Quando ele acordou, já era manhã novamente. A árvore de Flora se
retorcera toda ao redor dele, criando uma espécie de tenda com uma
sombra fresca e suculentas frutas no teto esperando para serem comidas
por ele. A tenda fora criada sob medida, ele podia ficar em pé em seu
interior e não precisava esticar muito as mãos para alcançar as frutas.
Apesar de estar bem quente do lado de fora, a areia de dentro da tenda
estava morna como tudo lá dentro, uma temperatura constante e agradável.
Ele
se levantou e pegou algumas frutas, depois se sentou novamente no
centro da tenda, de frente para a porta. As frutas tinham um aroma
levemente adocicado e um gosto extraordinário, apesar dele nunca ter
visto aquelas frutas antes, em seu mundo não há árvores, há apenas o
deserto e o desespero para viver. Foram cinco das estranhas e deliciosas
frutas verdinhas para que ele se sentisse saciado.
Após devorar a
fruta, ele abriu o mapa daquele mundo clicando na joia de sua pulseira.
Ao lado do mapa, em um pequeno canto, estava a hora de Mithra e o dia,
contado desde o começo da competição.
– Décimo dia. – leu ele – Estou dormindo há um dia e meio.
Sua
luta com Flora terminara no entardecer do oitavo dia, ele dormira por
bastante tempo. Todo aquele tempo dormindo significava que ele havia
ultrapassado seu limite, o que era muito perigoso, pois esteve
completamente vulnerável enquanto dormia, qualquer um poderia atacá-lo e
ele não teria como se defender.
– Hora de levantar acampamento. – pensou alto.
Com
uma de suas desert eagle, ele cortou várias tiras da árvore de Flora e
as trançou para criar uma pequena bolsa, onde ele colocou as cinco
frutas restantes. Quando ele deu dois passos para fora da tenda, esta
imediatamente secou. O vívido verde da planta se transformou em um
marrom morto e as flores murcharam enquanto toda a estrutura da planta
entrava em colapso, desaparecendo aos poucos e de cima para baixo até
restar apenas três sementes no chão.
Ele pegou as sementes e,
antes de guardá-las, conferiu se sua bolsa não havia secado também.
Estranhamente, a bolsa continuava intacta, o verde das tranças
continuava vívido e forte. Após conferir, ele colocou as sementes dentro
da bolsa e voltou a caminhar em direção a sudoeste.
A caminhada
fora longa e desgastante, ele caminhou por dois dias debaixo do sol
escaldante do deserto, onde não havia água ou comida direito. Caçava
pequenos répteis que encontrava pelo caminho ao dia e dormia a noite,
cactos também estavam em sua lista de caça. Ele retirava a água dos
cactos e a bebia, além de guardar o resto da planta para improvisar uma
fogueira.
A noite no deserto é muito fria enquanto o dia era muito
quente, em seu mundo era comum as pessoas adoecerem por causa dessa
variação constante, então o melhor era tentar se aquecer durante as
noites. Ele retirou tudo o que tinha dentro da bolsa feita por tiras da
árvore de Flora, era a única coisa que lhe restara, e colocou fogo para
aquecê-lo.
As três sementes que Flora lhe dera ele guardou em um
pequeno estojo em sua cintura, enquanto que a estranha iguana de seis
patas foi frita na fogueira. Sua última comida e a última coisa mais
próximo de madeira que ele tinha, ambos foram usados, estava sem
suplementos e isso o incomodava. Tudo o que tinha agora era suas duas
armas e três sementes de uma planta que ele não sabia nem para o que
poderia usá-las, além do anel.
Pensar em tudo isso era
desanimador, então ele se concentrou apenas em comer e depois deitar na
areia gelada, fechou os olhos e só pensou em dormir. Estava quase
conseguindo quando percebeu um movimentar estranho debaixo dele e
acordou, levantou em um pulo brusco que o deixou por alguns segundos
desnorteado e sem equilíbrio. Quando se recobrou da tontura, ele olhou
novamente para o chão e se deparou, atônito, com a situação mais
estranha que já vivera.
Toda a área em um raio de dois quilômetros
estava cedendo, a areia escorria para baixo, em algum lugar, enquanto
um grande monumento se levantava de um mar de areia. Era um monumento
grande e feito de grandes blocos de alguma pedra de cor branca, havia
pilares esculpidos em cristais de cor anil por toda a área externa e um
chão de mármore. Nas duas torres, que foram construídas uma de cada
lado, havia outra enorme estátua esculpida em pedra de cor anil, era uma
para cada torre.
Enquanto a areia escorria e revelava o
monumento, era difícil se manter em pé por muito tempo, a queda
constante parecia inevitável. Ele tentou usar o anel para levitar e
fugir daquele solo instável, mas isso se mostrou impossível devido à
fraqueza gerada pela má alimentação. O jeito foi se segurar em um dos
pilares enquanto a areia escorria e esperar, o que não demorou muito.
Todo aquele volume de areia escorreu como água escorrendo pelo ralo até
sobrar apenas a construção erguida no meio do deserto, ele pôde, então,
finalmente soltar o pilar e andar.
Ele andava enquanto observava
melhor aquele lugar, parecia um templo dedicado a algum tipo de
divindade de várias formas, pois todos aqueles pilares do lado de fora
tinha a forma de uma única mulher. Eram esculturas bonitas, apesar de
tudo, o estranho cristal de cor anil resplandecia em tons azuis na
presença de luz, os detalhes do rosto e de todo o corpo das esculturas
eram também perfeitos e tinham como base uma mulher humana.
Pink
observou que todas as esculturas tinham seus rostos virados para o lado
de fora, mas cada uma se expressava de uma maneira única, além de ter
também uma forma única. Havia uma de olhos fixos no horizonte e
segurando um livro em seus braços; outra parecia destemida, empunhava um
sabre, usava uma armadura pesada e parecia expressar um grito de
guerra; havia uma terceira que representava uma simples mulher humana,
sem nada de especial a não ser o aquele olhar caloroso em direção a
qualquer um que vinha visitar o templo. Uma mãe, uma guerreira, sábia,
líder, amiga, guardiã... A mesma divindade representada sob diversos
aspectos, era o que cada pilar daqueles representava. Mas o que mais lhe
chamou atenção não era um pilar que sustentava o segundo andar do
templo, era a escultura que estava no interior do primeiro salão daquele
lugar, de frente para a porta.
O salão estava bem iluminado,
havia tochas por todas as paredes. Encostada na parede paralela a porta
estava a escultura que chamara sua atenção, ela era menor do que os
pilares do lado de fora e estava cercada de outras esculturas.
Localizada no centro daquela parede, a mulher, que mais parecia uma
menina, tinha três pares de asas e uma cauda. As asas estavam
semiabertas, os braços estavam esticados ao lado de seu pequeno corpo
com os punhos cerrados e o olhar... Aquele olhar...
Ele
não entendia direito, mas o olhar daquela estátua o incomodava,
deixava-o atordoado. A menina da estátua fitava o chão com os olhos
cheios d’água e lágrimas escorrendo por suas bochechas enquanto as
outras estátuas do salão lhes davam as costas e iam embora. A arte
daquela escultura era tão perfeita que conseguia transmitir as emoções
da menina através de seus olhos, eles expressavam a tamanha tristeza e
solidão que ela sentira que o fizeram lembrar o dia em que todos viraram
as costas para ele também, o dia que ele preferiu apagar de sua memória
por todo esse tempo.
Em um acesso de raiva, ele socou uma das
estátuas, também de cristal, que estava de costas para a menina. A
estátua se quebrou em milhares de pedaços onde ele socou e o cortou como
uma lâmina afiada. A mão dele rapidamente se encharcou de sangue, mas
ele não sentia nenhuma dor, o furor daquele momento era grande demais
para lhe permitir sentir dor.
Somente após aquele soco é que ele
reparou nos detalhes daquelas estátuas, elas tinham uma forma que
lembravam vagamente um humano, mas com algumas peculiaridades. Eles
possuíam uma espécie de escama em várias áreas do corpo, como nas pernas
que cobriam tudo até poucos centímetros acima dos joelhos; todo o
antebraço e em um pequeno pedaço do braço, cerca de até dois centímetros
acima dos cotovelos; a testa e o nariz; e o que seria as partes íntimas
em humanos, assemelhando a vestes íntimas como cuecas para os homens e
calcinhas e sutiãs para as mulheres.
Eles ainda possuíam garras
afiadas nos cinco dedos dos pés e das mãos e uma cauda reptiliana com as
mesmas escamas que o resto do corpo e uma estrutura bem peculiar na
ponta. Era uma estrutura geométrica que se assemelhava a um losango, não
possuía escamas, mas era afiadíssimo, mesmo esculpido naquele cristal.
Eram todos magros, com barrigas saradas. Os machos possuíam músculos
definidos e braços trabalhados, enquanto todas as fêmeas possuíam
cinturas finas, quadris largos e seios salientes a fartos. Todas as
esculturas pareciam uma mistura de versões perfeitas de humanos e répteis.
– Que pessoas estranhas... – pensou alto.
Ele
passou por entre as esculturas para observá-las mais de perto, algumas
tinham olhos mais intensos, outras pareciam mais altas e todas tinham um
rosto único, ou seja, pessoas diferentes. Ele ainda passou o indicador
pela estrutura na extremidade da cauda deles, o cristal havia sido
perfeitamente lapidado e polido de modo que as arestas do losango, a
estrutura maciça na cauda, eram cortantes.
– Interessante... –
disse enquanto limpava o sangue em seu dedo na roupa – Preciso me
lembrar de tomar cuidado com essa coisa se um dia encontrar essas
criaturas.
Um barulho vindo de algum lugar mais a fundo daquele
lugar cortara os devaneios dele, o barulho era alto e ecoava por todos
os cantos, parecia o ronronar de alguma criatura. Apesar de seus
instintos lhe dizerem para ir embora daquele lugar, alguma coisa o
atraía e o instigava a continuar entrando cada vez mais fundo no
santuário, seja por causa de sua curiosidade ou por causa da estranha
sensação que sentia e que fazia todos os pelos de seu corpo se eriçar.
Ele
prosseguiu pela única porta que havia naquele salão, na mesma parede da
estátua da menina, porém no canto direito desta. O salão seguinte era
maior e mais bem iluminado, além das tochas nas paredes, havia um grande
candelabro com inúmeras velas exatamente no meio do cômodo. Por um
momento, ele se perguntou como aquelas velas não derreteram ou se havia
alguém lá dentro além dele que teria as ascendido, pois não pareciam que
elas estavam acesas por muito tempo, a cera continuava intacta.
Entretanto,
ele não deu muita importância às velas, havia algo naquelas paredes que
chamou mais sua atenção. Todas tinham estranhas gravuras vermelhas que
cobriam uma faixa central de trinta centímetros das paredes, embaixo e
acima havia uma mistura de estranhas e antigas inscrições com outras
mais recentes que pareciam avisos, tudo em vermelho. Pequenas runas
talhadas na pedra branca das paredes separavam a faixa de gravuras das
inscrições.
Ele se aproximou de uma das paredes e a tocou, a pedra
branca estava fria como a noite em um deserto, porém a faixa com as
imagens e a área delimitada pelas runas estavam quentes, podia sentir o
calor da parede aquecendo todo seu corpo. As runas eram indecifráveis
para ele, apesar de conhecer algumas delas, mas as imagens pareciam
contar a história de uma mulher que fora abandonada por seus seguidores.
Depois
de analisar as imagens, ele se afastou da parede para analisar as
inscrições. Em geral, todas diziam a mesma coisa, a diferença estava na
antiguidade de cada uma, algumas eram mais novas e com cores mais fortes
enquanto outras eram mais velhas e desbotadas. Elas avisavam sobre a
existência de algum tipo de perigo no último andar e aconselhavam e
ninguém ir até lá, porém qualquer viajante poderia usufruir dos
dormitórios para descansar, refeitório para matar a fome e de um
relaxante banho em um lago de água quente no segundo piso do subsolo.
Olhando
com mais atenção todo o salão, ele reparou que havia um arco a sua
direita que o levava a um corredor estreito e pouco iluminado. O arco
era feito com acabamentos de cristais de cor anil, iguais aos que ele
encontrara no salão anterior e do lado de fora daquele lugar, e deveria
ter cerca de trinta centímetros de largura, a mesma largura do corredor.
A luz das velas que incidiam sobre o cristal fazia-o tremeluzir,
iluminando alguns centímetros a sua volta com uma tênue luz azul.
Ele
prosseguiu pelo corredor escuro, era possível ver apenas dois archotes
presos na parede a sua direita, de frente para outros dois arcos, estes
eram mais largos que o primeiro e possuem o mesmo design. Os arcos
levavam a um salão grande, porém não tão grande quanto o com as runas e
pinturas, e totalmente escuro. Ele prosseguiu até o fim do corredor onde
encontrou uma estreita escada feita de pedra que o levava para o andar
debaixo, o primeiro andar do subterrâneo.
O corredor do primeiro
andar do subterrâneo era um pouco mais largo do que o de cima e mais
iluminado, havia oito archotes no total, que estavam distribuídos
igualmente para ambos os lados. Enquanto andava pelo corredor, ele
reparou que naquele andar havia somente dormitórios, eram dez ao todo,
todos tinham o mesmo tamanho, as mesmas mobílias e suas portas estavam
exatamente no centro do quarto, de modo que cada porta ficava de frente
para a do quarto à frente. Ele entrou no terceiro quarto a sua direita.
A
esquerda havia uma escrivaninha encostada na parede do outro lado do
quarto, uma estante ao lado da escrivaninha, e um archote ao lado da
porta; a direita havia uma cama de solteiro, um pequeno baú para por
pertences encostado na cama, outro archote ao lado da porta, e um mapa
pregado na parede ao lado do baú. Entre a escrivaninha e a cama havia um
terceiro archote, de frente para a porta.
O mapa o que lhe chamou
mais atenção, mas antes de pegá-lo, ele colocou suas duas armas e o
estojo que carregava na cintura em cima da escrivaninha, e então retirou
o pequeno mapa desenhado em um antigo pergaminho da parede e o analisou
sentado na cama. Apesar da pouca iluminação, ele percebeu que aquele
mapa referia-se somente ao andar que estava, o dos dormitórios, e que
havia uma escada para o andar inferior no final do corredor.
Mapas
seriam úteis para se locomover, mas aquele não lhe era de grande
utilidade, ele apenas lhe informava o que ele já tinha visto, um
corredor pequeno com cinco minúsculos quartos de cada lado, nada mais.
Um mapa dos outros andares talvez fosse mais útil. Ele limitou-se a
colocá-lo de lado e deitar na confortável cama, enquanto fitava o teto.
Ele
acordou assustado, em um pulo, quando um pouco de terra caíra em sua
cara, mas não fazia ideia de quando havia pegado no sono ou por quanto
tempo estivera dormindo. Ele sentou na cama, com os pés encostados no
chão, ainda sonolento e um pouco desnorteado, podia ouvir o tilintar de
algum metal pesado arrastando no chão de pedra do andar superior, terra
desprendia do teto enquanto este vibrava com os passos de alguma coisa
pesada.
Cambaleou até a escrivaninha, pegou o estojo e o prendeu
em sua cintura novamente. O tilintar o perturbava e parecia deixá-lo
tonto, ele perdeu o equilíbrio e quase caiu no chão quando deu o
primeiro passo em direção à porta do quarto, por sorte a cama estava
perto e ele pôde se apoiar nela.
A quase queda o fez reparar no
mapa pela primeira vez após acordado, ele estava diferente e não mais
mostrava o andar dos dormitórios. Quando Pink o pegou e o analisou com
calma enquanto estava sentado na cama esperando a tontura passar, ele
percebeu que o mapa agora lhe mostrava o superior, o térreo. Porém,
ainda lhe parecia haver algo estranho, pois estavam traçados mais
cômodos do que ele se lembrara de ter visto, havia uma porta para uma
saleta no meio dos dois archotes da parede de frente para os dois arcos
do refeitório.
– Interessante – pensou alto.
Quando já
estava se sentido melhor, ele se levantou e caminhou até o andar de
cima. Apesar de continuar indicando uma saleta no mapa, ele não via
porta alguma, via apenas uma parede de pedra e os archotes. Entretanto,
do outro lado, no refeitório, as luzes estavam acesas.
Ao passar
por um dos arcos, ele encontrou cinco longas mesas postas com fartura,
havia uma quantidade enorme de variedade de comidas, algumas ele nunca
tinha visto na vida. Uma tentação de sentar e comer subia por todo seu
corpo, ele não estava com fome, mas podia ver-se em sua mente se
sentando em alguma cadeira de pedra e comendo toda aquela comida
repetidamente. Sentia seu corpo responder àquelas imagens e andar em
direção à mesa, mesmo contra sua vontade.
Talvez tivesse feito
como via em sua cabeça se o tilintar não tivesse ressurgido e o acordado
de seu transe. Havia algo de estranho naquele estranho barulho, ele
sabia disso, pois sempre que o escutava ficava tonto e perdia o
equilíbrio. Desta vez ele se apoiou na mesa, derrubando alguns dos
objetos que ali estavam, ele levou a mão direita à cabeça e a apertou.
A
dor era lancinante e imobilizava-o, por alguns minutos ele só conseguiu
ficar ali, parado, apertando a cabeça e se segurando na mesa enquanto
seu rosto se transfigurava. Ele viu um jovem cavaleiro com uma armadura
bem polida cruzar o arco e entrar no refeitório, o rapaz andava em sua
direção como se não o estivesse vendo. Por um momento, Pink pensou que
ele iria colidir consigo e teria o xingado se a dor tivesse lhe
permitido, entretanto, para sua surpresa, o homem apenas o atravessou e
sentou a mesa.
Outros vieram depois do cavaleiro, alguns eram
altos e esguios, outros eram baixos e gordos, não havia exatamente um
padrão para a aparência dos viajantes. Assim como o primeiro, todos
sentaram a mesa e começaram a comer o banquete, eles falavam uns com os
outros com a boca e as mãos cheias de comida. Todos o ignoravam e
atravessam-no quando queriam passar por ele, também ocupavam todas as
cadeiras ao redor das mesas, exceto a de frente para o local onde se
apoiava na mesa. Ele levou algum tempo até conseguir entender que
aquelas pessoas eram fantasmas, provavelmente espíritos que ficaram
presos ali.
Ele se levantou quando o ruído de metal sumiu e pôde
finalmente olhar com mais atenção para aquele recinto. Diferente do que
viu nos corredores, os archotes do refeitório não estavam pregados em
paredes, mas sim em estátuas de cristal. Havia seis estátuas, da mesma
menina que vira antes, segurando um archote, elas estavam distribuídas
igualmente em duas paredes paralelas. No centro, havia um candelabro um
pouco menor do que o do salão de história e no fundo havia um grande
balcão, atrás dele ficava a cozinha.
Enquanto andava entre as mesas, Pink ouviu uma conversa que lhe chamou a atenção.
–
Você vai tentar de novo? – perguntou um dos fantasmas, este parecia
estar ali apenas para aproveitar o banquete, pois tinha uma aparência
desleixada com os cabelos loiros desgrenhados e a barba mal feita, além
de estar acima do peso.
– Vou – respondeu o primeiro cavaleiro que passou por ele.
O
que estava sentado ao lado dele gargalhou ao ouvir a resposta do rapaz.
Ele era ruivo e parecia ser bem extrovertido e brincalhão, estava
sempre rindo.
– Não sei por que você continua insistindo nisso. É perda de tempo, garoto.
– Deveria ouvir as sábias palavras do nosso piadista, Ronan.
Ronan ignorou os comentários dos dois e continuou comendo.
– Já foram quantas tentativas? – perguntou o piadista.
– Quatrocentas... Mil.
O piadista gargalhou ainda mais alto do que na primeira vez.
–
Isso quer dizer que você já está aqui há mais de cem anos. Depois de
tanto tempo deveria parar de tentar, você não conseguirá vencê-lo assim
como nenhum de nós conseguiu.
– Eu não vou passar o resto dos meus
dias trancado neste lugar – berrou o garoto, batendo com as mãos na
mesa. Por alguns instantes, todas as pessoas ali presentes pararam de
conversar e comer para olhá-lo. Ronan era, talvez, o mais novo entre
todos os fantasmas e o único que parecia ainda ter esperanças de sair.
Ao perceber que todos haviam parado suas ações para olhá-lo, ele apenas se retirou em silêncio.
–
Você está morto, Ronan, morreu como todos nós. Não há mais nada que
possa fazer – bradou o piadista, após se levantar, para o rapaz. Ele
segurava uma coxa de galinha na mão enquanto a mexia no ar ao
gesticular.
Ronan não disse nada em resposta, limitou-se apenas a
sair do refeitório com os punhos e os dentes cerrados, uma ira crescia
dentro dele. Pink o seguiu até o corredor, onde ele parou por uns
instantes, estava apoiado com as costas na parede tentando se acalmar.
Lágrimas escorriam pela face lisa do rapaz, que não deveria ter mais do
que quinze anos.
– Tão jovem... E já está morto... – pensou alto.
Ele
respirou fundo, enxugou-as e prosseguiu com o que iria fazer. Ao soprar
o fogo de um dos archotes, uma porta se abriu para a mesma saleta que
Pink vira em seu pai e, então Ronan atravessou a porta. Pink seguiu o
rapaz e entrou naquele minúsculo cômodo antes de ver a porta se fechar.
Como
mostrava no mapa, o lugar era pequeno e apertado, havia algumas coisas
pregadas na parede, um archote e uma escada para o andar debaixo ao
final do corredor. O chão era de terra enquanto que as paredes
continuavam de pedra, talvez aquele seja um cômodo inacabado ou, talvez,
houvesse falta de interesse em recobrir a terra com alguma coisa, seja
qual for o motivo, não havia necessidade de pensar na possibilidade.
Em
um acesso de raiva, Ronan socou a parede com força enquanto mais
lágrimas escorriam pelo rosto e revelavam, pela primeira vez, o quanto
ele era apenas uma criança. Aquela cena fazia Pink lembrar-se de si
quando era jovem, nunca tivera amigos tampouco uma família, desde que
pudesse lembrar ele estava sempre sozinho.
O momento de melancolia
dos dois foi interrompido pelo mesmo tilintar de antes, porém desta vez
estava mais agudo e irritante. O efeito sobre Pink foi mais rápido e
doloroso do que os anteriores, sua visão ficou turva, a cabeça começou a
doer e rodar, acarretando em desequilíbrio e, consequentemente, em sua
queda no chão. A pouca luminosidade também não colaborava, ele não
conseguia enxergar detalhes, apenas vultos.
– O terceiro soar,
está na hora – disse Ronan, sério, então enxugou as lágrimas e caminhou
decidido até o final da estreita sala, onde estava uma escada para o
andar debaixo.
Pink tentou se levantar do chão, contudo suas
pernas e braços fraquejaram e o máximo que ele conseguiu foi esticar os
braços sem que estes saíssem do chão, algumas gotas de sangue escorreram
de seu nariz e pingaram na terra. Ele as enxugou com o braço, respirou
fundo e levantou, dessa vez com sucesso, mas ainda estava fraco e não
conseguia enxergar direito, necessitando se apoiar na parede.
Cambaleando,
ele seguiu Ronan para o piso inferior, que era ainda mais escuro e
estreito, e deveria ficar abaixo do lago do segundo andar do subsolo,
pois era muito úmido e gotas de água caiam do teto. A dor de cabeça
desapareceu junto com o tilintar, mas sua visão continuou prejudicada de
modo que ele foi forçado a prosseguir com uma mão apoiada na parede
enquanto corria atrás do garoto pela galeria de túneis, que mais parecia
um labirinto para ele.
Durante a corrida, Pink tropeçou algumas
vezes em ossos espalhados pelo chão e em algumas teias de aranhas bem
grossas que havia pelo caminho. Diferente dele, Ronan parecia saber onde
estava cada obstáculo, pois o rapaz corria como se não houvesse nada
pelo caminho, não caía como ele caiu algumas vezes, tampouco ficava
preso em teias gigantes como ele. Além disso, ele também parecia saber
exatamente para onde estava indo, virava em túneis após túneis sem
hesitar ou mesmo ponderar qual era o melhor para seguir.
Não
demoraram muito para chegar a uma sala grande e vazia, as paredes eram
irregulares e o chão era de terra. A aquela altura, sua visão já havia
melhorado de modo que viu, no fundo da sala, um cristal de coloração
azul encrostado na parede, ele resplandecia e iluminava todo o lugar,
sem a necessidade de usar tochas como auxílio; e de frente para o
cristal, estava uma enorme besta guardando-o.
Quando a presença
dos dois foi percebida, a besta, cuja aparência era de um réptil
gigante, virou-se para eles e rugiu, revelando suas enormes presas. A
caverna sacudiu, blocos de terra se desprenderam do teto e caiu em cima
deles enquanto se formava uma nuvem de poeira por todo o lugar,
obrigando Pink a tampar os ouvidos com as mãos e fechar os olhos.
Diferente dele, Renan apenas ficou parado encarando a criatura, todo
aquele pó não o incomodava, afinal ele era apenas um fantasma.
À
medida que a visibilidade aumentou, o demônio pôde ver melhor a criatura
a sua frente e descobriu que ela não tinha uma pele negra como pensara a
princípio, eram minúsculas escamas aderidas ao couro, além de segurar
uma clava de metal maior que o próprio corpo.
Com uma espada em
mãos, Ronan atacou o monstro que nada fez para se defender, o aço de sua
lâmina atingiu a escama do bicho, mas conseguiu nem arranhá-lo. Ele
continuou tentando e tentando enquanto seu oponente mal se movia para se
proteger ou mesmo atacar.
Somente após o ataque que fez uma das
escamas trincar que a besta reagiu às investidas do garoto, ela rugiu
pela segunda vez, ainda mais alto do que a primeira, e atacou o garoto
com sua maça, acertando-o no abdômen. Ronan voou alguns metros e bateu
de costas na parede rochosa da caverna, teria sido fatal se já não
estivesse morto, como fantasma nada de sério lhe aconteceu. Ele se
levantou um pouco desnorteado com a batida de cabeça e sem sinais de
qualquer ferimento.
O segundo movimento da besta não surtira
efeito nenhum em Ronan, diferentemente de em Pink. O barulho do atrito
da arma com o chão provocara um barulho infernal para ele,
assemelhando-se muito ao tilintar que ouvira algumas vezes horas antes. O
efeito foi ainda pior, parecia que piorava quanto mais ouvia aquele
ruído, a cabeça rodou completamente fazendo-o se desequilibrar e cair de
joelhos no chão.
Além da forte dor de cabeça que tinha, a visão
enevoada e o sangramento pelo nariz, seu coração batia de forma
descontrolada em seu peito, a cabeça parecia pulsar sem controle junto
com o coração. As batidas eram tão fortes e altas que ele não conseguia
escutar mais nada do que acontecia ao seu redor, seus olhos conseguiam
ver alguns borrões, mas não eram capazes de processar informações.
Por
longos minutos ele ficou ali, parado, com os joelhos e a cabeça no chão
enquanto agonizava. Sangue escorria cada vez mais pelo seu nariz e
pingava no chão, a dor no peito e na cabeça aumentava junto com as
pulsações ainda mais forte até que tudo parou, repentinamente.
Ele
estava, agora, de pé na entrada da caverna, não mais sentia coisa
alguma. O coração batia normalmente em seu peito, a cabeça não doía ou
pulsava mais e o nariz não escorria sangue. Isso tudo seria ótimo se a
cena que ele via não parecesse um pesadelo, ele piscava os olhos
tentando assimilar, mas o que via continuava assustador. A alguns
centímetros a sua frente, estava o seu corpo inerte, jogado ao chão como
ele estivera quando agonizou. Teria ele virado um fantasma também?







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