─ A propósito, como você fez aquilo? – indagou, por fim, Darell a Pisyan irrompendo o longo silêncio. A curiosidade o corria por dias, porém, só naquele instante tivera coragem de perguntar.
Caminhavam por pelo menos seis dias na mesma paisagem, que não parecia querer mudar. Anie e Pisyan iam à frente abrindo caminho, a maga com suas adagas e a mulher-gato com suas garras, enquanto Darell apenas as seguia. A floresta era densa demais, havia muitos galhos, cipós e trepadeiras por todo o caminho, de modo que foram obrigados a abrir caminho à força e a andarem devagar.
─ Aquilo o quê? – perguntou sem entender sobre o que o rapaz estava falando.
Pisyan levantou as mãos para cortar um pequeno galho que bloqueava seu caminho quando estranhos cipós vermelhos se enroscaram em suas mãos.
─ Aquilo, quando derrotou aqueles bichos estranhos seis dias atrás. Como conseguiu caminhar sobre o fogo?
A gata sorriu quando Anie cortara os cipós que a prendia, mas nada disse. Depois voltou ao trabalho de abrir caminho.
Outro cipó enroscou-se em uma das mãos de Pisyan, que o cortou com a outra mão sem maiores dificuldades.
─ Pisyans, também conhecidos como gatos de fogo, são imunes ao fogo quando transformados e muito raros. Durante a transformação, suas escamas negras, que muitas vezes são confundidas com pelos, se tornam vermelhas e eles passam a emanar um grande calor de seus corpos, promovendo a combustão do ar redor deles – explicou Anie concentrada no que estava fazendo.
Pis se aproximou de Darell e sussurrou:
─ Ela é sempre assim?
Darell balançou a cabeça positivamente.
─ Ela está acostumada a estar sempre sozinha, deve ser difícil ter companhia de uma hora para a outra. Além disso, salvou nossas vidas e parece conhecer bem este mundo, merece um voto de confiança.
Pisyan olhou para a outra que parecia não se importar com sua presença, ponderando as palavras do mago. Depois voltou ao trabalho, cortou dezenas de galhos a sua frente sem perceber que o perigo, na verdade, estava ao alcance de seus pés. Um cipó se enroscou em seu pé esquerdo e, quando ela girou seu corpo para trás na tentativa de ver o que o segurava, outro se enroscou em seu pulso direito.
─ Esses cipós já estão me dando nos nervos – disse com uma leve ira em seu tom de voz.
Anie se aproximou da outra e a ajudou a se soltar, cortando aquele que prendia sua mão.
─ Melhor nos apressarmos – acelerou o grupo, a maga.
As duas cortaram o bloqueio mais depressa que conseguiram, mas a fadiga já as dominava. Pisyan se jogou no chão, exausta.
─ Não podemos descansar um pouco? – ela arfava.
Mas ninguém a respondeu, Anie estava concentrada demais e pequenos ruídos para dar atenção a outra. Darell também nada dissera, estava perturbado com o repentino silêncio da floresta.
─ Ouviram isso? – perguntou Anie.
Pis levantou de sobressalto, suas orelhas se mexiam como se estivesse tentando ouvir todos os barulhos da floresta. Ela anuiu
─ Água! – respondeu com empolgação.
─ Deve haver um rio não muito longe – informou Anie.
─ Eu não ouço nada – comentou Darell, mas as duas estavam ocupadas demais abrindo caminho para respondê-lo.
Anie cortou alguns cipós que estavam a sua frente e a mulher-gato alguns galhos e pequenas plantas. Estavam ambas determinadas a chegar até a fonte de água que iria aliviar o cansaço, a sede e o calor excessivo. Contudo, Darell estava mais preocupado com outra coisa, o silêncio da floresta o deixava inquieto.
─ Ah, acho que agora ouvi – comentou o rapaz ao ouvir um barulho indistinto. – Mas vinha daquela direção – acrescentou quase como se estivesse sussurrando de tão baixo e virou para trás.
Todo o caminho que haviam aberto para chegarem até ali estava fechado novamente. Grossas raízes estavam expostas no solo cobrindo todo o solo por onde passaram. Novos cipós se entrelaçaram às árvores e pequenas mudas de alguma planta cresceram, bloqueando completamente o caminho de volta. Estavam completamente cercados por aquela floresta, não havia uma única trilha aberta.
─ Meninas, não quero assustá-las, mas acho que temos um problema aqui – ele deu pequenos passos para trás até encostar suas costas nas das jovens, então parou. – Ei, Anie, é possível que esta floresta esteja viva, mas não da maneira convencional? – ele engoliu em seco, não estava gostando nada daquilo.
De súbito, como se tivesse se lembrado de algo muito importante, a maga parou e se virou para trás. Sua expressão era de terror puro, porém ela não disse nada. Fez sinal para que todos ficassem em silêncio, depois gesticulou para que a Pisyan continuasse a abrir caminho e entregou uma de suas adagas para que Darell fizesse a mesma coisa o mais silenciosamente possível. Eles obedeceram sem relutância, e ela os imitou, cortando tudo o que estava a sua frente.
Prosseguiram assim por algum tempo, abrindo espaço para passarem enquanto a floresta continuava um pouco adormecida. Entretanto, a situação mudou quando a gata, sem perceber, pisou em uma das raízes ocas que estavam no chão, esmagando-a e provocando um estrondo. Em seguida, ouviram um estranho barulho estridente vindo de todos os lados como se as árvores estivessem conversando entre elas, depois tudo ficou em silêncio novamente por um tempo breve.
Ela apenas sorriu quando Anie a olhou de cara feia, era possível ler até sua expressão, tome cuidado. Porém, não houve tempo para se virar e voltar ao trabalho. Um grupo de raízes e cipós ia à direção deles bem devagar, como se estivesse farejando o ar ao redor.
─ Pis, você pode fazer novamente aquilo que você fez naquela aldeia alguns dias atrás? – quis o mago saber aos sussurros, aterrorizado.
─ Absolutamente não – respondeu, havia temor em sua voz. - Você é o mago aqui, faça alguma coisa! – aquele pedido, quase como uma ordem, saiu estridente.
Antes que o rapaz pudesse abrir a boca para objetar alguma coisa, Anie se antecipou. Usando sua adaga, ela cortou um galho e o segurou com uma mão, como se estivesse prestes a arremessar uma lança rústica. Em seguida, com magia, ela incendiou a lança e a arremessou a alguns centímetros de distância das raízes e cipós que recuaram frente ao calor do fogo.
─ Vão – ordenou aos sussurros, Anie.
Eles abriram um longo caminho e ganharam uma boa distância enquanto o fogo continha temporariamente o avanço. Mas a vantagem obtida durou muito pouco, a floresta reagiu ao ataque com um grito estridente e um tremor de terra.
─ Corram – e isto foi tudo o que a maga conseguira dizer.
Uma horda de raízes e troncos, formando camadas sobre camadas, avançou em direção ao fogo e à maga, circundando-os, com tamanha rapidez que, quando Pisyan e Darell olharam para trás, Anie já estava dentro de uma enorme e grossa parede de madeira. Ela teria de escalar se quisesse sair dali.
─ Anie – gritou Darell preocupado. Ele tentou ir atrás da amiga, mas foi impedido por Pisyan, que segurou seu braço.
─ Nós precisamos ir – disse ela.
─ Preciso ajudá-la. Devo minha vida a ela.
─ De nada adiantará se você morrer. Não há nada que você possa fazer contra a floresta inteira com apenas uma adaga.
Darell ficou em silêncio. Ele observou o casulo de madeira que envolvera Anie e o contínuo avançar das raízes, que se moviam com certa rapidez para uma planta em direção aos dois.
─ Precisamos ir. Agora – voltou Pisyan a dizer, apertado o braço do rapaz com mais força.
Ele a olhou, depois voltou a fitar o casulo. Não queria partir e deixar aquela mulher à própria sorte mais uma vez. Recebera uma nova chance de protegê-la e corrigir seu erro do passado, mas Pis estava certa, ele não podia usar magia naquelas condições e contava apenas com uma adaga como arma. Teria uma morte rápida e de pouca utilidade seria se morresse ali.
Darell fitou novamente a mulher gato e assentiu lentamente com a cabeça, por mais que aquela decisão o corroesse por dentro. Ela soltou o braço dele e virou-se para trás.
─ Eu voltarei para te buscar, prometo – disse ele mentalmente a si mesmo enquanto olhava o casulo pela última vez, depois repetiu a ação de Pisyan. – Por que está ai parada?
─ Sou eu que estou ficando louca ou as plantas que barravam nosso cominho desapareceram? Eu posso jurar que elas estavam aqui até eu te impedir de ir salvar a maga.
O rapaz fitou o caminho à frente e, de fato, todos os galhos e cipós haviam desaparecido. A floresta adiante dali parecia apenas uma floresta normal, com árvores espalhadas pelo terreno, espaços suficientemente grandes entre uma árvore e outra para eles passarem e, sobretudo, sem cipós barreirando todo o caminho. Continuava assustadoramente silenciosa, mas eles não precisavam mais de armas para passar, podiam correr livremente.
─ Não acho que esteja louca, caso contrário, eu também estaria – respondeu incrédulo.
─ Não estou gostando nada disso.
Ela sentiu todos os pelos de seu corpo se eriçar, inclusive os cabelos, e as orelhas achataram-se para os lados. Não pensou, ao contrário, agiu por instinto e pulou em cima do rapaz, derrubando-o, bem a tempo de ver uma raiz grossa e extremamente pontiaguda passar com velocidade onde suas cabeças estiveram e acertar o solo não muito distante deles.
Eles se levantaram rapidamente e olharam o estrago que a raiz fizera no chão. Uma cratera de aproximadamente um metro de diâmetro se formara, e nela ainda se encontrava a raiz assassina com muita terra em volta. A planta contorcia-se dentro do buraco, aparentemente estava presa e tentava se soltar.
─ Essa foi por pouco. Obrigado.
─ Eu achava que o meu planeta, Mushroom, era estranho, mas estava enganada, este é ainda pior – confessou. – Agora é melhor irmos de uma vez antes que esta raiz se solte ou apareça outra.
Darell anuiu.
Os dois correram rápido apesar de todo o esgotamento que sentiam. Ganharam algum tempo, um bom espaço de vantagem, mas, mesmo tendo chegado tão longe, a floresta não parecia desistir de querer matá-los. Inúmeras vinhas os espreitavam a espera de um bom momento para atacá-los.
Darell escutou Pisyan gritar quando se separaram para contornar uma árvore de tronco largo. Ele se virou e a procurou com os olhos sem sucesso, não estava em nenhuma direção que olhava. Também não tivera muito tempo para pensar onde estaria, uma vinha o atacou pelas costas. Ele conseguiu virar-se e pôr a adaga na frente antes que a vinha o atacasse.
O mais estranho foi o que aconteceu a seguir, o choque da vinha na lâmina de Anie produziu um tênue brilho azul. A intensidade da luz aumentou conforme a força do impacto também aumentava, um clarão fora a última coisa que Darell viu antes de ser arremessado alguns metros para trás, bater com as costas em uma árvore e cair no chão.
Ele se sentou no chão, atordoado, a cabeça girava e olhou para a adaga em sua mão, depois para o lugar onde estava.
─ O que...?
A adaga continuava intacta, não havia uma única rachadura, já ele estava milagrosamente bem. Um arremesso daquele deveria tê-lo matado, entretanto, ele ainda estava ali e sem nenhuma dor. Como sobrevivera, o mago não fazia e menor ideia.
Por outro lado, a vinha que o atacou não parecia nem um pouco bem, parte dela parecia ter explodido em milhares de pequeníssimos pedaços e se espalhado por aí, a outra estava inerte no chão e muito chamuscada. O interior da vinha estava amostra, uma gosma branca escoria pela terra enquanto se tornava cada vez mais consistente e, por fim, endurecer. Aquela vinha parecia... morta.
─ Que cheiro de árvore queimada é esse? – perguntou Pisyan ao sair de trás de algumas árvores e caminhar até Darell.
O rapaz se levantou do chão com dificuldade, apoiando-se na árvore atrás dele para não cair novamente.
─ Onde você estava? Você me deixou preocupado quando gritou.
─ Aquilo? Err... Eu só levei um susto quando aqueles malditos cipós se enrolaram na minha canela e me fizeram ficar pendurada de cabeça para baixo novamente. Aliais, este mundo adora me deixar pendurada de cabeça para baixo – a frustração era evidente em seu tom de voz. – Eu estou bem. Mas que cheiro de queimado é esse? E que clarão foi aquele?
Ela olhou ao redor procurando a fonte do cheiro.
─ Oh! Você derrotou a raiz endiabrada – disse fixando o olhar na vinha chamuscada. – Pensei que não pudesse usar magia nestas condições, pelo visto estávamos enganados – ela deu alguns tapinhas de leve nas costas do mago enquanto sorria.
─ Não fui eu... – hesitou, olhando com atenção para a adaga em sua mão.
─ Então quem foi?
─ Não é quem, e sim o quê... Acho que foi a lâmina que Anie me emprestou.
─ Essa coisa aqui? – apontou para a lâmina.
Pis observou o objeto com atenção.
─ Acho que vi coisas estranhas demais para um único dia – concluiu descrente.
Darell exprimiu um sorriso débil no rosto, ele não podia culpá-la por não acreditar. Mesmo para ele que a magia faz parte de seu dia a dia, era difícil de acreditar no que acontecera. Talvez se não tivesse presenciado tudo, também não teria acreditado.
─ Consegue correr?
─ Daqui alguns minutos... Acho que sim.
─ Não sei temos alguns minutos.
─ Seria bom descansarmos um pouco também.
─ E correr o risco de ser morta? Prefiro descansar quando tiver certeza de que estamos seguros. Fique ai se quiser, eu continuarei – ela disse dando as costas a ele e voltando a correr.
─ Espere – Pisyan parou e olhou para trás. – Eu vou com você.
Mesmo exaustos, eles dispararam em direção ao rio, que se tornava cada vez mais alto o som de água. Também era possível ouvir o estrondo da floresta atrás deles, que parecia determinada em matá-los a qualquer custo.
─ Veja, para lá não há mais árvores. Mais um pouco e estaremos fora da floresta – Pisyan apontou para frente. – O rio também não deve estar muito longe.
Ela continuou correndo enquanto Darell se arrastava atrás dela, ele estava ofegante e mal conseguia continuar caminhando. Ele parou, apoiou-se em uma árvore e baixou a cabeça, tentando encher os pulmões de ar.
─ Eu... Não aguento... mais – arfou.
Ela parou e o fitou.
─ Só mais alguns passos e estaremos fora. Aquelas raízes estão bem atrás de nós, posso ouvi-las, precisamos continuar – instigou.
Ele caminhou apoiando-se nas árvores enquanto ela corria até o limiar do bosque. Contudo, para a surpresa dela, não havia mais terra por onde pudesse continuar correndo, ao invés disso, havia um rio de margens largas que serpenteava por entre montanhas.
─ Desculpe, mas vamos precisar continuar correndo, Darell – ela olhou amedrontada para baixo, por onde o rio corria.
─ Por quê? Pensei que você tinha dito que a floresta terminava aqui – arfou Darell caminhando lentamente.
─ E termina, mas... ─ Ela hesitou por alguns minutos olhando novamente para baixo. ─ O chão também.
O mago parou ao lado de Pisyan e fitou o rio.
─ É um pouco alto para arriscarmos um pulo – observou.
─ Muito alto, definitivamente muito alto – corrigiu Pisyan após engolir em seco.
─ Também está um pouquinho longe para tentarmos pular e alcançar a pradaria do outro lado.
─ Muitíssimo distante – corrigiu novamente.
─ Alguma sugestão?
─ Podemos tentar seguir o curso do rio, em algum momento devemos encontrar uma área mais baixa por onde possamos atravessá-lo e fugir desta floresta assassina.
Darell considerou a possibilidade com cuidado. Ele estava exausto e não sabia se conseguiria continuar correndo por muito mais tempo, já Pisyan parecia ter uma resistência maior que a dele, mas até ela estava enfrentando as consequências do cansaço.
Por outro lado, atrás deles os ruídos da floresta ficavam cada vez mais altos. Não iria demorar muito para que os alcançasse novamente.
─ Acho que esta é uma boa hora para conhecermos o companheiro de equipe. Quais habilidades você escolheu? – Perguntou Darell.
─ Fogo, força e camuflagem.
─ Eu escolhi minha magia astral, alta concentração e conhecimento... Ei, por que está me olhando com essa cara? – Pisyan o olhava torto.
─ Por que escolheu habilidades tão inúteis? – ela bufou.
─ Não são inúteis. Magia astral requer muita concentração e conhecimento, pensei que se eu aumentasse minha capacidade de concentração e o meu conhecimento em magia, eu poderia progredir mais rápido e aumentar meu poder.
─ Continua sendo inútil para mim.
Darell suspirou, ele não queria prolongar aquela conversa, sabia que não daria em nada.
─ Você pode nos camuflar? – indagou.
─ Quando nosso inimigo é a própria floresta? Nem pensar.
─ Estamos ficando sem opção – um estrondo vindo de algum lugar atrás deles os fizeram olhar para trás, assustados. – Precisamos pensar em algo com urgência, estamos ficando sem tempo e estamos exaustos demais para continuar correndo.
Uma ideia passou pela cabeça do rapaz e ele observou novamente o rio que corria lá embaixo. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um novo estrondo os assustou e eles olharam novamente para trás, mal tiveram tempo para processar o que viam.
Uma mulher apareceu alguns centímetros de distância deles e os empurrou penhasco abaixo, depois se virou e se defendeu de uma raiz gigante com sua adaga. A raiz a empurrou para a beirada, porém, antes que ela pudesse ser jogada precipício abaixo, a adaga brilhou, um brilho ainda mais intenso do que ocorrera com o rapaz.
Lentamente, Darell foi se sentindo cada vez mais cansado e a tentação de fechar os olhos e se deixar cair em um sono profundo tornou-se mais forte. Seu corpo caía em queda livre com uma rapidez assustadora, não havia mais nada o que pudesse fazer. No entanto, seu cérebro ainda tentava processar o que os olhos viam no alto do penhasco. A luz era morna e não o cegava, mas o mais surpreendente era a mulher que estava em pé na beirada... Não, não era a mulher em si que chamava sua atenção, e sim o que estava em suas costas... Aquilo eram asas?
─ Um anjo? – murmurou o rapaz.
O brilho desapareceu do mesmo jeito que apareceu, e a adaga voltou ao normal. O vislumbre do par de asas nas costas da mulher também desapareceu, então ele a viu se virar e pular de cabeça em direção ao rio. O rosto conhecido daquela mulher lhe dera novas energias e ânimo.
─ Anie – gritou ele, atraindo a atenção de Pisyan que a fitava com o olhar de desaprovação enquanto os três caíam.
Nas costas de Anie não havia nenhum par de asas, nada e diferente, era apenas um corpo feminino muito parecido com o de um humano com a pele clara, os cabelos longos e os olhos negros. Os cabelos castanhos estavam presos em uma trança bem elaborada que parecia incrivelmente arrumada para a situação que se encontravam, a adaga em mãos e vestia seus usuais colete e calça de couro com a bota preta sem salto. Ela estava exatamente como ele se lembrava, exceto pelo cabelo preso. O que teria sido aquelas asas então? Talvez uma imagem que a cabeça cansada dele criara ou uma ilusão como no dia que eles se encontraram em que ela o fizera cair por horas em queda livre, ele não sabia ao certo.
─ Anie, cuidado – gritou, e foi tudo o que ele conseguiu fazer além de assistir às raízes saírem de dentro da terra da íngreme parede esculpida pelo rio abaixo deles e irem na direção deles.
Ela rapidamente virou seu corpo para cima e se colocou no caminho das raízes que novamente se chocaram com a adaga. Não houve um clarão dessa vez, ao invés disso, a floresta acima deles rugiu e a maga foi arremessada com velocidade para baixo enquanto as raízes voltaram para dentro da terra na encosta. Pareciam finalmente ter desistido deles e deixado-os em paz, apesar de que foram abandonados à morte certa.
Somente o impacto dos corpos de Pisyan e Darell na água após caírem em queda livre era o suficiente para quebrar todos os ossos deles e matá-los. O caso de Anie era ainda mais complicado, a aceleração dada pelas raízes aumentou a velocidade de queda, o que, consequentemente, aumentará a força do impacto do corpo dela na superfície da água. Além disso, em casos de queda de altas alturas, a pressão de resistência do ar e a força da gravidade agindo juntas sobre o mesmo corpo seria capaz de até matar uma pessoa. O grupo estava reunido novamente depois de horas exaustivas fugindo da floresta, porém, agora tinham um novo desafio: sobreviver à queda e ao choque com a superfície de água.
Enormes bolhas se desprenderam da superfície da água e flutuaram até eles, envolvendo-os até estarem no interior de cada uma delas. A velocidade de queda diminuiu e eles planaram por alguns minutos. Ao se aproximarem da superfície do rio, começando por Anie, as bolhas se estouraram uma a uma e jogaram-nos na água.
Enquanto lutavam para não se afogarem, a forte correnteza os arrastou para uma enorme cachoeira, onde uma nova bolha surgiu e envolveu os três. A bolha deslizou pela superfície da queda d’água por quarenta metras e, então, estourou, deixando-os a carga da cachoeira para descer os três metros restantes. A força da água os empurrou até o fundo do lago até conseguirem se livrar daquela força e nadarem de volta a superfície.
Ao emergirem, eles nadaram até a margem mais próxima, deram poucos passos no cascalho molhado e deixaram seus corpos caírem ao chão, exaustos.
─ O que era aquelas plantas? – Perguntou Pisyan após longos minutos em silêncio.
─ Plantas carnívoras, também conhecidas como A Floresta Assassina – respondeu Anie.
Anie levantou e começou a procurar gravetos secos enquanto Pisyan ficou sentada nas pedras molhadas, observando-a, e Darell continuou deitado. Estava exausto demais para mover um único dedo.
─ Então você sabia o que era aquela floresta? – Uma pontada de raiva crescia dentro da mulher-gato.
─ Sim.
─ E ainda sim nos levou direto para aquele lugar?
─ Eu tinha me esquecido que aquela era a floresta assassina. Há tantas florestas neste planeta... – Respondeu a maga, mas Pisyan já não prestava mais atenção no que Anie dizia. Ela se levantou e agarrou uma das alças do colete da outra, fazendo com que todos os gravetos caíssem no chão.
─ Está me dizendo que nós quase morremos hoje porque a sabe-tudo esqueceu onde estávamos? – Suas palavras e seus olhos estavam carregados de ira.
─ É – respondeu com desdém.
Darell se levantou às pressas e soltou Pisyan de Anie.
─ Meninas, não briguem – pediu o rapaz.
─ Você a ouviu, nós quase morremos por causa dela.
─ E estamos vivos também por causa dela.
─ Você chama aquilo de salvar alguém? Ela quase nos matou afogados!
─ Se ela quiser partir para cima, deixe que venha, Darell. Podemos terminar o que começamos – ela observava a cena toda com desdém.
─ Finalmente disse algo interessante – Pisyan sorria, os olhos frios e irados fitavam a maga, na qual estava parada atrás do rapaz.
─ Parem, vocês duas! – Darell gritou – Ninguém vai lutar contra ninguém! Pisyan, se Anie quisesse nos matar, já teria nos matado. Ela não precisava voltar por nós se não quisesse, poderia muito bem ter nos deixado morrer, no entanto ela voltou e arriscou sua vida para nos salvar.
Aquelas palavras a acertaram com força. Ela praguejou algo incompreensível e se afastou dos dois, sentando-se nas pedras secas perto da margem do lago, e lá ficou observando o sol se pondo, peixes caindo junto com a água na cachoeira e alguns pequenos animais do outro lado da margem. Até então, ela não havia percebido como aquele lugar inspirava tranquilidade.
Darell estendeu a empunhadura da adaga a Anie, devolvendo-a.
─ Obrigado, esta adaga salvou minha vida.
Ela não respondeu, mas deixou transparecer um pequeno sorriso no rosto. Então guardou as duas adagas de volta em seu inventário mágico e voltou a recolher os gravetos, os quais usou, mais tarde, para fazer uma fogueira em uma área seca perto do lago.
Darell a ajudou preparar alguma comida para o grupo comer pescando os peixes enquanto Anie os limpava e os tostava na fogueira. Pescou um total de seis peixes, o que dava dois para cada um comer.
Pisyan não interagiu com nenhum dos dois desde a briga dela com a maga, limitou-se a observar o trabalho dos dois com a fogueira e a comida. Parte dela ainda estava com raiva, mas mais de si mesmo do que de Anie. Ela havia encarado a morte vária vezes em um único dia, porém fora incapaz de se defender, a única coisa que conseguira fazer foi fugir e abandonar uma companheira enquanto Anie não apenas voltara como também se arriscara para salvá-la. Sentia-se frustrada e com raiva de sua própria fraqueza.
─ Este mundo é doido, mestre – murmurou arremessando uma pedra na água –, mas o senhor iria gostar daqui, tem bastante comida.
Ela olhou para baixo para pegar uma nova pedra e arremessá-la quando alguma coisa brilhante entremeada nas pedras lhe chamou a atenção. Pis desenterrou o objeto da areia abaixo das pedras e o colocou na palma de sua mão. Era um anel, um pequeno anel prateado que reluzia com a luz da lua cheia. Ela o mergulhou na água para tirar a areia e o colocou em seu anelar esquerdo, descobrindo que cabia perfeitamente em seu dedo. Sorriu com a descoberta, estava feliz por ter encontrado o anel. Quem sabe se não era um artefato mágico que lhe daria alguma habilidade mágica?
O cheiro de peixe frito que entrava por suas narinas estava a matando, deixava-a com ainda mais fome, obrigando-a a sair de sua isolação e caminhar até a fogueira, onde se sentou e observou Anie tostar os peixes. Ela esticou o braço para pegar um dos peixes que estavam no fogo.
─ A carne crua desses peixes possui uma concentração razoável de veneno – informou a maga antes de Pis tocar no peixe. Então ela recolheu o braço e esperou em silêncio.
─ A propósito, Anie, há uma coisa que eu gostaria de perguntar.
─ Diga.
─ À tarde, quando você me empestou a sua adaga e eu fui atacado por uma raiz, a raiz tocou seu punhal que produziu uma luz intensa e nos repeliu. Ele deveria ter quebrado quando a raiz atacou, no entanto, não possui uma única rachadura. Por quê?
Pisyan escutava a conversa dos dois com atenção, mas se limitava a olhar apenas para a comida. Estava envergonhada demais para encarar qualquer um dos dois.
─ Essas adagas são um artefato mágico. Enquanto o aço ainda estava quente, o metal foi imbuído com diversos encantamentos que lhe conferiram uma grande resistência. Somente uma magia de mesmo nível ou superior pode quebrar a lâmina – explicou.
Ela tirou os peixes do fogo e deu dois para cada um, depois pegou os seus. Todos comeram em silêncio e foram dormir em seguida, estava cedo ainda, a noite mal caíra, mas o dia havia sido longo e exaustivo de modo que estavam todos muito cansados.
No dia seguinte, eles levantaram acampamento durante o nascer do sol e comeram frutinhas silvestres que encontraram pelo caminho. Caminharam por um bosque de árvores espaçadas, não muito altas, e copas largas por quatro horas sem dizer uma única palavra.
Pararam na entrada de uma cidade que parecia abandonada a pouco tempo, pois todas as casas ainda estavam inteiras.
─ É impressão minha ou as árvores aumentaram de tamanho de uma hora para outra? – perguntou Pisyan quebrando o longo silêncio.
─ Não foram as árvores que aumentaram, fomos nós que encolhemos – constatou Anie.
─ Olha o tamanho daquele gato – apontou Darell ao enorme gato negro um pouco a frente deles.
Os pelos de todo o corpo de Pisyan se eriçaram e as orelhas se encolheram. O gato os fitava com seus enormes olhos cinza como quando ela encontrava um aperitivo gostoso.







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