Os lençóis grudavam em seu corpo esguio, ele suava, mas não era só
por causa dos quentes raios de sol do verão italiano. Acordou com o
corpo pesado, a cabeça girando, havia dias que era atormentado pelo
mesmo sonho, ou melhor, pesadelo. Ele se levantou e se dirigiu
vagarosamente para o banheiro. Necessitava de um banho. Essa era uma das
coisas que mais sentia falta do Brasil. Banhos longos e refrescantes,
algo impossível na Sardenha. Nem tão impossível se você tivesse dinheiro
o suficiente para pagar o acréscimo exorbitante por cada minuto além do
limite imposto pela dona da pensão, e se tivesse esse dinheiro
provavelmente não estaria em uma pensão e sim num dos grandes resorts de
Alghero.
Havia dois anos que deixara o Brasil, para estudar na
Royal Academy of Music em Londres. Desde pequeno se destacou na musica,
aos dez anos já tocava piano e violino e aos quatorze compunha suas
próprias musicas. Após um ano de curso, decidiu não fazer a
pós-graduação, nem entrar em alguma orquestra ou empresa do ramo. Passou
a viajar pela Europa, tocando em bares e restaurantes e dormindo em
albergues. Sentia que algo faltava a sua vida, todas as certezas que
tinha não existiam mais. Por isso saiu em busca de respostas, saiu em
busca de seu próprio eu.
– Você tem um minuto para sair desse
banho antes que sua conta suba! – Gritou em italiano uma voz feminina
com forte sotaque sardo.
Ele virou a torneira e a água deixou de
cair. Enxugou-se levemente e enrolou a toalha na cintura. O quarto era
pequeno, uma escrivaninha e uma cômoda completavam a mobília. Havia
partituras espalhadas por todo lado, porem desconsiderando elas o quarto
era muito bem organizado e limpo. Vestiu uma calça jeans, uma camiseta
polo e um sapatênis. Ajeitou as ondas de seu cabelo louro acinzentado no
espelho do corredor e desceu as escadas até a sala de convivência no
primeiro andar.
A sala tinha suas portas francesas voltadas para o
pequeno jardim no quintal da pensão, que deixavam que uma alta
quantidade de raios solares entrasse pela manhã, e era esse pequeno
detalhe que fazia Dimitri amar aquela sala. Nada era melhor que sentir
as carícias do sol em sua pele, quando acontecia, era um dos poucos
momentos em que se sentia completo. Seu café da manhã se resumia a um bombolone de amora, um cornetto de damasco e para beber um Marocchino.
Sentou-se em uma mesa mais perto das portas o possível e ficou ali,
degustando seu café e observando as pessoas a sua volta. Gastava horas
observando-as em parques, restaurantes e outros lugares públicos,
ajudava a esquecer dos próprios problemas e conflitos, o que atualmente
não lhe faltavam. Estava tão imerso na sua observação diária que não
percebeu que alguém se sentava a sua mesa. Ela tinha seus cabelos
castanhos presos em duas tranças que formavam um coque atrás, pele bem
branca, e olhos de um incrível tom de verde.
– Bonjorno, Dimitri! - exclamou ela em perfeito italiano veneto.
Ele acordou do devaneio e respondeu - Bonjorno, Vittoria.
– Tudo bem?
– Tudo sim, e você?
– Não. - respondeu decididamente.
– Por quê?
– Você me deu uma resposta ensaiada, eu até poderia acreditar, mas seu rosto não mente. Foram os sonhos novamente?
–
Sim. – Já eram duas semanas seguidas, e o mesmo sonho se repetia todas
as noites. Nele Dimitri, fugia de alguém cujo rosto brilhava tanto que
não podia ser visto. No entanto ao mesmo tempo em que ele era
perseguido, ele perseguia o ser sem face, criando um circulo vicioso
surreal.
– Sonhos são um reflexo de sua mente, a resposta para eles está dentro de você, só precisa procurar. - aconselhou ela.
– Esse é o problema, eu estou procurando, até demais!
– Então você deveria parar de procura-la.
– De que livro de autoajuda você tirou isso? - Riu ele dela.
– De nenhum. Seu sem graça. - respondeu ela, enquanto cruzava os braços.
– Não precisa ficar bravinha. Meu sonho não importa. Olhe para esse sol, e esse bombolone está divino.
Três
vezes ele já havia errado o acorde, apenas naquela noite. Vittoria
estava ficando nervosa. Mas o que ele poderia fazer, a simples presença
dela ao lado dele, já fazia seu coração se contorcer e sua atenção se
voltar totalmente àqueles olhos penetrantes e os lábios dela pareciam
destilar mel quando se mexiam. Logo que ela cantou o último verso e ele
tocou a última nota de “Say Something”, de The Great Big World e Christina Aguilera, ela virou-se para ele e disse:
– Você está bem?
– Por que não estaria? - respondeu despreocupado.
Ela
olhou para ele com uma expressão de certo desprezo e irritação -
Concentre-se Dimitri, você errou algum acordes em cada música que tocou
hoje.
– Perdão, não era a minha intenção...
– Não, tudo bem. Só preste mais atenção.
Ele
tocou acordes aleatórios e então começou a tocar uma música que não
estava no programa. Vittoria foi pega totalmente de surpresa e por isso
ele cantou a primeira estrofe enquanto ela se recuperava e entrava no
ritmo.
– “Lyin' here with you so close to me
It's hard to fight these feelings
When it feels so hard to breathe
I'm caught up in this moment
Caught up in your smile”
– “I've never opened up to anyone
So hard to hold back when I'm holding you in my arms
We don't need to rush this
Let's just take it slow” - Cantou ela, olhando para os olhos dele.
Eles
continuaram cantando a música juntos, um olhando para o outro. Dimitri
estava intrigado, seria a resposta dela real, ou apenas parte da
apresentação?
– “Oh, let's do this right
With just a kiss goodnight
With a kiss goodnight
Kiss goodnight” – Finalizaram juntos a canção.
–
Obrigado a todos, nossa apresentação termina aqui. Eu e Dimitri nos
apresentamos aqui das quintas aos sábados. Boa noite a todos. - Disse
ela cortesmente aos clientes do restaurante que os aplaudiam.
– O
que você estava pensando? - Inquiriu Vittoria, ao entrar na pequena sala
nos fundos do restaurante que eles chamavam de camarim.
– Qual o problema? Eles gostaram.
–
O problema... O problema é que... – Ela foi interrompida por uma batida
na porta. Dimitri abriu o bastante para quem estava lá ver apenas ele,
era um dos garçons.
– Algo de errado? - O pianista perguntou.
– Não. É apenas um convite de um dos clientes.
– Pode dizer.
– É apenas para a senhorita Vittoria, e é daquele cliente...
–
Então diga que ela agradece, mas já tem com quem jantar hoje. Boa
noite. – Rebateu Dimitri segundos antes de bater a porta na cara do
garçom, o cliente citado já estava a semanas tentando uma aproximação de
Vittoria, e isso o deixava muito irritado.
– Quem era? – Perguntou ela, enquanto arrumava o cabelo ao espelho.
– Aquele cliente, de novo.
– O dos olhos azuis?
– Sim. Ele a convidou pra jantar.
– E o que você respondeu?
– Que você já tem com quem jantar.
– Já tenho?
– Sim.
– E o que vamos jantar?
– Que tal algo brasileiro no cardápio.
– Perfeito!
Após
o jantar feito por ele, subiram juntos pelas escadas, os dois com caras
travessas, porem um pouco envergonhados. Pararam em frente à porta do
quarto de Vittoria.
– A noite de hoje foi agradável. – Ela disse tentando quebrar o gelo que havia se formado no final do jantar.
– Sim. - Ele respondeu, mas estava sem assunto, e não conseguia pensar em respostas maiores que essa.
O silencio reinou por alguns segundos, até que ela o quebrou:
– O que aconteceu com você hoje, durante a apresentação?
– Nada. - respondeu com desdém.
– Como assim? Você normalmente é tão focado, e depois mudou o programa e tocou “Just a Kiss”...
Ele se aproximou dela e a beijou impulsivamente.
– “Kiss goodnight”– disse ele quando as bocas se separaram.
Então
foi a vez dela de se aproximar e beija-lo impulsivamente. Mas não era
Dimitri quem a beijava mais. Era outra pessoa, alguém mais ousado.
Um
raio rasgou o céu noturno, cheio de nuvens negras. Abaixo delas uma
paisagem desolada se desenvolvia. Montanhas se viam no horizonte, negras
como ônix, mas ao seu redor só havia rochas, grandes blocos de granito e
calcário. Instintivamente Dimitri virou-se, e lá estava ele. O ser cuja
face não podia ser vista apensar de que o corpo fosse também difícil de
ver, devida a grande luz que emanava dele. Dessa vez um não fugiu, nem
perseguiu o outro. Ficaram se encarando por um tempo, até que Dimitri
quebrou o silêncio:
– Quem é você?
– Esta não é a sua verdadeira pergunta. - respondeu com um tom de superioridade.
– Não? - ele perguntou irônico. – Então, responda-me, qual é a minha pergunta?
– Você deve perguntar quem você é!
– E quem sou eu?
A luz oscilou, permitindo que Dimitri visse o rosto do seu interlocutor.
Os
suaves raios da aurora tocavam o rosto dele. Olhava pela janela do
quarto, fixo para o horizonte onde a esfera solar surgia lentamente. Em
sua cabeça memórias antigas o perturbavam. Desde a Época de Ouro dos
deuses, até as trevas da Idade Média, ele se lembrava de tudo. Agora ele
sabia quem ele era. Ele era...
– Dimitri? Já está acordado? - seus pensamentos foram interrompidos por Vittoria.
– Eu a acordei?
– Não, eu já estava acordada.
– Você fica tão bonita quando mente.
–
Você tem razão, mas não é de todo uma mentira. Eu já estava acordada
antes de você acordar. Você gritou durante a noite. Eu fiquei
preocupada, e acabei por não dormir mais.
– Me perdoe, eu não queria faze-la sofrer.
– Não peça perdão, não é necessário. Foram os sonhos novamente?
–
Não, e sim. O sonho não era o mesmo. Dessa vez não corríamos. Ele
estava parado, e eu perguntei quem ele era. Ele me disse que eu deveria
perguntar quem eu era. E quando perguntei, o brilho que ofuscava o rosto
dele cessou e...
– Quem era?
– Ele... Era eu...
– Dio mio.
– Eu preciso te fazer uma pergunta.
– Diga.
–
Se você soubesse que se você ficasse comigo você iria se machucar,
mesmo assim você continuaria comigo? Até onde vai o seu amor por mim?
–
Por que eu me machucaria? Você duvidar do meu amor por você é que me
machuca. Quem você pensa que eu sou? – Respondeu assustada.
– É muito complicado... Você não entenderia...
– O que eu não entenderia? Vamos, diga!
–
A noite passada despertou um lado em mim que por anos esteve
adormecido. Eu tenho as respostas que procurava, mas isso trouxe consigo
uma maldição.
– Maldição?
– Você não entende? Eu nunca vou conseguir ser feliz com você. - respondeu ele com os olhos lacrimejando.
– Você é insano. É assim que você pretendia me proteger, destruindo meu coração? - Ela chorava.
– Eu não sou louco! Eu tenho a razão, equilíbrio!
–
Onde está a razão nisso, Dimitri. Você nunca deixou eu me encontrar com
o cliente do restaurante, por que ele iria quebrar meu coração. Mas
quem o quebrou foi você! Você brincou comigo.
– Não! - Ele gritou.
– Você é um sociopata. Talvez estivesse melhor com outro.
– Isso, corre atrás dele. Vai, pode ir. Mas eu não sou louco!
– Você está cego. - Disse ao sair do quarto.
– Não, eu não sou louco. Eu não sou louco... - Ele repetia para si mesmo - Eu sou Apolo!
Ela
corria pela praça, seu vestido longo e branco esvoaçava. Quando soube
que Dimitri estava indo embora teve de ir atrás dele. Nem mesmo um
ricaço de olhos mais azuis que o mar poderia preencher o vazio que ele
havia deixado no coração dela. Entrou como um raio pela estação de
trens. Ela o procurava por todos os lados. A estação estava cheia de
turistas que já começavam a voltar para suas casas com o final do verão.
De dentro do trem ele a escutou gritar seu nome. Seu coração gelou.
Dimitri saiu do trem, seus olhos se encontraram. Ele correu para o outro
lado da plataforma, onde Vittoria estava. Ela o abraçou e ele a beijou.
– Me perdoe. Eu te amo, mesmo com a sua loucura.
– Não diga mais nada... – disse enquanto ela se desenroscava de seus braços.
Vittoria
se sentiu um pouco zonza, seu salto enroscou na barra de seu vestido e
então seu corpo se viu jogado para trás. Ele segurou-a pela echarpe,
porem seu pequeno corpo escorregou pela seda branca. Seus olhos se
mantiveram cruzados enquanto ela caia plataforma abaixo. Não havia mais
tempo, a única coisa que Dimitri poderia fazer era virar-se e escutar o
som das rodas nos trilhos de ferro e ossos.
Nota: Capítulo escrito por Rafael Bürger
Comente aqui.






