O sopro do mundo gelava os ossos de Roman. Nuvens frágeis e melancólicas pairavam sobre ele como sentinelas misteriosas.
Dezenas de ilhéus desafiavam o Oceano como a silhueta da cauda um dragão adormecido.
Os
longos cabelos brancos do homem chicoteavam o ar, rebeldes e incautos,
ameaçando desprender-se e revoar pelos céus, frágeis como pareciam ser.
Ele
caía. Deuses!, como caía! O solo se aproximava vagarosamente, porém, a
incríveis quinhentos quilômetros por hora – um monstro pronto para
engolir o homem. Suas roupas resumiam-se a uma bermuda e uma camisa
simples sob um macacão negro que contrastava surrealmente com seus alvos
fios sedosos e insurgentes. Uma mochila alvejada guardava o paraquedas. Seus olhos, brandos e cinzentos como o céu numa tempestade
de outono davam vida a uma expressão extasiada e imersa em uma realidade
isolada daquela na qual seu corpo se encontrava – é incrível como o
universo pode ser complexo: é possível estar presente nessa realidade
compartilhada por céticos, denominados pessoas normais e, ao
mesmo tempo, presentear sentimentos extraordinários num universo
exclusivo dos "loucos"; mente e corpo, um conjunto harmônico, porém,
conflituoso, cingidos por diferentes dimensões.
Enquanto isso o
monstro sólido, encaroçado por montanhas e colinas, se aproximava,
clamando pelo esguio corpo de Roman – o que não transparecia ali, com o
macacão inflado pelos fortes açoites das correntes de ar,
transformando-o num escravo do céu.
Os animais e as árvores nada
sabiam sobre o que se passava sobre eles, cortando o céu como um míssil.
Roman Daniels rodopiava, acelerava, plainava, se soltava e retomava o
controle com habilidade inumana. Com uma troca de posições dos pés, a
prancha, presa firmemente em seu tênis, girou bruscamente, numa manobra
firme e fluída. Então ele pousou seus dedos sobre a ponta da prancha,
segurou-a com firmeza e impulsionou o corpo para frente, lançando-se em
dezenas de loops céleres e suntuosos, tão hipnotizantes quanto um
relógio de bolso movendo-se de um lado para o outro. Sim... Sua mente
ingressava num estado de torpor deslumbrante, magnetizado pelos giros de
seu corpo - mais uma vez: mente e corpo conflitando.
Ali era o
seu lugar; no céu, voando, dançando, se libertando! O normal seria ter
alguém com ele, filmando todas as manobras, mas naquele dia não; ele
queria ficar sozinho, descer pelo céu rumo ao sempre inesperado orgasmo
psicológico. Ele queria espairecer.
Horas antes Roman havia
discutido com seu pai – com quem divide uma casa de tamanho razoável no
Alasca. Uma briga pesada que envolveu a morte de sua mãe: Roman culpou
seu progenitor – Rayman Daniels – pela morte de Lena Daniels. Foi um
acidente de carro, em que a pick-up dos Daniels colidiram com um poste;
Rayman estava bêbado, e, sim, a culpa era dele, em parte, mas não é algo
que se deva salientar numa briga, onde todos estão com a cabeça quente.
Aconteceu que Rayman investiu contra seu filho e Roman precisou se
defender, se esquivando e lançando seu pai, bêbado também nesse momento,
contra a parede da cozinha. O rapaz de cabelos alvos acelerou seus
passos, o som das botas contra o assoalho de madeira a ecoar pela casa
enquanto seus olhos cinzentos só enxergavam a porta, e, além, o céu,
presumindo o tom invernal que o Alasca mantinha durante a maior parte do
ano.
Roman respirou o ar gelado e caminhou sobre a neve até a
picape; já concertada. Dirigiu até o ponto de encontro, entrou no avião e
assim sua equipe decolou até o local do salto.
Com certeza não é
algo recomendável: saltar com a cabeça quente. Mas Roman era um cara
áspero, de poucas palavras e muitas ações. Quando põe uma ideia em sua
cabeça, ninguém a tira; é como o sequestro de uma donzela. Tem o pavio
um tanto curto e uma tendência a beber demais. É fã de um bom e pesado
rock ‘n’ roll. Antes de seus saltos sempre se isola por pelo menos dez
minutos, com os fones nos ouvidos, batendo cabeça e sacudindo seus
tênues cabelos alvejados.
O monstro de terra e rocha ainda
ameaçava a integridade física e mental de Roman, arrancando-o com
brutalidade de seus devaneios, se aproximando cada vez mais, a cauda do
dragão parecia oscilar, preparando um golpe devastador. O inglês
naturalizado americano girou no ar quase uma centena de vezes, em pé na
prancha, de cabeça pra cima e para baixo, alternando, com movimentos
surreais e tão rápidos que os olhos humanos mal podiam captá-los; uma
furadora humana!
Então tudo aconteceu tão rápido quanto uma
manobra daquele esporte completamente insano! As nuvens se juntaram numa
velocidade extrema!, escureceram totalmente, e pareciam tão densas
quanto rochedos prestes a esmagar o mundo; suas expressões exalavam uma
sede de vingança indomável. Tanta cólera que elas estavam prestes a cair
em prantos torrenciais.
Súbito, um açoite elétrico dividiu o céu
em dezenas de partes escuras em pleno auge do dia. A noite tomou conta
como um imenso tumor no planeta. Um câncer lúgubre e voraz avançava,
despedaçando qualquer forma de luz do sol.
Um raio deslizou
graciosamente pelo ar, dividindo-se em diversos pontos da descida, para
no fim transformar o avião da equipe de Roman em uma bola de fogo
colossal. Os destroços se espalharam pelo ar como mil meteoritos
flamejantes. Uma chapa de aço cortou o vento na direção de Roman e ele
precisou girar o corpo, carregando a prancha com os pés, para desviar.
Pouco adiantou, pois um objeto que ele não pôde discernir atingiu-o com
força na face direita, explodindo em mil gotículas de sangue.
Roman
girou descontroladamente pelo céu. Sua visão era uma confusão de
flashes raivosos e constantes de fogo, raios, sangue e nuvens negras
como a morte. As lágrimas do mundo reduziam drasticamente a sua visão,
embaçando a lente dos seus óculos de proteção. Seus braços, pernas e
cabelos dançavam como num concerto de rock metal.
De supetão, uma
rajada de vento fez com que Roman plainasse, por um segundo apenas, para
que ele visse um poderoso raio rasgar o céu e atingir-lhe o peito. O
rosto de uma mulher bela, de curtos cabelos ruivos e ondulados como um
mar de sangue, e olhos tão castanhos quanto a hera que ascende pelos
muros de uma casa remota, explodiu em sua mente.
Mas ele ainda vivia. Como? Por quê?
Talvez
porque seja uma pergunta um tanto melancólica e autoflagelante, mas
quando empregada, pode ser tão destrutiva e depressiva - se houver o
milagre da salvação - que muitas vezes as pessoas imploram pela morte
dias depois.
Não houve tempo para depressão, porém, pois Roman
estava sendo insurgido com imagens completamente estranhas desconectadas
de seu cotidiano: uma águia desviava dos raios pulsantes, o mar se
revoltava, pronto para engoli-la, um elmo de bronze relampejou entre
trovoadas ensurdecedoras e, por mais surreal que fosse, uma hera verde e
vivaz escalava o céu, tomando conta dos flashes, do elmo, da escuridão,
das nuvens, do mar e, por fim, de Roman, de uma maneira suave, gentil e
aconchegante.
Então a escuridão invadiu sua mente como um câncer
raivoso e fervente, dissolvendo qualquer traço de consciência que
ousasse habitar em seu cérebro.
******************************
Sua
visão estava turva, oscilante, como de praxe para um bêbado. A taça de
Martini pousou na mesa com brutalidade, estilhaçando-se, estampando
expressões de espanto e raiva nos rostos das pessoas em volta.
–
Essa merda é coisa de viadinho! – Cuspiu Roman. Olheiras marcavam sua
face, quais os fios alvos que despencavam insistentemente sobre seus
olhos tempestuosos. – Hey! Rapaz! – Chamou, com a voz embargada. –
Sirva-me uma cerveja! – Antes que o garçom enchesse a caneca, Roman
derramou tudo em sua garganta, fazendo que com que a cerveja molhasse o
balcão. – Mais! – Exigiu. E o garçom o fez. Roman repetiu a dose.
– Senhor... – Começou o barman, incerto.
– Diga, jovem. – Roman fez correr os dedos pelos seus longos fios alvejados.
– Acho que...
– Fale enquanto enche minha caneca.
– O senhor não acha que...
– Roman, por gentileza – interrompeu, enquanto esvaziava outra caneca e a estendia, ansiando por mais.
–
O rapaz quer dizer para você pegar leve – disse um homem robusto ao seu
lado. Ele alcançava dois metros de altura facilmente. Cabeça raspada e
cavanhaque pontudo.
Esses motoqueiros de merda! Metidos à fodões!, pensou, enquanto se erguia para encarar o brutamonte. Cerca de dez centímetros separavam Roman da altura máxima do gigante.
– Pega leve – Roman repetiu, abrindo um esguio sorriso. – Quem vai me fazer pegar leve?
–
Não me teste, rapaz. – A voz do homem era grave, embargada
naturalmente. – Você já bebeu demais, e isso pode dar problemas. Não
queremos problemas. Já conheci muitos rapazes como você, e todos bebem o
suficiente para entrar no carro e fazer uma merda bem grande.
–
Rapaz? – Daniels abriu mais o sorriso. Ele tinha trinta e dois anos, ao
passo que o careca não devia ter mais do que vinte e cinco. Em
contrapartida, Roman, apesar de bastante musculoso, perdia qualquer
chance de vantagem com a bebida.
– Sim, rapaz. Acho que você já
bebeu demais. É melhor você dar uma pausa. – O olhar do homem era
áspero, sem aceitar respostas negativas.
– Acho que não. – Dito
isso, esvaziou a caneca de cerveja que o garçom rapaz encheu, limpou a
boca e pediu mais. Foi atendido com certa relutância. – Que foi? –
Questionou o barman. – To pagando por isso! Encha minha caneca com a
porra de um sorriso no rosto! – Bradou, apontando o indicador para o
rosto do rapaz. Tal como o brutamonte, os olhos cinzentos de Roman eram
irredutíveis, com uma expressão severa pela primeira vez; parecia quase
sóbrio... Quase.
O homem ficou a encará-lo.
– Vai ficar me olhando, careca? – Roman olhou de soslaio para o outro.
O local estava cheio, mas a música havia parado e todos olhavam para os dois brutamontes ali, se encarando.
– Rapaz, encha minha caneca! – Roman exigiu.
– Já disse que não! – O careca rugiu.
Com um olhar frio, Roman fez o garçom servi-lo outra vez.
O motoqueiro lançou seu punho de encontro à caneca, destroçando-a e derramando cerveja para todo lado.
Rápido como uma pantera, Roman se esquivou puxou o braço do careca para trás, torcendo-o.
Um
segundo depois o gigante conseguiu girar e corpo e desferir um murro
potente na bochecha direita de Roman, que cambaleou para trás, grogue.
Antes
que o careca acometesse outra vez, Daniels pegou uma caneca qualquer em
cima do balcão, girou o braço e a explodiu na cabeça do brutamonte. Em
seguida, desferiu um duro pontapé nas costelas de seu oponente,
derrubando-o.
O homem se levantou bruscamente, abraçando o tronco
de Roman, levando-o ao chão. Os dois caíram entre as cadeiras do balcão,
quebrando uma ou duas. As pessoas se afastaram assustadas. O careca
desferiu uma série de murros na costela e no rosto de Daniels, antes que
o de cabelos brancos acertasse um soco poderoso sem se queixo,
atordoando o outro. Então Roman o tirou de cima de si e desferiu um
chute forte na cabeça calva.
– Encha uma caneca de cerveja para mim, rapaz, agora! – Ordenou. E assim foi feito.
Roman deu uma longa golada e cuspiu no motoqueiro.
– Bastardo de merda!
Roman
saiu do estabelecimento cambaleando na neve. À frente, o Rio Kuskowim
corria, célere, cortando o inverno sem preocupações, que não fosse
alcançar o outro lado.
O casaco de Daniels pouco servia naquela
ventania excruciante. Correntes de ar açoitavam seus cabelos rebeldes,
gelando um filete de sangue que corria de sua testa e de seus finos
lábios. Os olhos cinzentos pouco se destacavam na paisagem invernal. A
madeira do pequeno porto rangia sob suas botas enquanto ele avançava na
direção do rio.
Roman sabia que deveria sair dali logo. A polícia
chegaria em breve, e ele não queria problemas. Não podia ter problemas.
Sua mente não aguentaria. Os últimos meses foram muito conturbados. Não
com acontecimentos, mas em sua mente. Cada dia ele sonhava com a mulher
de cabelos de sangue que refulgia entre os açoites da escuridão do
mundo. Cada manhã ele pulava da cama, transpirando. Enterrava o rosto
nas mãos e se forçava a levantar. Caminhava até o banheiro e lavava seu
rosto nas águas sagradas da pia. Não ousava se olhar no espelho. Não
queria. Não devia. Envergonhava-se do que vira da última vez que o
fizera. As outras imagens o perturbavam insanamente; a águia, o elmo, a
hera, o mar, a escuridão. Mas a mulher era o que mais lhe tirava o sono.
Uma expressão confusa tomava-lhe o rosto; parte perigosa, parte
sensual, parte tímida e inteiramente bela. Olhos castanhos como um
carvalho, cabelos vermelhos como fogo. Quem era ela?
O som das
sirenes venceu os uivos do vento e despertou Roman de seus devaneios;
por um breve momento. Pois no céu, subitamente azul, luzes bailavam num
misto de prata com dourado, dobrando-se e esticando, formando imagens
confusas e rápidas, como uma TV fora do ar. Até que a Aurora Boreal se
firmou, engolindo céu! As imagens se tornaram nítidas. A mulher dos seus
sonhos estava ali! Conversando com um homem, velho, barbudo, de cabelos
alvos e roupas antigas, porém, suntuosas. Um rei! Ou um deus?
Esse
pensamento martelou em sua mente, causando alucinações surreais.
Flashes, lembranças não desconhecidas, conhecimentos esquecidos,
palavras não ditas, sonhos não sonhados, vidas não vividas, mortes
estranhas! Tudo corria em seu cérebro como um rio corre em seu leito. Em
volta, as pessoas observavam o espetáculo no céu, todas as que estavam
no bar, assustadas, estavam, agora, deslumbradas.
– Voc-ê... Está... V-vendo? – Perguntou Roman ao garçom ao seu lado, maravilhado.
– Estou! Lindo, não? – Respondeu, esquecendo a briga por um momento.
Ele não vê o que eu vejo! Ele não vê as imagens!
–
As imagens! Olhem! Aquela mulher! Vejam! Estão cegos?! – Ele girava em
torno de si próprio, apontando e gritando, sacudindo as pessoas em
volta, sendo afastado, chamado de maluco e doente mental. Mas ele não se
importava. Ela estava lá, encarando-o! Rindo dele!
Mãos fortes o agarraram pelo ombro, fizeram-no se ajoelhar e recitaram palavras confusas. Algo como direito de ficar calado e poderá ser usado contra você no tribunal. Algemas se fecharam em volta de seus pulsos e ele foi levado para dentro de um camburão, gritando, esperneando, enlouquecendo.
Nota: Capítulo escrito por Hugo Mendes Stark
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