Oito dias era o tempo que ele estava caminhando sobre aquelas terras
áridas, e por todos esses dias, ele só fora capaz de ver areia para tudo
o que era lado e alguns animais pequenos, como aranhas, escorpiões e
lagartos. Não havia água em lugar algum, a não ser dentro dos corpos dos
pequenos animais, a única fonte de comida para ele. Talvez estivesse
morto se não fosse um demônio e, por isso, não tivesse alta resistência.
Ele
caminhou por horas sem encontrar nada além de areia, o sol já começara a
se por quando ele viu alguém se aproximando. No início, era apenas uma
silhueta no horizonte que andava na direção dele, parecia uma forma
humanoide pequena. Conforme se aproximou, ele pôde ver uma forma envolta
em uma capa até a altura dos tornozelos e com um capuz que lhe cobria o
rosto. Instintivamente ele se preparou para o combate, o que não
demorou muito para acontecer.
A cinquenta metros de distância um do outro, foi quando começou a batalha. Ele sacou suas duas desert eagle e
apontou para a cabeça do ser a sua frente. O oponente estava alguns
centímetros acima do chão, flutuando, e emanava um poder estranho.
–
De onde eu venho há uma regra que diz que devemos nos apresentar antes
de começar a batalha. Todos me chamam de Pink, qual seu nome? – não
havia qualquer emoção em sua voz enquanto falava.
O oponente hesitou por um momento pensando se deveria dizer ou não.
– Flora – respondeu por fim a menina.
Flora possuía uma voz infantil, o que delatava sua pouca idade.
– Uma criança, óti... – ele tentou resmungar, porém fora interrompido por um ataque de Flora.
Uma
enorme árvore, que ele não sabia de onde viera, atacou-o por trás. Ele
conseguiu desviar do ataque com uma cambalhota no ar enquanto atirava
várias vezes na árvore, fazendo-a se assemelhar ao queijo suíço devido
aos inúmeros buracos. Quando ele voltou ao chão, finalizando a
cambalhota, um galho cresceu da árvore na direção dele que foi
facilmente evitado com um pulo.
Ele tentou atirar três vezes na
menina, as balas teriam perfurado a perna dela se não tivessem sido
impedidas por uma espécie de barreira. Ele tentou novamente, mas a mesma
barreira envolveu as cápsulas até atingirem velocidade zero e caírem no
chão, intactas. Nenhuma de sua munição fazia efeito e as balas do pente
também estavam acabando.
Ataques viam em todas as direções,
enormes troncos verdes, cujo diâmetro era maior do que a largura de um
ombro a outro, de árvore o atacavam. Era incrível como Flora conseguia
controlar completamente a trajetória dos troncos, inclusive quando
deveriam se contorcer para não espatifar no chão. O domínio da
habilidade dela deixava-o em desvantagem, ele não tinha tempo para fazer
outra coisa senão desviar ou, vez ou outra, atirar.
Pink esperou
pacientemente por uma oportunidade e quando esta apareceu, não hesitou,
ele usou a telepatia nela, inutilmente. O campo de força que a protegia
também barrava o uso de poderes telepáticos, era inútil usar a
telepatia para vencê-la se ele não desfizer o campo de força primeiro. O
problema era: como ele iria fazer isso?
Flora sorriu,
parecia que ela sabia o que seu oponente tentara fazer. Ela estendeu a
mão no ar e novos troncos surgiram para atacar Pink, os ataques se
tornaram mais rápidos com o uso das mãos. Pink se esquivava de todos os
ataques com um pouco de dificuldade, ele ofegava durante os poucos
momentos que tinha tempo para respirar direito. Seria seu fim se aquela
situação persistisse por mais algum tempo.
Recorrer àquela
forma para vencer um ser tão inferior, no ponto de vista dele,
deixava-o irritado, mas talvez não tivesse outra opção. Antes disso, ele
precisava recarregar suas armas e encontrar um momento para isso não
foi fácil. Como uma isca, ele manipulou a trajetória das árvores para
que lhe dessem cobertura por algum tempo e ele pudesse sair das vistas
de Flora por alguns minutos, tempo suficiente para recarregar as armas.
As
árvores criaram uma espécie de ninho de alguma ave gigante ou algum
animal ovíparo, o ninho era tão grande que ele parecia uma formiga
andando pelas fibras feitas de árvores. A malha criada pelas árvores de
Flora era densa, mas não o suficiente para que ele não pudesse entrar
entre as fibras e se esconder dentro da grande malha de árvores.
Escondido,
ele usou a oportunidade para usar uma de suas habilidades e carregar as
armas com balas mais potentes. Ele largou uma das armas no chão e
fechou o punho, uma tênue luz rosada iluminou toda a pequena fresta onde
ele estava, era quase imperceptível de longe. Balas apareciam em sua
mão, materializadas de um simples pensamento de como seriam e o dano que
fariam. Cinco balas apareciam na palma de sua mão por vez, este era o
máximo que conseguia produzir no momento, seriam necessárias trinta
balas para recarregar cada pente.
– Onde ele está? – perguntou-se Flora procurando-o entre o emaranhado de árvores.
– Estou aqui. – respondeu ele atrás da menina, apontando suas armas para a cabeça dela.
Flora
se virou para fitá-lo e se surpreendeu ao ver a nova aparência do
rapaz, ele não parecia mais com um humano, a forma havia mudado. Ele
vestia uma túnica negra que cobria todo o corpo desde o pescoço aos pés e
tremulava como se fosse parte de seu corpo; os longos cabelos negros e
um chifre negro em sua testa contrastavam com a brancura de sua pele,
ele parecia muito pálido. Uma máscara metálica de um corvo cobria-lhe o
rosto e deixava a mostra apenas a boca e os intensos olhos cor-de-rosa.
Normalmente demônios de sua raça tinham olhos rubros, mas os dele eram
estranhamente rosa, graças a isso, recebeu o apelido de Pink.
Porém,
o que mais chamava a atenção de Flora era o fato de que ele pairava no
ar, ele não tinha asas ou qualquer habilidade que o fizesse voar. Se
tivesse, ela saberia, pois foi uma das habilidades que ela escolhera,
saber as habilidades de seus oponentes. Ela havia ganhado todas as
batalhas até o momento por causa desta vantagem, era estranho como ele
era capaz disso sem qualquer habilidade de voo. Será que ela estava quebrada outra vez?
– Como é que você pode voar? – perguntou amedrontada.
– Voando. – respondeu seco. – Já estou cansado daquelas suas árvores, está na hora de dar um fim a isso.
– Fim? Eu estou apenas começando. – disse ela tentando esconder o temor.
Ela
temia estar quebrada novamente, era um sentimento que lhe acompanhou
por toda sua vida. Em seu mundo, as outras crianças não brincavam com
ela por ela ter nascido quebrada e ela dependia de terceiros para fazer
tudo. Quando veio a Mithra, a ideia de poder fazer tudo o que desejava
sem pedir a ajuda de alguém a encantou, era como viver em um sonho
maravilhoso. A última coisa que desejava era acordar desse sonho e
voltar a triste realidade que ela vivia em seu mundo.
Flora viu
tudo acontecer em câmera lenta, Pink puxou o gatilho e deu um disparo. A
bala teria acertado-a se ela não tivesse agido rápido e usado as
árvores como escudo. No momento em que a bala acertou o a árvore, esta
fora destruída, deixando Flora a mercê dos poucos fragmentos que voaram
em sua direção. Os fragmentos não foram parados pelo campo de força que
ela usava, pelo contrário, eles passaram pelo campo de força sem
danificá-lo e se alojaram nas pernas de Flora.
Ela resmungou, mas
não parecia que isso a importava ou que ela estivesse sentindo alguma
dor pelos ferimentos. Era estranho, pois suas pernas sangravam e ela
agia como se nada tivesse acontecido e até havia mudado de tática, ela
resolvera usar a habilidade de ilusão. Ela criou várias cópias de si
mesma ao redor do rapaz, que a princípio pareceu atordoado.
As
cópias pareciam criar as árvores como a original fazia, pareciam
perfeitas, exceto por um detalhe. Apenas a original possuía pingos de
sangue no chão abaixo dela que escorreram de sua perna ferida, assim
como era a única que cheirava a sangue. Qualquer demônio de seu mundo
poderia sentir o cheiro de sangue a metros de distância, aquele era um
aroma familiar que havia impregnado nas terras onde nascera.
Ele
sorriu e fechou os olhos para que se concentrasse apenas no olfato, por
essa Flora não esperava. Ela fez uma árvore o atacar por trás, em seu
ponto cego. Por alguns segundos, ele não se moveu, permaneceu parado no
lugar onde estava com os braços para baixo e os seus dois bebês, como
ele gostava de dizer, em cada uma das mãos. Foi somente no último
segundo q ele estendeu os braços, cada um para um lado, e atirou.
Uma
bala acertou a árvore que o atacaria, destruindo-a por completo, até a
raiz. A outra foi em direção a Flora que, em um momento de puro reflexo,
ergueu uma nova árvore para protegê-la. O escudo foi destruído da mesma
maneira que outra árvore, porém a bala não se conteve apenas com a
árvore, ela continuou sua trajetória em direção a Flora em uma
velocidade mais devagar. A bala bateu no campo de força, destruindo-o, e
se espatifou em milhares de pequenos fragmentos os quais acertou Flora
em vários lugares.
Flora gemeu de dor e despencou de uma grande
altura. O estrondo de seu corpo batendo no chão foi alto, apesar de
ainda estar viva. Ela fitava o céu, sem se mexer, fragmentos havia
atingindo os braços, pernas, tórax, um no coração e um na testa. Estava
banhada no próprio sangue e sem forças, algumas costelas também pareciam
quebradas.
Apesar de ter vencido, Pink estava igualmente mal. Os
dois disparos e a forma demoníaca consumiram quase todas as suas
forças, uma das armas havia quebrado e ele não mais conseguia pairar no
ar. Ele também despencou, porém antes de colidir com o chão, ele usou
sua última força para amortecer a queda. Estava igualmente esgotado e
imóvel.
– Quando eu voltar para meu mundo, eu poderei andar? – ela chorava descontroladamente.
Aquela
pergunta pegou Pink completamente de surpresa, ele não sabia o que
responder. Ela não andava? Como ela conseguiu chegar até aqui se não
podia andar? Essas eram duas perguntas que ele se fazia.
– Sim... – respondeu desconfortavelmente, porém com sua frieza costumeira.
Flora
sorriu, mesmo sabendo que era mentira, ela abriu um sorriso verdadeiro
em seu rosto. As lágrimas continuavam a descer, mas em uma velocidade
mais devagar.
– Obrigada por me dar esse prazer. – disse ela em lágrimas.
– Prazer pelo quê? – ele estava confuso.
–
Prazer por essa batalha, prazer por me dar essa diversão e prazer por
não me ignorar. No meu mundo, outras crianças não brincam comigo porque
eu nasci quebrada dessa maneira, não posso andar ou sequer mexer minhas
pernas, elas estão quebradas. – ela virou o rosto para fitar seu
adversário e voltou a sorrir – Então obrigada por me dar essas incríveis
memórias, não me esquecerei desse mundo mágico.
Ela voltou a
fitar o céu, o límpido e azulado céu que ela tanto amava, enquanto a
magia que a trouxera a Mithra se desfazia. Começando dos pés, seu corpo
desaparecia lentamente deixando apenas a areia do deserto. As árvores
que ela criou também desapareciam e se transformavam em forma luminosa
até nada restar.
– Obrigada... – disse em seu último suspiro antes de desaparecer completamente.
Uma
lágrima escorreu do rosto de Flora e caiu na areia, molhando-a. Um anel
prateado com uma pequena pedra transparente incrustada também caiu do
corpo de flora em cima da areia. A lágrima e o anel eram as únicas
coisas que restaram da menina, cujo maior sonho era poder andar, em
Mithra.
Ele se arrastou até o local onde o corpo dela estivera e
pegou o anel. Era um belíssimo anel e um dos artefatos de Mithra, dava
ao seu portador a capacidade de criar campos de força. Quando colocou o
anel no dedo, onde caíra a lágrima cresceu magicamente uma grande árvore
frutífera, o último presente de Flora. A copa da árvore era grande e
proporcionava-lhe uma bela sombra para um cochilo, além de suculentos
frutos. Estava com fome, mas a exaustão era maior, ele só foi capaz de
adormecer embaixo daquela sombra e dormir por um longo tempo.
Aquela
era a nona noite que Christopher passava em Mithra e a segunda noite
com a presença da lua, apesar de ainda fraca no céu. Era engraçada
aquela lua, muito diferente da lua que Christopher estava acostumado a
ver em seu mundo. Embora aquela fosse a primeira noite de lua crescente,
aquela era a lua crescente mais estranha que ele já vira. Ela não tinha
o formado curvo costumeiro, aquela lua tinha a forma de um semicírculo
pequeno e estava sempre no lado direito do céu com a parte abaulada para
cima. Com o passar das horas, o semicírculo aumentava de tamanho.
Apesar
daquela forma estranha, era uma lua igualmente linda. Estar ali,
naquelas planícies geladas, enquanto observava a lua era tranquilizante.
Estava frio, mas ele não se importava com isso, a fogueira o mantinha
quente enquanto ele descansava, havia comido demais.
Uma suave
brisa gelada passou bagunçando seus cabelos, ele ainda se lembrava com
clareza do que aconteceu naquela montanha três noites atrás, estava tudo
muito fresco em sua memória ainda. Ele sentia como se tivesse sido
ontem que obtivera Drust e fora perseguido por um exército de
esqueletos, ainda podia sentir a dor em seu braço mesmo não estando mais
machucado. Aquelas horas passadas no interior da montanha jamais sairão
de sua memória até porque Drust fazia parte dele agora, podia ser um
poder perigoso, mas era bem útil as vezes.
Naquele dia, quando
acordou após horas desmaiado, o braço havia se regenerado completamente
sem deixar cicatriz. O desfiladeiro onde adormecera era estreito demais
para alguém passar, suas saídas eram voltar pela rede de túneis ou pular
no rio que corria metros abaixo. Ele escolhera pular no rio ao invés de
voltar pela montanha e assim ele o fez, um arriscado salto que poderia
matá-lo. Felizmente, ele não morreu e continuava no jogo. O rio o levara
para as planícies na qual ele estava agora, deitado no chão admirando a
lua.
Na manhã seguinte, quando Christopher acordou, ele comeu as
últimas frutinhas que lhe restara e voltou a caminhar em direção ao
sul. Ele sabia que poupar comida naquela região deserta seria uma boa
ideia, graças a isso ele foi capaz de chegar tão longe, foram horas de
caminhada para a imensidão branca da neve dar lugar a uma floresta de
coníferas. Ainda havia neve no chão ou presa nas folhas das árvores, mas
o branco não era mais a única cor daquele lugar.
A floresta era
composta por incríveis árvores gigantes, com mais de cem metros de
altura e troncos largos, que estavam dispersas por toda área de
floresta. Apesar de distantes uma das outras em solo, suas copas estavam
muito próximas, de modo que a luz só poderia entrar em vários pequenos
feixes entre as copas. Dentro da floresta não era escuro, tampouco muito
claro, a luminosidade era agradável.
Pequenos roedores andavam
por todos os lados, ignorando a presença de Christopher. Alguns chegavam
a passar perto de suas pernas, ignorando qualquer ameaça que ele
pudesse ser. Talvez estivessem acostumados com presença de pessoas ou
talvez não tivessem medo, seja qual for o motivo, aquela situação era
favorável a ele, pois estava com fome e precisava caçar algo para comer.
Ele
seguiu um castor gigante, que tinha um pouco mais de meio metro de
altura e cerca de um e meio de comprimento, parecia delicioso para o
Christopher e ainda poderia aproveitar a pele. Espreitou o animal até
ele parar e começar a roer uma das árvores da floresta, o animal roía
freneticamente. Christopher arremessou uma de suas adagas em direção ao
castor na expectativa de matar o animal, ao invés disso, o animal parou
de roer e foi embora enquanto a adaga ficou presa na árvore no lugar
onde estivera o castor.
Quando Christopher tentou retirar a adaga
da árvore, por algum motivo, a adaga não saiu. Ele puxou, puxou, puxou e
nada, estava presa na árvore. Aquilo estava começando a irritá-lo, como
uma adaga ficaria presa na árvore se apenas a ponta dela entrou na
casca? Essa pergunta o intrigava e o irritava, ele puxava e nada da
adaga sair. Tentou de novo, dessa vez jogou o peso de seu corpo todo
para trás enquanto puxava e, para sua felicidade e infelicidade, a adaga
saiu enquanto ele caiu com força no chão.
Irritado, ele se
levantou e olhou a adaga, havia uma resina endurecida na ponta que
estivera na árvore. Então ele olhou o lugar onde estava a adaga,
escorria uma resina amarelada que se solidificava rapidamente e se
parecia com âmbar, esta era a razão de Christopher não conseguir reaver
sua arma de imediato.
Um ruído de roedor a sua frente o tirou de
seus pensamentos. Um castor estava de pé a sua frente e o olhava
desafiador, Chris poderia jurar que era o mesmo castor que ele tentara
matar minutos antes. Castores eram todos iguais, seria difícil
identificar um em meio de vários, mas ele sabia que era o mesmo animal
de antes, talvez fosse Drust o avisando. Ele retribuiu o olhar do
animal, e assim os dois permaneceram por poucos minutos, encarando-se.
Então o animal correu e ele foi atrás.
O castor o levou até a
beira de um riacho com peixes abundantes e leito raso. A nascente do
riacho estava em algum lugar em uma das montanhas a oeste, onde havia
uma grande cordilheira que estava presente em toda paisagem a oeste e
sul. A água do riacho era cristalina, porém extremamente gelada, e
deixava visíveis todas as pedrinhas do fundo, a abundância de peixes e
algas. No centro havia uma enorme árvore diferente das demais daquela
floresta, esta tinha o dobro da altura das outras, o tronco era mais
espesso e as enormes raízes estavam mergulhadas na água, visíveis. Acima
das raízes havia neve que formava um estreito caminho sobre o rio.
O
animal correu até a árvore e guinchou furiosamente para Christopher,
depois começou a roer uma parte do tronco da árvore freneticamente como
havia feito antes. Christopher assistiu ao animal por alguns minutos,
até o castor parar de roer e guinchar furiosamente para o rapaz
novamente.
– O que você quer? – perguntou confuso.
O pequeno roedor guinchou novamente e voltou a roer a árvore, ele tentava dizer algo.
– Quer que eu te ajude com a árvore? – Chris ainda estava confuso.
O
roedor parou de roer e balançou a cabeça positivamente antes de voltar a
roer. Christopher caminhou até a árvore e, com sua adaga, começou a
perfurar a árvore. Cinco minutos foi o tempo suficiente para a resina
sair, o castor então a bebeu e foi embora deixando Christopher sozinho.
Ele
retornou alguns minutos mais tarde junto de outro castor, este era
muito maior que o primeiro, tinha um metro de altura e três de
comprimento, era dobro do tamanho do outro. O castor maior ainda trazia
consigo um terceiro, que tinha o mesmo tamanho que o primeiro. O
terceiro não se movia, era arrastado pelo grandão. Eles caminharam até
alguns centímetros de Christopher e, quando chegaram, o menor resmungou
alguma coisa para o rapaz antes dele e do maior voltarem a se embrenhar
na floresta.
O terceiro, que era arrastado pelo maior, continuou
imóvel em frente ao Chris. O castor estava deitado na neve, acima das
raízes, em frente ao rapaz, não se movia ou mesmo parecia não respirar.
Chris se aproximou do animal, cutucou-o, mas nada acontecia, continuava
inerte, parecia morto.
– Ora, ora, o que temos aqui. – disse uma estranha mulher, tirando Christopher de seus pensamentos.
Ele
olhou na direção que vinha a voz assustado, não ouvira passos que
indicasse a aproximação de alguém. Para a surpresa dele, a mulher era
muito bela, seria a mais bela que ele já vira se tivesse visto outras
mulheres, até então ele nunca conhecera nenhuma outra pessoa. Ela não
era apenas encantadora, mas também um pouco estranha, parecia
fisicamente com uma mulher humana só que com algumas peculiaridades.
Tinha a pele muito branca e parecia pálida, os cabelos eram longos e
brancos enquanto que os olhos eram azuis-celestes. Christopher não sabia
dizer se ela era magra demais por assim ser a espécie a qual ela
pertencia ou se era devido uma anorexia, entretanto, ele poderia afirmar
com convicção que ela era magra demais.
– Quem é você? – perguntou Christopher abobalhado com a beleza da moça.
– Para você eu sou apenas a Aprendiz do Gelo. – desdenhou a jovem.
Apesar
dela não ter lhe dito seu nome, ele sabia, seu olho amaldiçoado o
dizia. Seu nome era Rhois e ela pertencia ao Inverno, embora ele não
soubesse o que esta última informação queria dizer, era a informação
dada pelo olho. A informação não parava por ai, o olho também dizia as
habilidades dela. Com seu olho direito, ele podia ver a trilha de morte
que ela trazia com seus passos, onde pisava se tornava uma terra morta e
infértil.
– Parece que hoje é meu dia de sorte, dois oponentes
em um único dia! – ela sorriu – Preciso mesmo aumentar meu nível neste
jogo.
Uma pequena nuvem de gelo começou a ser emanada de Rhois e
aos poucos tudo se transformou em gelo, as árvores, animais que passavam
e até o riacho. A pele da jovem também ganhou uma nova cor, era feita
puramente de gelo com o aspecto translúcido característico de água
congelada, o cabelo dela também parecia ser feito de água, porém em um
estado gelatinoso. Era possível ver todos os órgãos dentro dela que
também eram feitos de água, enquanto o coração dela batia, Chris também
conseguia ver todo o trajeto feito pelo sangue, ou água
líquida, dentro do corpo de Rhois. Aquela era sua verdadeira forma, uma
criatura humanoide constituída de água em vários estados.
Quando a
transformação terminou, um ar gélido correu para cima de Christopher
congelando tudo o que tocava. O chão que ele pisava congelou
instantaneamente, era estranho até mesmo para ele ver a neve congelada,
parecia que uma camada de gelo havia coberto toda a neve, congelando-a
uma segunda vez. Ele também seria congelado se não tivesse subido na
raiz da árvore segundos antes do gelo alcançá-lo. Por algum motivo,
aquela era a única árvore que permaneceu intocada pelo gelo de Rhois.
Rhois
intensificou o ar gélido, formando brumas geladas por todo o chão e
tornando o ar ainda mais gelado. Era impossível ver o chão e Chris ainda
tinha que lidar com o intenso frio, entretanto, nem com o ar mais
gelado foi possível congelar aquela árvore, para a frustração de Rhois.
– Planeja se esconder atrás da proteção da árvore até quando? – perguntou um pequeno ser a Christopher.
Chris
olhou para baixo a procura de onde vinha a voz, depois para os lados e
por último para cima, mas nada encontrou. Por um breve momento, ele se
perguntou se estava ficando louco.
– Eu estou aqui em cima, menino amaldiçoado cegueta. – desdenhou novamente o ser.
Ele
olhou para cima novamente e dessa vez realmente estava lá, sentando em
um galho de árvore alguns metros acima de Chris. Era um pequeno ser de
não mais que cinquenta centímetros de altura com a pele queimada pelo
frio, olhos azul-esbranquiçados e curtos cabelos brancos. Ele usava um
casaco branco felpudo que parecia maior do que ele. O pequeno ser
parecia cansado e mal-humorado.
– Quem é você? – perguntou Chris confuso.
–
Quem eu sou? – o ser pareceu parar para pensar na pergunta por alguns
instantes – Ninguém que você precisa se preocupar, menino amaldiçoado.
– De onde você veio? Não me lembro de ter te visto ai até você falar.
– Eu sempre estive aqui, sentando neste galho, desde o momento em que você apareceu com o castor gigante, menino amaldiçoado.
– Então como eu não te vi?
– Você não me viu porque é um menino amaldiçoado cego, oras. Estava aqui o tempo inteiro.
– Meu nome não é menino amaldiçoado, é Christopher. – retrucou ele.
–
Menino amaldiçoado, vai ficar ai parado se protegendo da menina
mortífera até quando? A árvore não está aqui para te proteger, xô, xô. –
disse ignorando o que Christopher havia dito
– Você não deveria falar sozinho e se distrair enquanto há uma oponente a sua frente. – disse Rhois.
Quando
ele voltou a se atentar em Rhois, ele viu o que até então não tinha
reparado, uma finíssima e imperceptível barreira protegia aquela árvore
do ar gélido de Rhois. O gelo batia na barreira e congelava a superfície
externa dela enquanto protegia a árvore e tudo o que estivesse sobre
ela. Talvez se não fosse pelo ar mais gelado que o normal e as brumas,
ele não teria percebido a barreira.
– Ela também sempre esteve ai, menino amaldiçoado cego. – desdenhou novamente o duende.
Christopher olhou para a barreira uma segunda vez, estava incrédulo.
– Como?
– És mesmo uma criança amaldiçoada e cega! Ou seria melhor chamá-lo de amaldiçoado e tolo?
– Por que sempre me chama de amaldiçoado? Isso já está enchendo.
–
Porque você é, oras... – ele fez uma breve pausa antes de voltar a
falar novamente, aos berros – Pare de enrolar e saia logo daqui! Essa
barreira não foi feita para proteger você de seus problemas pessoais,
saia, menino amaldiçoado!
– Por que deveria? Aqui dentro eu não serei congelado.
–
A barreira não aguentará por muito tempo, criança amaldiçoada tola. Se
esta menina mortífera congelar a árvore-coração ou matá-la com aquele
seu poder estranho, toda a floresta morrerá... – ele fez uma pausa
dramática, tentando disfarçar a irritação e ignorar a provocação de
Chris – Inclusive tudo o que nela estiver.
Esta era uma meia
verdade contada pelo duende. Era verdade que se a árvore-coração
morresse, a floresta morreria com ela também, mas isto era apenas para
as árvores da floresta. Os animais e pessoas continuariam vivos no
início, porém, sem comida para se alimentar, os animes que habitam
aquela floresta iriam morrer aos poucos, os habitantes humanoide iriam
migrar para outro lugar e todo o espaço onde estivera a floresta
voltaria a ser estéril. Tudo aconteceria em uma cascata de
acontecimentos.
– Árvore-coração? – perguntou-se.
– É! O
coração da floresta! – respondeu o duende irritado – Nós guardiões temos
o dever de proteger essas árvores, mas vocês estão perturbando a paz de
toda a floresta. Estávamos muito melhor antes de vocês terem aparecido!
– Se é trabalho seu, por que você não a protege?
–
Protegeria se pudesse, mas não tenho autorização para interferir no
jogo da deusa, são ordens dela. Nativo nenhum pode interferir neste
maldito jogo, e para que isto não aconteça, barreiras foram criadas
separando os nativos dos jogadores. Jogadores não podem ver os nativos.
– Então como eu...?
– Ainda não percebeu, criança amaldiçoada? – interrompeu o pequeno ser.
Instintivamente
Christopher levou uma de suas mãos ao seu olho direito, tapando-o. Sem
sua visão direita, o pequeno ser e a barreira em torno da árvore
desapareceram. Quando retirou a mão de seu olho e voltou a olhar, ambos
voltaram a ficar visíveis.
– Entendeu agora porque é o único que pode me ver? A garota mortífera ali pensa que você é louco por estar falando sozinho.
Ele
voltou a fitar Rhois, ela estava com uma sobrancelha arqueada, parecia
não acreditar no que estava vendo. O ar gélido desapareceu, talvez ela
estivesse cansada de produzi-lo sem ter efeito ou estivesse esperando
Christopher sair da barreira para atacá-lo, qualquer que seja a
resposta, não faria diferença.
– Em condições normais, isso quer
dizer sem a película que nos separa, apenas crianças especiais poderiam
ver um guardião da floresta. Você pode ver qualquer coisa que esteja do
outro lado da película graças à maldição, isto se inclui a mim. Drust
era uma maldição para os Qiwins originais também.
– Eu irei enlouquecer como os que viviam aqui também? – preocupou-se.
–
Eu não sei, isso só depende de você mesmo. Aprenda a controlá-lo e não
enlouquecerá. Agora comece logo a sair daqui antes que ela destrua a
barreira e a árvore.
– Ta bom, ta bom...
Christopher pisou
devagar na superfície de gelo criada por Rhois, então começou a andar
para fora da barreira. Ele dava um curto passo de cada vez para não
cair, pois o gelo estava muito escorregadio, enquanto Rhois o observava.
Foram precisos cinco minutos para ele sair da área coberta pela
barreira invisível para escorregar no passo seguinte e cair de bunda no
chão de gelo. Rhois não conteve o riso.
– Não deveria rir da desgraça alheia – disse Chris mal-humorado.
– Impossível, isso foi tão engraçado... – respondeu tentando conter o riso.
– Não vi graça alguma. – disse enquanto se levantava.
– Mas eu vi, por isso ri.
Enquanto
falava, ela andava em direção ao rapaz. Ele estava finalmente fora da
barreira, poderiam recomeçar a batalha. Entretanto, ela também não teve
sorte, escorregou no terceiro passo para a alegria de Chris. Foi a vez
dele de rir, para a irritação da jovem que esfriou o ar novamente,
tornando-o ainda mais frio do que antes.
No chão, já congelado,
formou-se uma segunda camada de gelo, ainda mais espessa e mais
resistente do que a primeira. Aquele ar gélido se movia na direção dele
rapidamente, desesperado, Chris conseguiu pensar em apenas uma coisa
para evitar ser congelado. Rapidamente, ele usou suas adagas para
quebrar uma parte do gelo formado na superfície do córrego. Com sua
habilidade de manipular a água, ele ergueu parte da água na qual criou
uma parede para protegê-lo.
Quando o ar entrou em contato com a
parede de água, solidificou-a rapidamente. Mas para a alegria de Chris, o
ar não atravessou a barreira, ele encostou nesta e foi barrado. Não foi
dessa vez que ele seria congelado, para o alívio dele.
Rhois
caminhou na direção dele, por onde passava, o gelo derretia e a água
apodrecia junto com qualquer coisa que estivesse dentro dela. Quando se
aproximou da barreira criada por Chris, esta se desfez, quebrando em
milhares de partículas até que a água voltasse ao seu estado líquido,
porém, apodrecida. Ela sorria enquanto caminhava devagar, estava
confiante e segura vendo-o recuar à medida que ela avançava em sua
direção.
Apesar de podre, aquela água continuava sendo água, e
ele a usou para afastar Rhois dele. Com toda a força que dispunha para
controlar o maior volume de água possível, ele jogou toda a água que
pode em cima dela, provocando uma enxurrada que a arremessou para a
outra margem do córrego. A água usada, então, desapareceu após
arremessá-la.
– Isso não vai me impedir – disse ela.
– Eu sei – respondeu Chris – Mas vai atrasá-la enquanto penso em algo. Estar perto de você pode ser mortal e eu prefiro evitar.
–
Não poderá para sempre, a água vai acabar em breve se continuar assim,
ou você se esgotará. O que será que acontecerá primeiro? – ela pausou
por alguns minutos aparentando pensar na resposta, depois voltou a falar
– Bom, isso não importa, qualquer uma das respostas seriam ruins para
você e boas para mim já que eu já enfrentei muitos jogadores. Minha
resistência, poder mágico e controle de minhas habilidades estão acima
do seu nível.
– Eu sei.
O que ela falou era verdade, ela
estava em um nível acima do dele, ele sabia disso, Drust o informara.
Porém, ele não pretendia desistir, ele finalmente encontrou algo para
lutar, um objetivo, uma meta a ser alcançada. Por toda a vida que ele
lembrava, a única coisa que ele fazia era sobreviver sem ter esperança
de conquistar nada, pois não havia nada em seu mundo além da cor branca
da neve e alguns animais. Aquela solidão e falta do que fazer era chata e
sempre permitia que velhos pesadelos voltassem a atormentá-lo, não
lembrar de nada até parar naquele lugar era o pior deles. Ele se
esforçava para lembrar quem era e o que aconteceu, mas de nada
adiantava, isso o angustiava e o atormentava.
Ganhando esta
competição, ele poderia se lembrar de tudo o que falta em sua memória,
saber quem era, o que aconteceu para ele ir parar naquele mundo monótono
e, principalmente, ele teria algo para fazer que não seja apenas
sobreviver. Ele teria que sobreviver naquele novo mundo para ter seu
desejo realizado, isso era claro, mas pelo menos ele teria como se
divertir um pouco com aquilo tudo também e poderia finalmente conhecer
outras pessoas e ter algum diálogo, nem que fosse um não muito bom.
Quando
a névoa de gelo apareceu pela terceira vez, ele utilizou uma mistura de
água apodrecida e água cristalina para criar uma nova barreira e se
proteger. As partículas congelantes da névoa entraram em contato com a
barreira e a congelou como acontecera anteriormente, porém o gelo se
quebrou em milhares de pedaços segundos depois de se formar, permitindo
que a névoa continuasse a avançar em direção a ele. De alguma forma, a
podridão da água a tornava frágil.
Christopher recuou enquanto o
gelo avançava até que este enfraqueceu e desapareceu, para seu alívio.
Aquele era um alívio temporário, pois Rhois se aproveitou da situação
para se aproximar dele e apodrecer tudo em um raio de dois metros dela,
inclusive ele. A magia dela deteriorava tudo o que estivesse ao alcance,
envelhecendo, apodrecendo e enfraquecendo tudo. Era uma magia perigosa
que poderia matá-lo se ele se descuidasse.
Novamente, ele usou
tudo o que tinha para criar uma nova enxurrada e levar Rhois para o mais
longe possível, infelizmente isso seria só até a outra margem do
córrego, cinco metros à frente. Contudo, o plano dele não saiu
exatamente como ele imaginou, ela criou espinhos de gelo afiados onde
ele estava. Enquanto tentava se desviar deles se jogando para o lado, um
dos espinhos o fizera um pequeno corte em seu braço.
A
princípio, Rhois ficara contente ao ver o corte, mas seu sorriso
desaparecera do rosto quando ela o viu se regenerando rapidamente.
– Parece que este será um pouco mais difícil – retrucou ela.
Ela
criou novos espinhos por toda parte, num raio de seis metros, para
garantir que ele não escaparia dessa vez, os espinhos alcançariam a
outra margem e iriam mais um metro floresta adentro. Usando um pouco de
água cristalina, ele criou dois chicotes e os manipulou com maestria
para que quebrassem os espinhos que o acertariam. Após se livrar da
ameaça iminente, ele rapidamente contra-atacou, usando os dois chicotes
ele forçou Rhois a recuar.
Após minutos de ataques e contra
ataques de ambos, Christopher conseguiu trincar um pedaço do
gelo que revestia a superfície corpórea externa de Rhois enquanto ela
causou-lhe vários arranhões e um corte profundo na perna dele. Estavam
cansados e ofegantes, o poder mágico deles também não os permitiriam
continuar com aquele impasse por mais muito tempo, sabiam que o próximo
ataque seria aquele que decidiria o vencedor que, pelas regras,
permaneceria no jogo.
O ataque decisivo foi rápido e
imprevisível, Rhois criou uma pequena nevasca num raio de cinco metros e
Chris tentou criar uma nova enxurrada, motivo pelo qual fez o
imprevisível acontecer. Ele drenou a água do córrego como fizera antes e
a levantou no ar, estava a ponto de jogar todo o volume de água que
retirou em cima de Rhois quando sentiu algo grande se mover abaixo de
seus pés. Parecia um terremoto com força o suficiente para desequilibrar
os dois e tirar toda a concentração para o uso da magia. A água que
Chris drenou rapidamente caiu sobre a cabeça dos dois e os encharcou, a
nevasca de Rhois foi parada antes que começasse a congelar tudo.
Momentaneamente, eles se olharam enquanto estavam sentados no chão, algo
parecia fora do lugar.
– Christopher, o que você fez? – gritou o duende em tom de desespero e irritação – Você não deveria ter provocado a natureza!
– Eu não fiz nada... Eu acho... – respondeu ele inseguro.
Por
ser apenas uma superfície plana, a geografia de Mithra não permitia a
existência de terremotos por causas naturais. Aquele terremoto era
bastante estranho e confuso, o que era de verdade eles não faziam a
mínima ideia, mas sabiam que não era movimentos da própria terra, um
bloco único de terra não faria isso sem que todos os outros
participantes e habitantes de Mithra sentissem também, e mesmo que
fizesse, não seria daquela maneira. Aquele terremoto parecia ser
provocado por algo se movimentando dentro da terra.
– Venha aqui agora mesmo! Você precisa me ajudar! Se ela for destruída, estaremos perdidos, eu estarei perdido. – disse ignorando a resposta de Christopher. Ele andava de um lado para o outro, estava bastante inquieto.
Christopher
e Rhois se levantaram do chão, ele caminhou até o duende como havia lhe
pedido e ela continuou parada onde estava, em pé. A floresta inteira
estava em silêncio, não havia sinal do farfalhar das árvores, dos
animais ou pássaros, também não havia sinais de que houvera um
terremoto. Foram minutos de silêncio inquietador antes de um forte
estrondo a oeste, nas montanhas.
Christopher subiu na árvore na
expectativa de conseguir ver o que estava acontecendo enquanto Rhois
caminhou alguns metros na direção oposta a da descida da água no
córrego. A princípio não viram nada, eles tentaram, mas de onde estava
tudo o que viam eram mais árvores. Estavam quase desistindo, ele
descendo da árvore e ela voltando a sua posição, quando ouviram muitos
gruídos de aves saindo de onde estavam por toda parte e árvores tombando
no chão, ele empalideceu ao ver o que vinha na direção deles.
–
Agora não é hora de ficar surpreso! Você precisa me ajudar a manter a
barreira de pé ou... Ou... – a voz do duende desapareceu com o terror em
sua mente – É melhor não pensarmos nessa hipótese!
O duende
estava tão pálido quanto Christopher, Rhois estava confusa, não entendia
o que estava acontecendo, ela só pudera ver algumas árvores. Era
impensável que aquilo pudesse acontecer, mas aconteceu, um grande volume
de água reagira à magia de Christopher. Esta água estava provavelmente
debaixo deles, no lençol freático, ela era a causa do terremoto. Ela
caminhara velozmente por quilômetros até sair na nascente em alguma
montanha a oeste e descia o córrego abaixo com fúria, derrubando e
destruindo tudo o que estava em seu caminho.
– Rhois, venha para cá, rápido! – gritou o rapaz.
– Como sabe meu nome? – perguntou ela confusa. Ela se lembrava de ter lhe dito apenas o título dela no jogo.
– Isso não importa agora! Se não vier, irá morrer afogada.
Ao
ouvir isso, ela arregalou os olhos, havia ligado todos os pontos, o
terremoto, o silêncio e aquele estranho estrondo. Ela sempre fora uma
garota inteligente e os amigos que tinha em seu mundo gostavam dela por
causa disso, no meio da miséria e da fome, eles sabiam que teriam comida
se a seguissem. Foi graças a isso que ela criara seu próprio grupo de
ladrões de comida, quem não tinha nada só sobreviveria roubando comida
daqueles que tinham muito, esta era a lei de seu país, a lei dos
miseráveis.
Não era garantido que sobreviveriam dentro da
barreira da árvore, mas aquela era a melhor opção deles. A água descia
com fúria e era um volume muito grande, o mais provável era que todos
morreriam ali, mas talvez tivessem uma chance se os três cooperassem em
manter a barreira intacta. Este era o plano de Christopher, ele teria
apreciado a ajuda de Rhois em seu plano, porém as forças da natureza
tinham outro plano para a garota.
Antes que ela pudesse chegar à
árvore, a enxurrada chegou até eles e levou consigo tudo o que estava em
seu caminho, derrubou dois metros de mata em cada margem e afogou
alguns animais que não conseguiram fugir. Rhois foi jogada em cima da
barreira da árvore, que reagiu a força da água e bloqueou qualquer coisa
de entrar ou sair. Toneladas cúbicas de água caiam sobre ela e sobre a
barreira, que vez ou outra tremeluzia.
– Por que... – a voz dela
falhava e toda vez que tentava abrir a boca para falar algo, muita água
entrava por sua boca – Eu... Não... Consigo... Passar... Daqui?
–
É a barreira, quando está sob ameaça, nada pode entrar ou sair. A
árvore precisa ser salva, é o coração da floresta. – gritou Christopher
em resposta.
O duende usou toda sua energia para manter a
barreira e Christopher usou sua mana restante para diminuir a força com
que a água batia na barreira. Rhois apenas ficou parada lá, sendo
imprensada na barreira e sem ter o que fazer, pois se ela usasse seu
poder de apodrecer as coisas, a barreira seria apodrecida também junto
com a árvore. O gelo não iria adiantar no meio de tanta água, não com
apenas o que lhe restava de seu poder mágico.
A força da água era
grande, estava difícil para todos, até para o duende que supostamente
deveria ter o poder para proteger a árvore. A pressão fazia a pele de
gelo de Rhois trincar mais e mais, havia rachaduras por todo o corpo
dela, um pouco mais era o máximo que ela poderia aguentar. Lágrimas
escorriam de seus olhos, ela não queria morrer, queria continuar o jogo,
ganhá-lo e acabar com toda a miséria e fome do seu país, mas aquele
parecia ser seu fim. Pela última vez, ela desejou no fundo de seu
coração enquanto a última lágrima escorria de seu rosto.
– Lethy,
Chi, Liath, Yassi, e Ihua... Desculpe-me, pessoal, eu não consegui. Eu
não conseguir salvar nosso país. – sussurrou ela para si mesma.
Sua
última lágrima caiu, alguns segundos pareceu ser uma eternidade a
Rhois. Tudo aconteceu em câmera lenta, ela viu Christopher gritar,
embora não tenha ouvido o que ele dissera, e, pela primeira vez, ela
pôde ver o duende com quem o rapaz parecia tanto conversar. Um pequeno
ser idoso e do frio como ela, ele a observava angustiado. A lágrima caiu
em cima da árvore que ressoara com seu desejo, por um momento ela se
sentiu em paz. As folhas da árvore emitiram uma tênue luz de cor
branco-azulada.
– O que é isso? – perguntou Chris vendo parte da luz atrás dele.
– A árvore respondeu aos desejos da garota. – respondeu o duende, surpreso.
A
luz desapareceu e, com ela, congelou toda a água, até chegar a
nascente. O gelo durou apenas por alguns segundos, quebrando-se
rapidamente e transformando a enxurrada em um rio de águas calmas. O
solo onde estava a árvore ergueu-se até a superfície do rio, formando
uma pequena ilha no centro do rio.
Quando a barreira desapareceu,
o corpo de Rhois caiu, Christopher a segurou antes que colidisse com o
chão. As rachaduras eram muitas e ela já não tinha mais consciência, foi
o tempo de segurá-la e apoiar o corpo dela no chão para todo o gelo se
quebrar e a água que formava seu corpo se espalhar pelo chão. Aquele era
o fim de Rhois no jogo.
O duende colocou uma das mãos no ombro de Christopher e tentou consolá-lo.
– Ela se foi, mas graças a ela estamos vivos. Ela te salvou e salvou toda a floresta, foi um ato nobre dela.
Ele anuiu.
–
A árvore não estaria salva sem a sua ajuda, criança, muito obrigado.
Ledus tem a sua eterna gratidão, como recompensa, você pode utilizar a
resina da árvore-coração para o que você desejar. Aquele castor morto
continua nas raízes da árvore, se você ainda quiser.
– Obrigado. – respondeu ele.
Ledus sorriu e então desapareceu deixando Christopher sozinho na floresta.
Ele
olhou a nova paisagem, estava completamente diferente da antiga, o
córrego se transformara em um rio e aumentaram em quatro metros de
largura, totalizando nove metros. Às margens do novo rio, havia várias
árvores destroçadas pela força da água, porém a água agora estava calma.
Ele
caminhou até onde o castor estava, custou a perceber, foi preciso andar
até o animal e olhar para baixo para perceber uma pequena imagem de um
envelope acima de sua pulseira. A imagem parecia pairar sob a pedra
vermelha da pulseira. Ele passou a mão pela imagem tentando pegá-la, mas
se deu conta de que era uma imagem holográfica quando sua mão passou
por ela e ela desapareceu em seguida.
A frente dele surgiu o
rosto de uma mulher, era grande, translúcido e parecia ser feito de luz
holográfica azul. Parte do rosto estava coberto por um capuz como no
primeiro dia que chegara a Mithra e vira aquele mesmo holograma, era
impossível dizer quem estava embaixo do capuz.
– Parabéns! Você acabou de adquirir o título Aprendiz do Gelo,
com mais experiência e domínio de suas habilidades você poderá avançar e
ser Júnior do Gelo. O título de Aprendiz do Gelo aumenta sua
resistência ao gelo e às temperaturas baixas em 10%, porém você se torna
mais vulnerável ao fogo. Você pode conseguir mais títulos derrotando
adversários ou em aventuras por ai. Bom jogo e até mais.
A
estranha mulher deu o recado e desapareceu da mesma forma como havia
aparecido, misteriosamente. Ele se sentou ao lado do animal e olhou
adianta, depois de tanto tempo, ele finalmente se deu conta do quanto
estava cansado, tudo o que havia acontecido naquele dia esgotara
totalmente suas energias. Ele também se lembrou de que não tinha comido
nada ainda, mas o cansaço era tanto que ele apagou sentado abaixo da
árvore.
– Ele derrotou a Aprendiz do gelo, Rhois. Criança petulante! – quem falava era uma mulher idosa com uma voz rouca.
Estavam
todos em uma caverna escura no pé de alguma montanha, eram quatro
pessoas no total de diferentes idades, personalidades e habilidades. Um
objeto esférico estava no centro, ele iluminava todo o recinto com uma
tênue luz verde, com a habilidade da mulher idosa, ela poderia mostrar o
que quisesse em seu pequeno objeto mágico. Todos assistiam a batalha de
Rhois e Christopher.
– Ele não a derrotou, Arabella. A força da água que a matou! – disse Eyon.
Eyon
era um rapaz de vinte anos, ele e sua irmã gêmea, Clath, eram ruivos e
tinham olhos violetas. Os irmãos Seward, como eles eram conhecidos no
mundo deles, eram um casal de mercenários habilidosos que vieram a
Mithra juntos.
– A pequena Rhois poderia ter vencido se não fosse pela enchente. – disse Clath.
– O que você acha, minha senhora? – perguntou Arabella.
Arabella
tinha muitos nomes, mas o que ela mais gostava era Arabella, a bruxa.
Ela era uma mulher idosa, de aproximadamente sessenta anos, baixa e
diabólica. É considerada uma bruxa negra devido a diversas atrocidades
que cometera em seu mundo, ela não se importava com as pessoas, apenas
as usava para conseguir o que deseja e depois as descartava.
– Rhois nunca foi um problema, ele poderia tê-la derrotado desde o começo. – respondeu Lory.
Lory
era a mais nova entre aquelas pessoas, era uma jovem de apenas
dezesseis anos, e também a líder deles, conquistara sua posição quando
os derrotara nos dias anteriores e fizera deles seus subordinados. Ela
era bonita e fria, os cabelos lisos e de cor castanho-escuro contrastava
com a pele branca, os olhos eram uma mistura de lindo e estranho. Íris
de cor verde e pupila em forma de uma águia de asas abertas eram o que
mais chamava atenção das pessoas.
– O que faremos então, minha senhora? Ele derrotou uma de nossas.
– Por enquanto nada, continue observando-o, Arabella.
Arabella
anuiu e novas imagens do rapaz surgiram em seu objeto mágico. Recusar
uma ordem de Lory poderia ser fatal dependendo de seu humor, todos
sabiam.







Ficou muito bom amor!
ResponderExcluirVou deixar minha sugestão. Acho que não deveria ter aquela parte que a Rhois escorrega. Isso tira o ar de superioridade que ela tem, além de parecer que vc tá tentando forçar uma risada no leitor.
Hm... Nem lembro desta parte, depois tenho que reler e ver o que escrevi exatamente.
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