais
para ela suportar agora, o peso de uma vida inteira tendo a solidão como
amiga, como a única capaz de preencher os dias. Ela sentia medo. Medo
de que não suportasse tudo aquilo, de nunca mais ser inteira novamente.
Katerina
deitou ali mesmo, abraçada em suas próprias pernas como um feto dentro
da barriga da mãe, com os olhos fechados e o peito queimando enquanto
ela controlava a vontade de gritar.
Enquanto ela se perguntava se a dor poderia matá-la, adormeceu.
− Pare de fazer tanto barulho, Nephi. – a voz baixa parecia irritada. – Daqui a pouco ela vai acabar acordando por sua causa!
− Ahn, desculpe Ephe. Não fiz por mal, é que estou tão contente por estar tão perto dela... – Ouviu outro Pluf – Não consigo me conter.
− Pare de pular, sua tonta! – gritou outra voz.
Kate
começou a recobrar a consciência. Ela sentia o corpo todo doer por
causa da posição que estava, e enquanto se movia um pouco, todos os
músculos começaram a reclamar em protesto.
− Parem de brigar comigo! – protestou uma das vozes – Eu só estou feliz. Faz anos que não vejo a Rainha.
Kate
se sentou, esfregando os olhos enquanto tentava se recompor e
acostumar-se a luz do sol. Não sabia quanto tempo tinha ficado deitada
ali, mas pela dor muscular provavelmente já era de manhã.
− Todos sentiram a falta da rainha, Nep, mas não precisamos exagerar.
− Ahn Lira, é que ela está tão perto! Você sabe que eu não a conheci antes da queda. Nunca a vi tão de perto.
Kate
olhou ao redor, procurando no caís e nos barcos ao redor para ver de
quem eram as vozes que soavam por perto, mas não viu nada.
− Acho que ela nos viu! – gritou uma delas – Escondam-se meninas!
− Quem está ai? – Kate se levantou – Alô? Alguém?
Mas não houve resposta. Ela deveria estar enlouquecendo.
− Sua idiota, você não sabe ficar quieta um minuto? – Katerina olhou ao redor outra vez.
− Eu sei que vocês estão ai, posso ouvi-las, apareçam!
Durante
alguns instantes Kate teve certeza que ninguém responderia, chegou a
prometer a si mesma que procuraria um médico no dia seguinte. Mas então:
− De-desculpe, senhora – murmurou uma voz feminina.
− Onde você está?
− Aqui em baixo, na água.
Katerina
caminhou até a ponta da popa e olhou para baixo. Ali, bem próximo ao
barco estava três golfinhos-nariz-de-garrafa olhando para ela.
Ela só poderia estar ficando louca.
Recuando
alguns passos, Kate encarou os três animais como se fossem fantasmas.
Não sabia o que dizer ou sequer se conseguiria formular alguma coisa
plausível.
− Senhora? – disse um dos golfinhos.
− Pelos deuses, eu acho que bati a cabeça em algum lugar...
−
Estás ferida, senhora? – o golfinho do meio perguntou. Ele se aproximou
ainda mais do barco, os olhinhos brilhando de preocupação.
− Estou falando com golfinhos. Estou falando com malditos golfinhos.
− Não somos quaisquer golfinhos – explicou o do meio – somos descendentes de Delphin.
Sim, isso fazia todo o sentido, pensou ela.
− Eu não deveria estar falando com vocês. Eu vou acordar daqui a pouco e ver que tudo isso é um sonho.
− Senhora, não somos um sonho, somos reais.
− Pare de me chamar assim. Não sou sua senhora.
− É sim. É nossa rainha – Kate quase riu com essa resposta.
− Rainha? Mais essa?
Um dos golfinhos, provavelmente a líder, soltou o que deveria ser um suspiro.
−
Você não consegue se lembrar. Mas não finja que não acredita. Você sabe
que isso é real, porque é. Podemos sentir seu poder retornando.
− Do que você está falando?
− De quem você realmente é. Você se lembra, não lembra? Da vida que tinha antes da queda. Da vida no mar.
Kate olhou para aqueles animais e se aproximou devagar. Sentou-se com os pés para fora do barco, tentando chegar bem perto.
− Como você...?
−
Nós sabemos de muitas coisas, minha senhora. Eu sou Ephe, estás são
Nephie e Lira. Nós somos parte da corte da rainha dos mares. Da sua
corte.
− Não faz sentido...
− Claro que faz – Kate
reconheceu o golfinho, seu nome era Lira – Você vê, sente e ouve coisas
que os outros mortais não podem. Porque você não é como eles. Você
também não deveria lembrar, mas lembra. Todos nós sentimos quando usou
seus poderes ontem e agora sei que precisamos fazê-la lembrar. Venha
conosco. Venha conosco e provaremos que não somos miragens da sua mente.
− Isso é loucura. – respondeu Kate.
Mas mesmo assim ela pulou na água.
Eles nadaram durante um longo tempo. Vez ou outra subiam juntos para respirar e os três golfinhos revezava, para levar Katerina.
Em
diversos momentos cardumes inteiros se aproximavam e nadavam em volta
delas, parecia que dançavam na água transparente. Arraias, enguias,
cavalos-marinhos a até tubarões chegavam bem pertinho, e Kate podia
ouvir as vozes dele saudando-a com reverência.
O sol brilhava
forte e era quase meio dia quando eles chegaram a um enorme precipício
abaixo d’água. Lá, perto de onde o solo abriu uma fenda profunda, estava
uma enorme estátua de uma mulher. A estátua era branca, feita de
mármore e parecia muito bem cuidada, não havia sequer limo cobrindo-a.
Enquanto
olhava fixamente para o rosto da escultura e quanto mais Kate se
aproximava, mais o coração dela batia acelerado no peito.
Ephe, Lira e Nephie deixaram-na muito próxima a estátua, deixando que Kate tirasse suas próprias conclusões.
Ela
tocou o rosto da estátua com os dedos trêmulos. O rosto bonito era
ovalado, os lábios finos e grossos e enormes olhos cuja cor ela poderia
saber mesmo estando branco. Kate olhava para uma imagem dela, mais velha
e muito mais forte do que ela seria.
A estátua vestia uma túnica
que parecia estar flutuando na água, os cabelos longos a cacheados
estavam revoltos assim como os dela. Segurava um enorme tridente na mão
esquerda, e na direita uma coroa delicada. Mesmo imóvel, dava a
impressão de que piscaria para ela a qualquer instante. A imagem de uma
rainha poderosa e sábia. A imagem de alguém que ela tinha sido há muito
tempo, tempo demais para que Katerina pudesse se lembrar com clareza.
Aquilo era impossível. Loucura. Mas ao mesmo tempo era real demais para fugir.
Durante
tantos anos achou que estava louca, mergulhando em uma insanidade e
caos que a levariam para algo pior que a morte. Anos e anos sentindo que
não pertencia a este mundo, que não era como os outros. A dor, a
solidão, o medo de não entender o que via, o que sentia.
E agora
ela mergulhava na realidade e deixava que as lembranças formassem canais
e sua mente, mostrando coisas que seus olhos não aceitaram ver,
entendendo o que não quis entender em todos esses anos.
− Sou eu –
sussurrou. As palavras não vieram dos lábios, que permaneceram
fechados. Era a mente que sussurrava agora. – Eu sou Anfitrite – disse
ela com convicção – Eu sou a deusa dos mares.
Nota: Capítulo Escrito por Thayane Witte
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